Será que isso é assédio? 

Você que é mulher, com certeza já passou por alguma situação em que se sentiu desconfortável e se perguntou se aquilo que acabará de acontecer, podia ser considerado assédio, ou se você estava idealizando demais a situação. 

Nesses casos, podemos ver que a educação social acerca do que é assédio ou não, ainda é muito falha. Muitas vezes, o assédio contra uma mulher vem de pessoas muito próximas, como amigos, mascaradas de brincadeira ou interesse amoroso, fazendo com que ela não conteste a situação, muito pela amizade existente e pela própria banalização de algumas atitudes vinda dos homens. 

Ainda, é importante ressaltar que o assédio moral, físico, sexual e psicológico não escolhe relações. Normalmente, temos a ideia de que ele ocorre apenas em relações amorosas, onde os envolvidos são um casal. O estigma começa aí. 

Em vários casos, quando ocorre o sentimento de desconforto e este é comunicado na roda de amigos, por vezes nos falam que era brincadeira, que não temos senso de humor ou, até mesmo, as populares frases como: “você está estressada”, “tá de TPM”, “não sabe brincar”, podendo ser seguido de um cenário de manipulação. 

Muitos homens, quando confrontados por suas atitudes, acabam por justificá-las ou negá-las, invertendo a situação e fazendo a mulher sentir-se mal por falar como se sente. A exemplo, temos os casos onde o homem diz que “jamais se sentiria atraído por uma mulher igual ela”; ou que “eles são amigos e que ele não vê ela desta forma” e que era “apenas uma brincadeira”, vindo esse cenário mexer diretamente com o psicológico da vítima, e também com sua auto estima, fazendo com que a mulher muitas vezes até se sinta “grata” por ter alguém que se interesse por ela daquela forma e que, na verdade, a ideia de assédio foi “tudo coisa da sua cabeça”.

Muitas vezes, a própria mulher eleva o parâmetro do que pode vir a ser considerado assédio, acreditando que será considerada vítima apenas nos casos em que houver uma agressão física que ponha a sua integridade em risco.

Esses tipos de situações acabam por colocar a mulher em uma sinuca de bico, muitas vezes gerando dúvidas se aquilo realmente aconteceu ou se foi problema de interpretação, não vindo ela a falar mais sobre seu desconforto, com medo de ser rebaixada a uma imagem social de louca, exagerada, sensível demais, ou até mesmo, pelo medo de perder a amizade ou o relacionamento. 

Essa cortina de fumaça que se forma, onde todos acreditam que o assédio se limita àquelas situações de extrema violência, vexatórias ou que partem apenas de desconhecidos, faz com que esse local de fala estreite-se e se limite, vindo o assédio ser denunciado muito tarde.  Há casos em que familiares, por exemplo, assediam mulheres da própria família, são denunciados, e quem é retirada do ciclo familiar e acusada de acabar com a família, é a própria mulher. E isso se repete em qualquer ciclo social em que construímos. 

A reputação do homem acaba por ser mais considerada do que a da mulher, demonstrando, através disso, como a sociedade heteronormativa ainda carrega uma hierarquia, onde quem realmente tem força em suas palavras é o homem. E que quem deve respeitar mais o outro, é a mulher, partindo, isso, da ideia construída no século XVII de que a mulher é um tipo de homem imperfeito. 

O sociológo britânico Anthony Giddens nos explica que o controle sexual dos homens sobre as mulheres é muito mais do que uma característica incidental da vida social moderna. À medida que esse controle começa a falhar, observamos mais claramente revelado o caráter compulsivo da sexualidade masculina – e este controle em declínio gera também um fluxo crescente da violência masculina sobre as mulheres. 

Na maioria dos casos, quando mulheres denunciam seus assediadores, elas precisam convencer a quem está escutando-as de que elas não tiveram culpa, não pediram por aquilo, ou até mesmo, que a roupa que elas estavam usando no momento eram uma roupa normal (pergunta-se, aqui, o que seria uma “roupa normal”?). 

Assim, torna-se uma situação de convencimento e não de denúncia, muito menos de acolhimento, fazendo com que as mulheres venham a reviver a situação mais de uma vez. Em alguns casos, há a comparação com outros casos considerados “mais graves”, banalizando a situação daquela vítima, fazendo com que ela se sinta grata por não ter passado por “coisa pior” e ingrata por estar denunciando, pois, a medida que subentendem de fora, “tem as que passam por coisa pior e nem reclamam”. 

