Uma sentença de 175 anos é o preço da verdade

A liberdade de expressão é um direito de cada indivíduo, mas até que ponto ela é protegida – unicamente – pela lei dos EUA? Sabemos que, através do caso do fundador do WikiLeaks, Julian Assange, revelar os segredos mais obscuros de instituições poderosas tem um preço. Julian percebeu isso após tornar públicos telegramas diplomáticos e militares de alto escalão no Cablegate (2011), que puderam transparecer ainda mais a predisposição que o aparato militar norte-americano tem em cometer crimes. Assange teve uma longa e movimentada década defendendo suas convicções, mas se recusou a ceder aos esforços dos EUA em silenciá-lo.

O suposto crime de Assange equivale a publicar um furo jornalístico adquirido por meio de documentos confidenciais submetidos à sua plataforma de nuvem criptografada. O material também circulou em jornais de todo o mundo, incluindo The Guardian, El País e The New York Times. No entanto, não há acusações criminais pendentes contra aqueles que editaram e colaboraram com os documentos na época. É correto afirmar, que pela mesma proporção, Assange está sendo tratado como um líder de tráfico internacional. Em outras circunstâncias, seu caso seria hoje uma questão controversa que atrairia muita atenção do público. Mas não é exatamente assim que acontece.

Liberdade de expressão por um fio

Quando o WikiLeaks ainda estava a todo vapor, não se pode negar que Assange constantemente esteve em conflito com colaboradores, incluindo colegas jornalistas e editores. Com o tempo, o ativista ganhou uma reputação de arrogante. Houveram até mesmo alegações de que ele fomentou uma suposta campanha com os russos para prejudicar Hillary Clinton nas eleições presidenciais de 2016 nos EUA. 

Sua permanência de sete anos na embaixada equatoriana em Londres entre 2012 e 2019 foi resultado de um pedido de asilo quando tentaram extraditá-lo para a Suécia para enfrentar acusações de agressão sexual. Assange afirmou que era uma armadilha levá-lo a um país onde os americanos achavam mais fácil executar sua extradição. As acusações foram retiradas em 2015, dando peso à teoria sobre sua proveniência. Todas essas questões se combinaram para projetar Julian Assange como um indivíduo vil e desumano. Como resultado, a defesa em seu nome foi silenciada.

Nas atuais circunstâncias, o cenário mudou. Algumas das grandes organizações midiáticas pelo mundo fizeram referência à injustiça a que ele vem sendo submetido. Ainda assim, não aconteceram campanhas de peso para pressionar os EUA a desistir do caso ou o Reino Unido a se manter firme contra sua extradição.

Em um momento em que o presidente dos EUA, Joe Biden, que já realizou uma cúpula pela democracia e defendeu liberdade de imprensa na Rússia em meio a uma guerra na Ucrânia, parece contraditório ir tão longe para ganhar um caso que, se for bem-sucedido, estará semeando um precedente perigoso para a prática do jornalismo investigativo. 

A condução do julgamento do caso de Assange também representa uma ameaça à reputação dos EUA, pois poderia reorientar a atenção aos crimes de guerra e abusos de poder durante as guerras no Iraque e Afeganistão que foram expostos pelo WikiLeaks. Mesmo aqueles que acreditam que Assange merece alguma punição por suas ações devem admitir que ele já pagou um preço muito alto. 

Todo o esforço até aqui comprovadamente já afetou sua saúde mental e física. Seu caso é um exemplo vital de como o governo Ocidental mais poderoso do mundo está tentando fazer exatamente isso. Em tais circunstâncias, as características de Assange são completamente irrelevantes. Se Julian Assange for extraditado e condenado a passar a vida numa prisão de segurança máxima nos EUA, um elemento vital da democracia terá recebido um abalo do qual será difícil de recuperar.