A mesma porcaria

“A liberdade de expressão é a base de uma democracia funcional, e o Twitter é a praça digital da cidade onde são debatidos assuntos vitais para o futuro da humanidade”, disse o bilionário Elon Musk em um comunicado a imprensa após formalizar a compra da plataforma Twitter.

O conceito sociocultural de liberdade de expressão se tornou mais associado ao ambiente das redes sociais do que a vida real. Para a geração Z, que nunca experienciou a completa liberdade do ciberespaço sem o aprisionamento a seletas plataformas diárias, esse é o conceito que muitos de nós conhecemos. Mas, na realidade, associar o Twitter a uma ‘praça digital da cidade’ é uma comparação tão completa quanto dizer que um parlamento é uma representação exata de seu povo: poucos são selecionados, alguns possuem privilégios antecipados e, quase sempre, debates resultam em nada além de momentos cômicos.

Em uma breve história da internet: ela foi criada por pesquisadores dos Estados Unidos em uma tentativa de conectar universidades e pesquisadores ao redor do país. Como a aposta era muito arriscada para empresas privadas na época, o Estado tomou a iniciativa e investiu no projeto. Anos depois, a internet se tornou pública no sentido de ser acessada e livre a todos que tivessem renda o suficiente para tal. Nessa época, apesar de que o conceito de livre era tão livre que até crimes como canibalismo eram divulgados em fóruns, muitos usavam o ciberespaço para uma troca livre de informação – em todos os sentidos da palavra.

Os mesmos fóruns que proporcionavam um desabafo sobre seus vícios asquerosos e fofocas familiares podiam permitir um diálogo sobre ativismo e invenções científicas. Você tinha a opção de ler blogs de completos desconhecidos, sem qualquer anúncio ou medo de rastreamento e malware, que poderiam mudar sua vida completamente. Claro que palavras de estranhos podem sempre revolucionar nossas vivências, e isto é verdadeiro para qualquer mídia até hoje – mas, naquela época, você não podia ter a falsa sensação se conhecer um indivíduo somente por segui-lo nas redes sociais. Novos profissionais das ciências da computação e do design criavam formas de comunicação revolucionárias e animações em 2D. Era visto como um espaço coletivo.

Hoje, a internet conhecida pelo público está em aplicativos, os mesmos dos quais você provavelmente clicou para ler esta peça. Antigamente, leitores de mídia digital sabiam de cor quais veículos eles apreciavam e guardavam seus links na cabeça ou em blocos de notas, fazendo questão de acessá-los para se atualizar nas novidades. Um texto não era, na maior parte do tempo, formulado com base na quantidade de compartilhamentos nas redes sociais, e sim pensando no que o leitor precisava para entender o assunto ali abordado. É entendiante para nós dois ter que repetir que no passado não era assim, até porque eu nem estava viva na época que a internet era de fato assim, mas é simplesmente a realidade. O ciberespaço era um local de aprendizado, não estresse. Você podia baixar livros sem malware, ver filmes gratuitamente sem clicar em trinta anúncios diferentes, conversar com desconhecidos sem receber pornografia indesejada – na maior parte do tempo.

A nossa internet não é nem um parque e o Twitter muito menos uma praça. Ela é um coletivo amaranhado de publicidade, pornografia, notícias falsas, algoritmos sujos, coleta de dados e espionagem de empresas privadas. Não faz sentido desbravar aos sete ventos que agora você vai sair da rede porque ela foi comprada pelo homem mais rico do mundo – sendo que o dono original já era um bilionário -, sendo que toda a internet é privatizada de cabo a rabo.

A praça pública delineada por Musk não é nada mais, nada menos, do que um algoritmo criado especificamente para mexer com emoções humanas. Se um indivíduo sente que sua condição de liberdade de expressão está limitada àquela e somente aquela plataforma, é porque ela foi construída para proporcionar e fomentar tal sensação. Cada movimento feito na internet atual não só é monitorado digitalmente, como previsto. Não somos originais em nada que escrevemos, postamos e pensamos, porque os algoritmos já sabem cada passo disso. Para cada tweet que você escreve com orgulho acreditando ser um pensamento único, provavelmente existem ao mínimo cinco na mesma língua e dezenas em outros idiomas.

E não é dizer que nada disso não era previsível. Ainda nos anos oitenta, William Gibson, romancista e autor notório do gênero cyberpunk, escreveu Neuromancer, uma obra onde o mundo é dominado por um oligopólio de empresas de tecnologia e o ciberespaço é controlado por uma inteligência artificial, onde todos os passos de qualquer indivíduo são monitorados frequentemente, além de que o ciberespaço se torna algo vicioso para o cidadão comum. Gibson, em entrevista, disse que só conseguiu ter seu primeiro computador após receber os royalties de vendas da obra. Em paralelo, diversos teóricos da comunicação já viam o problema da comunicação de massa na tecnologia ao observar o comportamento do público em relação às mídias televisivas e o rádio, há décadas.

Ou seja, o problema sempre foi muito previsível, mas a sociedade optou por ignorar isso porque para metade do mundo, a civilização estava colapsando porque a internet era maligna, e para a outra, estava sendo a melhor coisa que já ocorreu em toda a humanidade.

Tanto acreditar que o mundo está acabando, quanto que está se revolucionando, só porque um bilionário gastou quarenta bilhões de dólares em uma rede social em meio a uma crise de meia-idade é esquisito. Esse é o único adjetivo possível. O mundo não acabou para a esquerda, e também não foi revolucionado pelo libertarianismo. Ele continua deprimente pelo simples fato de ainda vermos redes sociais como a definição da internet, mesmo após quatro anos de intensos debates sobre notícias falsas, manipulação de massa e graves questões éticas infringidas por empresas privadas.