Natália Viana

Natália Viana nasceu em São Paulo, em 1979. Começou a carreira de jornalista aos 21 anos, na revista Caros Amigos. É diretora executiva da Agência Pública de Jornalismo Investigativo, da qual é cofundadora, desde 2011. Como repórter e editora, venceu diversos prêmios de jornalismo, entre eles o Vladimir Herzog de Direitos Humanos (2005/2016/2020), o Comunique-se (2016/2017), o Troféu Mulher Imprensa (2011/2013), o Gabriel García Márquez (2016) e Ortega y Gasset (2020). Em 2019, sua série “Efeito Colateral”, sobre a morte de civis pelo Exército, foi finalista do prêmio Shining Light Award, da Rede Global de Jornalistas Investigativos, e deu origem a este livro. Em 2018, passou a integrar o Conselho Reitor da Fundação Gabo, fundada por Gabriel García Márquez. Atualmente é bolsista da Fundação Nieman, em Harvard.

Como surgiu a Agência Pública?

Natália Viana: A Agência Pública surgiu em março de 2011 por causa da minha visão, da visão da Marina Amaral e dos fundadores em relação à falta de unidades de investigação de jornalismo investigativo das redações tradicionais. 

Naquele momento, a imprensa estava passando por uma crise, que continua, mas que foi um pouco equalizada ao longo do tempo em termos de investimento. Havia muito pouco investimento em jornalismo investigativo e em especial, jornalismo investigativo que cobrisse violações de Direitos Humanos. 

Naquela época temas como racismo, gênero, conflitos de terras e conflitos na Amazônia simplesmente não apareciam nas páginas dos jornais. Nesse contexto, a gente fundou a Agência Pública, para funcionar como se fosse a equipe do filme Spotlight. Uma equipe de jornalismo investigativo independente das grandes redações, funcionando como uma agência que produzisse reportagens investigativas aprofundadas e estas, portanto, fossem republicadas por outros veículos. Por isso que a Agência Pública é uma agência.

É possível dizer que no atual cenário há um sequestro das instituições públicas que deveriam promover investigações contra o governo e suas ações? Ao mesmo tempo, como você enxerga a importância do Jornalismo Investigativo para preencher esta lacuna?

NV | Se é possível dizer, olha. Eu acho que há uma tentativa de sequestro e acredito que ainda estamos longe de dizer que há um sequestro completo das instituições que deveriam promover investigações. Eu acho que há muitas investigações contra o governo sendo realizadas em vários âmbitos. Obviamente, o STF e a Polícia Federal têm feito várias investigações contra o governo. O TCU tem levantado questionamentos e até a AGU muito menos, obviamente. Então, assim, há uma tentativa grande de sequestro e há uma resistência das instituições democráticas, mas, sem dúvida, essa é a intenção do Governo Federal. Num cenário como esse, obviamente o jornalismo investigativo torna-se mais e mais importante.

O jornalismo investigativo é importante em qualquer cenário. Ele é importante em plena democracia e também é em um governo autocrata, um governo de um autocrata ou de uma pessoa que pretende se tornar um autocrata, como no caso do Bolsonaro. É muito claro por todas as ações que ele toma que é autoritário e tem ações autoritárias. Tem por objetivo a eliminação inimiga e ampliação de seus poderes através de favores e corrupção no sentido mais básico do termo, ou seja, perversão das regras, orçamento secreto, mordomias para militares, etc. Para manter o poder através da corrupção de diferentes setores da sociedade, toda corrupção no Ministério da Educação (MEC) para cooptar as igrejas evangélicas também é um caso desses. Mas num regime normal também é muito importante.

O jornalismo investigativo é simplesmente jornalistas especializados em produzir investigações e buscar crimes, imoralidades e lugares/espaços em que a sociedade não está funcionando muito bem, e isso nunca as instituições democráticas vão conseguir dar conta da complexidade e variedade de mutretas que acontecem em qualquer sociedade como a nossa que é muito desigual e bastante corrupta ainda mais.

