O Escafandro

Para Victor Heringer

Superfície — Hoje não teve Sol e eu acordei mesmo assim. Tomei café em silêncio. Minha mulher e filhas ainda não haviam acordado, me perguntei se elas acordariam mesmo sem o Sol, elas também acordaram, aparentemente o Sol não é tão importante quanto eu imaginava. A ciência mente, o Sol não passa de um detalhe bobo, assim como é o ar, certamente deve haver vida em Marte, assim como também há vida aqui e, no fundo do mar, mesmo com toda a pressão, logo todo o hemisfério acorda para trabalhar. Quando eu me despedi da menina ela me disse algo que eu não compreendi, não por nenhum problema de volume ou de dicção: eu só não havia entendido mesmo. Já era o horário de amanhecer, e ainda assim não havia o Sol, mas isso era só um detalhe.

II 

Primeiros duzentos metros — O quê ela quis dizer? Lembro-me bem das palavras, mas o quê elas significam? Eu geralmente não tenho problemas com vocabulário, eu sou um homem sempre muito atento ao contexto, nada orgânico está no vácuo, mas e então? Qual era o contexto? Eu não saberia dizer, foi só uma frase, quanto menor é o espaço mais vago é o que se diz e o quê foi dito com tudo isso? Tive essas dúvidas dirigindo até o porto e agora me lembro delas ao ver minha lente ficando levemente embaçada, está um azul vivo, mas não muito claro, aquilo que as nuvens escondem ainda luta para iluminar, é estranho não ter um chão, me sinto um enforcado. Aguardando instruções.

III 

Quinhentos metros — Quando eu digo que aguardo instruções não significa que estou tendo uma emergência, é só que não me falaram até quanto eu tenho de descer, está mais escuro aqui, vejo menos a minha mão, admito que também gosto de ouvir essa minha voz de Poseidon, é uma espécie de voz telefonêmica de quem já está tão abaixo, mas tão abaixo, que não se parece mais algo tão humano. Pergunto-me agora o quê eu talvez queira dizer com aquilo que eu digo, está ficando mais fundo, não vejo mais peixes pequenos como iscas. Sempre pensei em peixes como o oposto de cachorros e de gatos. Quando você machuca um cão ele te perdoa, quando é um gato ele foge, mas quando é um peixe ele se debate na sua mão como que se fugisse e procura com o canto dos olhos o seu olhar e ali ele te encara, só em caso de que a fuga não dê certo, e te encara com esse olhar de desprezo e rancor em que ele nem mais se importa em fingir que quer fugir. Ele quer morrer e ter um motivo pra te odiar. Para todo o sempre, como uma espécie de herança entre dois reinos. Aguardo Instruções.

IV 

Mil metros — Já anoiteceu e meu visor embaçou. meus membros doem todos sistematicamente. sinto que algo vibra embaixo de mim, uma espécie de coração absoluto ao fundo de todas as pressões desse céu invertido bate um coração, uma porta com as respostas. Talvez tenha vida mais embaixo do que em cima, vou esquecendo de como é o rosto do capitão, como é a voz da minha filha. Nada que eu veja eu confio, aqui um objeto não é suas relações, pois não existe nada que se relacione com nada, um objeto talvez seja um objeto às vezes nem isso, esbarrei em uma pedra na descida e só vi essa mancha vermelha, que me parecia sangue se não fosse tão parada. era uma pedra? Como eu poderia saber? Eu toquei e toquei, mas só sentia o tecido grosso do escafandro, palavra bonita para minha camisa de força, nada menos natural do que esse uniforme de invasor, podia ser sangue, mas não o meu, quanto tempo tem? Quanto mais se desce mais estranho me parece a palavra “Outro”, “Outro”, “Alguém”? Cada vez menos um conceito, menos uma imagem. O quê era que ela queria dizer? 

Cinco mil metros — Aguardo instruções, aguardo que algo me diga se devo o que aguardo se guardo o que faço me lembro de retratos, antigas leis que me estabeleciam em chãos empoeirados, o mar sempre é mais vasto que a vida a pressão diz, ela dita, me fala e dela eu aguardo respostas, enquanto ela só me persegue em perguntas. Não tenho mais mão, só sei da existência de algo como um corpo por essa minha voz, o que eu digo significa? Significa? É mais alto o batimento que cerca o fundo, sempre mais fundo, talvez, e é isso que eu aposto, nunca exista um limite, talvez sempre haverá locais de rebeldia em nossas epistemologias, uma verdadeira casa, a última vanguarda, bem mais fundo, talvez muito mais ao fundo haja algo de pior, de inexplicável, de mais confuso, a culpa não é dos artistas que a arte é mais confusa, essa é a culpa dos cientistas, tem coisas da qual eu simplesmente não sei, apalpo a corda, vejo ela ainda me enforca. O quê ela queria dizer com aquilo que me disse? A pressão é tão forte, está batendo mais forte, quem é ela?

VI 

Já não importa mais — Está chegando, eu sei que está chegando, não ao fundo, em algum ponto no meio do infinito que rodeia o meu pequeno universo, eu mesmo me vejo apaixonado pela pressão, a forma como eu afundo, meus músculos que são moídos, se estendendo por toda a imensidão do que é escuro. Agora eu vejo, esse é um cenário ideal, não estou caindo, não me sinto indo a lugar algum, sou cego já faz muito tempo, mas eu sei quando me olham, pois, é esse o único momento que eu realmente existo. Está chegando, com passos pesados está chegando aquilo que faz a minha geração ser eternamente jovem, percebe, é vago exatamente para ser você esse conceito, esse peso, eu sei que você está procurando algum lugar para olhar, mas não há nada, nada, absolutamente nada, eu escuto seus batimentos chegando, nem eu, nem você, escutamos nada, mas sabemos que está chegando. Às vezes é melhor mesmo não se dizer ou querer dizer nada. 

VII

Dentro de Algum Coração, Espero que do Meu — Me lembro de rios, daqueles que a gente procurava em busca de uma palavra, algo que fosse junto ao fluxo, hoje todas as águas estão paradas e as praças já foram sitiadas, não se usa mais barricadas em processo, é inverno, mesmo que o aquecimento global não o deixe que seja, faz muito frio dentro de todas as nossas desolações, procuramos garrafas de refrigerante para manter-se trabalhando na noite. Todos os trabalhadores noturnos, meus operários fadados à a acabar, nunca mais os poderei tocar, saudades daquela infância, está fundo, as trilhas para a vida estão todas cobertas de galhos podres. O que ela queria dizer? O que eu queria dizer? São todas essas pequenas formas de falar que levam sempre ao próximo abstrato dia aquilo que já chegou e cujo os batimentos sintonizam com o do meu coração e fazem tempestades lá fora, com trovões, em cidades submersas que todo dia cai e se juntam aqui, formando uma grande e interligada metrópole em um único mar. Talvez ainda existam idiotas que acreditam em messias. Dois peixes jovens nadam tranquilamente, conversando entre si, quando passa então por eles um peixe maior, mais velho, que os diz: 

– Bom dia, como está a água hoje? 

Os jovens peixes ficaram sem graça, olhando um para o outro, até que enfim um deles, gaguejando, perguntou: 

– Me desculpe, mas, que porra é água ?

É o universo do silêncio que afoga, enquanto eu desisto de dizer nada. 



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