Com a emancipação feminina, o sexo, o prazer e o interesse da mulher para com um homem começou a conquistar um espaço. Mas acontece que esse caminho não ficou mais fácil, em casos de denúncia, muitas vezes perguntam para a mulher: “mas você conheceu ele pela internet, esperava o quê?”; “o que você estava fazendo lá sozinha com ele?” ou “porque você não se posicionou e pediu para ele parar?”. Provar que você foi assediada, principalmente em situações em que apenas está a vítima e o assediador, é praticamente impossível. Não basta a palavra da mulher, tem que ter indícios visíveis suficientes de que aquele assédio ocorreu, e normalmente esses indícios visíveis só podem ser visualizados com agressões físicas violentas.

Diante dos milhares de casos noticiados, mas, muitas vezes, vivenciados por mulheres próximas, confirmo minha visão de que nos casos de assédio, a vulnerabilidade da mulher é infinita. Não adianta gritar, espernear, pedir por súplicas, eles não nos ouvem. Ainda há o julgamento moral e valorativo relacionado a vestimenta ou até mesmo as atitudes sociais que a vítima tem quando sai para se entreter, sendo que a forma como ela se porta na sociedade é um fator dominante no momento em que ela denuncia o assédio. Ou seja, aquela mulher que não sucumba à tentação sexual, ainda é considerada mais virtuosa e respeitável. Em regra, não há uma mulher que já não tenha passado por alguma situação em que se sentiu desconfortável, pensou que aquilo poderia ser considerado assédio, mas nunca se pronunciou por medo da incompreensão e do julgamento. 

A pesquisa intitulada Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil, realizada pelo instituto DataFolha, informa que 5 em cada 10 brasileiros relataram ter visto uma mulher sofrer algum tipo de violência no seu bairro ou comunidade e, 37,9% das brasileiras, afirmam terem sido vítimas de algum tipo de assédio sexual, equivalendo a 26,5 milhões de mulheres. 1 em cada 4 mulheres de 16 anos ou mais foi vítima de algum tipo de violência nos últimos doze meses no Brasil – contabilizando um total de 17 milhões de mulheres. A maior prevalência de violência está entre mulheres separadas e divorciadas, sendo elas 35% das vítimas.

Frente a pesquisa, destaca-se que o tipo de assédio mais frequente são as cantadas ou comentários em espaços públicos, totalizando em 31,9% das mulheres, ou seja, 22,3 milhões. Em segundo lugar, ficam as cantadas ou comentários no ambiente de trabalho, que atingiram 12,8% das entrevistadas; e, em terceiro, o assédio no transporte público, que totalizou em 7,9% das participantes.

Ainda, observa-se que as principais vitimas de assédio e violência possuem de 16 a 24 anos e são, predominantemente, mulheres negras. Infelizmente, o seu próprio lar torna-se o ambiente mais inseguro para se viver, sendo que 48,8% das vítimas relataram que a violência mais grave vivenciada ocorreu dentro de casa, ficando o ambiente externo, como a rua e o trabalho, em 19,9% e 9,4% dos relatos, respectivamente.

As denuncias infelizmente ainda não são feitas com frequência pelas mulheres, vindo a pesquisa confirmar que apenas 11,8% das mulheres denunciaram as agressões e assédios em uma delegacia da mulher e que, 32,8% das que não procuraram a policia, afirmaram que resolveram a situação sozinhas. Ademais, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, no ano passado o Brasil registrou um caso de estupro a cada 10 minutos e um feminicídio a cada 7 horas. 

Diante disso tudo, não há como negar que a mulher ocupa uma posição de risco na sociedade, vindo a violência contra a mulher ser considerada algo estrutural e que reforça a existência de um sistema de desigualdade, mas acima de tudo, de desrepeito e hierarquização sexual. A ideia de submissão da mulher para com os homens ainda é muito presente na sociedade, e reflete no crescimento exponencial da violência de gênero, vindo a virilidade dos homens ainda ser uma característica sustentada como reforço de dominação; exigência de respeito; autoridade.

Com isso, urge a necessidade de um trabalho social de igualdade frente a mulher e o homem, mas acima de tudo, uma educação de base em que a mulher seja colocada em posição de igualdade, não de submissão. O machismo é um mal que assola todos os gêneros e que precisa, urgentemente, ser discutido nos núcleos familiares e escolas.

A sociedade heteronormativa e patriarcal é uma realidade e deve ser friamente combatida em prol da liberdade das mulheres, mas acima de tudo, da vida delas, uma vez que hoje, não há local seguro para uma mulher, sendo a violência algo cotidiano e rotineiro. A violência e o assédio é tudo aquilo que cria algum tipo de insegurança, desconforto, desrespeito; que te diminui, ofende, bate, xinga; que joga objetos, amedronta, manipula. Então, se você se sentiu de alguma forma assim, denuncie. Seja como for, não se cale. Você merece viver, e viver em paz. 



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