Obviamente quando as autoridades param de funcionar ou funcionam menos, no caso há uma fricção né? Podemos dizer que há, talvez, uma redução das quantidades de investigações que deveriam estar acontecendo diante da quantidade de despropérios, com isso o jornalismo investigativo torna-se mais importante. 

É o jornalismo investigativo que traz luz a vários dos elementos centrais ou, digamos, dos grandes escândalos do governo Bolsonaro. O Orçamento Secreto que já mencionei é produto de investigação jornalística; O recente escândalo do MEC; assim como o caso das rachadinhas do Bolsonaro, muito bem apurado pelo UOL e pela Juliana Dal Piva, em especial, são fruto desta modalidade de jornalismo. Então, de fato, o jornalismo cresce quando não parte das instituições ditadas nas investigações.

Você pode observar que no caso da Lava-Jato, por exemplo, o que houve era o contrário, havia uma força tarefa do Ministério Público muito ativa que estava se adiantando à imprensa e pautando-a até de maneira, como a gente viu, politizada e parcial, como foi julgado pelo Superior Tribunal Federal (STF). Mas sim, o jornalismo investigativo nesse cenário torna-se ainda mais importante e é fundamental, eu acho, que o cidadão brasileiro entenda a importância do jornalismo, porque é através dele que ajuda a segurar, expor e frear um governo que pretende ser autoritário e pretende destruir a democracia.

Dentre todas as investigações que vêm sendo promovidas quão crítica é a realidade brasileira comparada a anos anteriores?

NV | O Brasil é um país muito desigual e com muitos problemas. É um país muito violento, então a violência da nossa sociedade, a violência não só urbana como no campo, e aí a violência relacionada à problemas históricos, como os conflitos de terras, violências contra comunidades rurais e indígenas, sempre existiram. Elas estão acirradas, principalmente a violência rural, por conta da postura belicosa e militarista do governo que, ao invés de buscar resolver problemas e conflitos históricos que inclusive estão pautados na constituição, como no caso de demarcação de terras indígenas.

O governo fomenta e apoia atividades ilícitas, como a mineração ilegal em terra indígena, os arrozeiros. E dá muitos sinais, como no caso de mineração em terras indígenas para que gangues criminosas ー porque isso são gangues, são associações criminosas ー que atuam coletivamente para invadir terras e propriedades, propriedade dos Estados, na verdade, de nações indígenas, para perpetuar atividades ilegais ali. Elas estão sendo incentivadas pelo Governo, o que só intensifica conflitos que são históricos.

Obviamente, os ataques às instituições, os ataques e afrontas ao STF, a incitação a pessoas irem às ruas ou tentarem invadir o Supremo que acontece e continua acontecendo continuamente, os ataques às urnas eletrônicas e ao nosso sistema eleitoral pioram os problemas que já existem na nossa sociedade. 

Então, a situação hoje, a Agência Pública acabou de fazer 11 anos e a situação atual é muito pior do que há onze anos, não só em termos de aumento dessas violências como em termos de correção da democracia. Isso qualquer indicador internacional, como Repórteres sem Fronteiras (RSF), ou que meça a liberdade de expressão. Assim, não é segredo nenhum, qualquer observador internacional e todos os países internacionais que são democráticos fazem repetidos alertas para o fato de que o Brasil está perdendo a sua democracia.

Repórteres Sem Fronteira afirma que desde que o presidente Jair Bolsonaro assumiu o poder o ambiente para o trabalho de jornalistas se tornou tóxico. Em dois anos, o país perdeu seis posições no ranking e está em 111º lugar.

A situação, sem dúvida, para quem cobre a sociedade é muito pior e é muito sentido na pele, porque a função do jornalista é de um trabalho incômodo, principalmente o jornalista investigativo, o de contar o que ninguém quer saber e o que as pessoas querem esconder. Então se conta que o governo é corrupto, que uma empresa está violando direitos humanos, com um programa social que não está funcionando, que tem uma empresa – como a fizemos recentemente – uma empresa de aplicativo que contrata e que cria fazendo perfis falsos para atacar trabalhadores que querem lutar pelos seus direitos. Mas isso é um trabalho fundamental e nisso o jornalista acaba sendo atacado. E, obviamente, eu sou jornalista há 25 anos e nunca senti uma violência, um rechaço tão grande ao nosso trabalho e isso tudo é fomentado pelo Presidente da República.

