O racismo na Coreia do Sul


Apesar do cenário místico criado pelo k-pop, ainda existem assuntos velados que precisam ser discutidos na Coreia do Sul. Dois importantes são: o racismo e a xenofobia disfarçados como gosto.


Escrito com a participação de Sofia Schurig

A Coreia do Sul é um país conhecido por sua música e performances impecáveis. Além da beleza fascinante a todos que simpatizam com sua arte, ainda há problemas estruturais que precisam de uma desconstrução. O racismo no país é, muitas vezes, velado como um tópico de opinião ou gosto pessoal, e a problemática é acrescida devido ao padrão de beleza imposto na sociedade coreana: rosto pequeno, olhos grandes, boca pequena, pálpebra dupla, magreza e infelizmente a pele clara ao ponto de chegar a ser pálida de forma não-natural.

Há diversas “técnicas” sendo usadas entre os coreanos para esconder tons de pele considerados escuros, deixando claro a aversão quase coletiva a tais. Desde a aplicação de whitewashing em fotografias, ao uso de produtos de beleza que embranquecem e clareiam a pele. Ao procurar fotos de famosos coreanos, principalmente os que atuam no k-pop, é perceptível que a pele costuma estar mais branca que o normal. Isso ocorre em razão do whitewashing, a edição de fotografias por fãs ou empresas insatisfeitas em ver seus idols com peles mais bronzeadas. Outra prática super corriqueira no país é usar produtos de hidratação constantemente, algo que se torna problemático quando grande parte preza por usar cremes que ajudam a clarear a pele.

Exemplo da prática de whitewashing.

As brasileiras do canal Oh, My Friend! Marcella e Amanda foram chamadas para experimentarem produtos de uma empresa de cosméticos na Coreia do Sul, já que ambas moram no país e usam seu canal no YouTube para falar sobre cultura coreana em português. Elas declararam que iriam negar a parceria porque os produtos propostos eram de clareamento de pele, deixando claro que essa discussão sobre racismo é muito recorrente entre todos os brasileiros. Por não conterem uma ampla população diversificada em seu território, mas uma sociedade fisicamente homogênea ao falarmos de fenótipos, coreanos tendem a não entender porque endeusar peles claras é uma prática racista.

Em um programa popular, a integrante Tzuyu do grupo Twice disse não gostar na sua pele e que preferia que ela fosse mais clara como uma colega da banda. A conversa se tornou ainda mais problemática após a tradução mostrar Jessi, apresentadora do programa e também cantora, perguntando se ela não tentara esfregar sua própria pele – como se seu tom de pele fosse sujeira. Apesar de tentativas de voltar atrás em sua fala, o curto período foi o suficiente para se tornar um dos tópicos mais comentados do Twitter no k-pop. Uma nota emitida pelo programa afirmou que a apresentadora utilizou o termo Ttaemiri que foi mal traduzido para “limpeza” ou “sujeira”. A conversa continua sendo problemática a partir do momento em que Tzuyu se sente incomodada com seu tom de pele, tudo isso em razão do padrão de beleza coreano e comentários maldosos por fãs que ela possa ter ouvido. Além disso, há boatos de que a cantora também já sofreu bullying por ser taiwanesa. Com toda a repercussão negativa, veio à tona o fato de que a apresentadora do programa já fez blackfishing ao usar bronzeamento excessivo.

Em 2017, Han Hyunmin, de 16 anos, se tornou o primeiro modelo coreano negro na história da indústria da moda no país. Mesmo com seu sucesso após chamar atenção por sua altura e pernas longas, Hyunmin sofreu uma série de ataques racistas. Uma agência chegou a dizer que não o aceitaria como modelo porque “pele escura dá azar”. “Muitos coreanos usam a palavra heukhyeong (que significa irmão mais velho negro). Nós [pessoas negras] achamos a palavra muito ofensiva, mas muitas pessoas a usam sem saber”, disse o modelo em entrevista.

