“A gente exagera, inventa uma transparência que não existe porque – no fundo sabemos disso perfeitamente – tudo é sombra. Mistério.”

Lygia Fagundes Telles

Há por mim
mil saberes.
Ou um pouco mais.
Ou muito menos.

Escondidas sob saberes,
disformes, assustadas,
estão milhões, milhões
de incompreensões.

O que há no corpo, no corpo todo, é medo.
Medo de viver amanhã, de morrer de novo ontem.
Medo da rejeição repetida,
da solidão no domingo à tarde,
do vazio que corrói sem se explicar.
Medo de ser A ou B. De ser C ou D.
Medo de ser mais um entre bilhões.
Medo de ser diferente demais.
Medo de ser sendo ninguém.
Sobretudo medo de ser ridículo
(sem jamais compreender
como ser humano sem ser ridículo,
ser frágil, ser fraco).

Os amigos, que tanto amo, me distorcem,
me perdoam o terror. Assim faço com eles.
Alguns me recriam tão bom, tão puro:
então me apaixono pela distorção boa de mim.
Apenas por pouco tempo.

Aos olhos arrogantemente categorizadores
dos outros, dos que mais me desconhecem
julgando totalmente me conhecer,
sou quem mais sou.
Porque sou como eles:
também me desconheço.
Desconhecimento do outro é espelho.
É antes desconhecimento cortante do eu,
do mistério pulsante que é o coração humano.

Por isso me faço ator de mim mesmo.
Por isso me falseio existir inexistindo.
Me ficcionalizo para tentar me realizar.

Há por mim nada que se justifique. Nada.
Há alguma justificativa possível? Para mim?
Para o mundo?

Sabiá

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