Então o trabalho do jornalista hoje é muito mais difícil do que era há três, quatro anos no Brasil. Isso eu sinto, a minha família sabe, acho que a família de qualquer jornalista que está cobrindo temas atuais sabe, que ficou muito mais difícil você fazer jornalismo. Você é muito mais atacado, você é muito mais ameaçado, você fica muito mais inseguro. Você passa por momentos de muito estresse e de medo porque estamos vivendo uma corrosão muito grande e muito rápida da liberdade de expressão do nosso país.

Como a onda de desinformação vem afetando as pessoas de estarem em contato com a informação clara e verdadeira? Você acredita que estamos mais preparados (como sociedade) para lidar com a onda de desinformação dado o cenário eleitoral do Brasil em 2022? 

NV | É uma pergunta muito importante e eu recentemente mediei uma conversa com vários especialistas aqui em Harvard sobre esse assunto, há muitas diferenças, né? Nas últimas eleições, em que Bolsonaro foi eleito, havia um sentimento antipolítica muito grande fomentado justamente pela Lava-Jato, em que havia aquela sensação de que todos os políticos eram corruptos e o Bolsonaro se colocava como uma pessoa nova.

O grupo bolsonarista se utilizou muito bem do fator surpresa, de uma mobilização online via WhatsApp que aconteceu na final das eleições com mentiras muito grandes. A gente não pode esquecer, por exemplo, daquela “mamadeira de piroca” e que eles falavam que o Fernando Haddad iria promover a sexualização dos bebês, uma coisa completamente fora de propósito. Mas havia uma polarização e houve um uso muito específico e muito bem feito. Havia também uma falta completa de preparação das redes sociais para o que poderia acontecer e de responsabilização das redes sociais.

Isso mudou bastante depois da derrota eleitoral de 2020 nos Estados Unidos, em que houve pela primeira vez as plataformas apagando vídeos. Hoje em dia, as plataformas já apagaram vídeos dos políticos brasileiros do campo bolsonarista, dos apoiadores que, por exemplo atacaram a integridade das urnas eletrônicas. Ainda é muito pouco, mas já há uma conscientização do tipo de desestabilização que pode ocorrer e já vem ocorrendo aqui no Brasil.

A reação é tímida, mas há uma consciência do que pode acontecer, então isso é bem diferente. Por outro lado, um campo bolsonarista vai continuar apostando nos mesmos temas que foram os que o elegeu: a polarização com o PT, o antipetismo, os temas de costume digamos, apelar pro antifeminismo, pela questão do aborto, temas que não há consenso na sociedade brasileira mesmo, que é um racha na sociedade, mas transformaram em arma de luta e não em elemento de diálogo e um apelo a ordem e ao sonho que foi a ditadura no Brasil, que apela pra muita gente principalmente aos mais velhos e homens no geral. Então alguns elementos estão presentes e outros não estão.

De fato, obviamente avançou-se muito em termos de fake news em construir uma base econômica que funcione como respaldo às fake news, uma coisa nova que temos nessa eleição é a presença de uma grande rádio – a rádio Jovem Pan – que propaga a narrativa falsa, inclusive a narrativa falsa contra Covid e contra vacinas; é um elemento novo no nosso cenário, a gente não tinha um canal massivo de direita que propagasse fake news na primeira eleição na esfera das grandes mídias.