A representação de estrangeiros e imigrantes na mídia sul-coreana faz parte do problema. Como uma indústria, o k-pop tem sérios problemas de apropriação cultural de aspectos da cultura afro-americana, além de uso de blackface na televisão nacional e inúmeros escândalos de artistas usando palavreado racista ou repetindo a n-word. Celebridades já performaram personagens racistas e usaram roupas de gangues para imitar pessoas negras sob a justificativa de humor. Após comoção pública, já que as novas gerações sul-coreanas estão se tornando cada vez mais internacionais, personalidades midiáticas usam a ignorância como argumento. A resposta, não só de artistas mas de seus fãs, é que não é possível que eles tenham consciência de que tais ações são racistas já que a Coreia do Sul é um país homogêneo, com pouco multiculturalismo. Esse fator é real, mas não pode ser usado como desculpa.

Imigrantes são 4% da população sul-coreana, sendo divididos em metade chineses, e uma pequena porcentagem de norte-americanos, filipinos, vietnamitas, tailandeses, japoneses e poucos outros países asiáticos.

Em 2020, a Comissão Nacional de Direitos Humanos do país divulgou os resultados de uma pesquisa sobre discriminação racial na sociedade sul-coreana. A pesquisa falou com mais de 310 imigrantes no país. De acordo com a pesquisa, 68.4% dos correspondentes afirmaram já ter sofrido algum tipo de discriminação racial. Com a pandemia, a sinofobia – xenofobia com chineses – se espalhou pela Coreia. Milhares na internet afirmaram que a Coreia do Sul deveria boicotar a China para evitar a propagação do coronavírus. Meio milhão de pessoas assinaram uma petição online instando o governo a impor uma proibição de entrada aos chineses, assumindo que todos os chineses podem espalhar o vírus.

Muitos estabelecimentos são segregados e não permitem a entrada de estrangeiros, sobretudo em espaços de lazer como restaurantes ou boates – e alguns fazem questão de deixar isso claro ao ponto de colocarem placas nas fachadas. Em certos casos, é criado, dentro de um mesmo local, uma secção para coreanos e uma secção para estrangeiros, não permitindo a socialização de ambos.

Segundo entrevistados, o conhecimento – ou falta – da língua coreana é uma das principais razões para tais discriminações, seguindo com o simples fato de ser imigrante e país de origem. Mais da metade dos entrevistados afirmaram sofrer com algum tipo de abuso verbal, como xingamentos ou ridicularização em público, e 7,1% responderam terem sofrido algum tipo de abuso ou assédio sexual. Em 2018, um fluxo de migração de iemenitas gerou uma onda de racismo e islamofobia no país. Quando centenas de iemenitas entraram na ilha de Jeju para buscar asilo, houve protestos em massa para a deportação dos imigrantes. Feministas sul-coreanas acusaram mulheres iemenitas de cometerem crimes sexuais e começaram um boato de que uma imigrante seria responsável por abusar uma sul-coreana na ilha de Jeju.

A Coreia do Sul não possui leis que protejam minorias sociais, e, muitas vezes, a legislação pode se voltar contra esses grupos. Indivíduos multirraciais nascidos na Coreia são tratados como segunda classe. Apesar da Lei de Nacionalidade do país declarar que “Uma pessoa cujo pai ou mãe seja cidadão da República da Coreia no momento do nascimento da pessoa… será um cidadão da República da Coreia”, crianças que tenham país de diferentes nacionalidades, mas não tenham relacionamento com seus pais, não obtêm cidadania.

Mesmo com tantos problemas para serem resolvidos e cidadãos que se tornam ainda mais globalizados através da internet e a música nacional, o país parece ainda estar empacado em uma realidade conservadora e antiga. Em março, Yoon Suk-Yeol foi eleito como novo presidente da Coreia do Sul. Além de não ter nenhuma experiência política, Suk-Yeol já afirmou publicamente: ser contra a imigração; ter o desejo de abolir o Ministério de Igualdade de Gênero e Família e acusou a instituição de “tratar homens como criminosos sexuais em potencial”. Apesar de ter sido eleito com uma margem minúscula de 0,90% de diferença dos votos, sua eleição mostra algo sobre o país: a representação artística de um país encantado e mágico através dos doramas e canções do k-pop não condiz com parte da realidade do país. Ainda sim, a pequena margem eleitoral nos mostra que é possível acreditar que o país pode passar por um progresso social.



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