Por outro lado, há uma mudança de plataformas, ou seja, o Facebook mudou muito desde 2018 e hoje em dia a desinformação circula mais em grupos fechados como WhatsApp e Telegram – e houve um aumento massivo do Telegram. Há muitas mudanças, novos grupos surgindo e há novas alianças também, o que não significa que vai ser melhor. A sociedade está muito mais preparada, tanto jornalistas quanto o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com certeza, assim como a Academia e a Polícia Federal também estão muito mais preparadas e mais conscientes. Mas isso não significa que vai ser melhor, o jogo vai ser muito sujo e vai ter muita desinformação acontecendo. Não sei se nós estamos de fato preparados para impedir isso, embora haja mais consciência.

Há uma ofensiva contra jornalistas e o jornalismo em si, em especial, a jornalistas investigativos nos últimos anos? Tanto a Agência como seus membros já sofreram perseguições e ameaças frente a revelações feitas?

NV | Nós na Agência Pública já sofremos ameaças e muito assédio, eu fui pessoalmente bloqueada pelo presidente e por alguns de seus aliados mais próximos no Twitter. Há muita negativa de informações, ou seja, pedidos pela Lei de Acesso à Informação ignoradas, e então você tem as ameaças à imprensa.

O ataque à imprensa tem várias gradações. O primeiro é desengajar do diálogo e não responder a perguntas. Eu, por exemplo, sou uma pessoa que atuo pedindo muitas informações das Forças Armadas e da Justiça Militar, porque escrevi um livro que chama ‘Dano Colateral’, sobre como a Justiça Militar lida com casos de morte de civis por militares. Fica muito clara a diferença entre a quantidade de informações que eles te davam nos governos anteriores e que hoje em dia te dão, há uma clara intensificação no controle da informação e no aumento do segredo. Você teve mudanças na Lei de Acesso que aumentam o sigilo. 

Recentemente, o Bolsonaro colocou sigilo nas andanças de pastores pelo MEC e isso são demonstrações de uma postura autoritária em relação à imprensa, então a negativa de cumprir seu papel enquanto governo em ser transparente. Depois, os ataques e as ameaças genéricas ao jornalismo e a jornalistas específicos. Posteriormente, você tem as ameaças que não são feitas pela figura de presidente, mas são corroboradas pela figura de Presidente e feitas por uma massa de apoiadores que são treinados ou incitados online por grupos criados para fazerem ataques mesmo.

Isso acontece. Eu já sofri muitas ameaças assim e ataques verbais via internet muito grandes e que você vê ser orquestrado porque vem um monte de pessoas que geralmente não comentam no seu perfil. Também existem as ameaças de processos judiciais, mas também existem processos que ganhamos e só ganhou até hoje, tentando impedir o tipo de jornalismo que você faz ou depois que você publica uma matéria tentando questionar. 

Então você tem uma série de estratégias cujo objetivo é silenciar o jornalismo que é o jornalismo que investiga. Isso tudo está muito mais presente hoje do que há cinco anos, em que a gente vivia uma democracia. Cinco anos eu vou dizer antes do Impeachment da Dilma até 2015, sete anos atrás. Porque a gente vivia uma democracia plena, uma democracia que havia críticas e ranços dos dois lados, mas não havia estratégias orquestradas desde o governo executivo central para silenciar jornalista. 

Também dentro disso, mais uma coisa que felizmente não nos afeta, você tem o financiamento à imprensa sendo direcionada apenas para aliados e sendo cortado de sites que criticam o governo. Isso tudo são atitudes extremamente autoritárias que acabam levando a problemas econômicos na imprensa, mas também é um efeito de aumentar a autocensura e de desincentivar as investigações, a gente ainda está nessa fase. Obviamente, há um grande temor ー e um temor real e concreto ー que caso o Bolsonaro seja reeleito isso vá piorar muito, sendo exatamente o que aconteceu em todos os outros países em que governantes autocráticos ou autoritários, como no caso de Bolsonaro, foram reeleitos, é o caso da Hungria, da Venezuela, da Nicarágua e da Rússia. Então você vai tendo uma deterioração e um avanço do abuso de poder e da figura de autoridade. 

Como nosso papel como jornalistas é criticar – esse é o nosso papel, a minha profissão – é trazer a luz às coisas que não estão funcionando bem para elas serem melhoradas, é um papel de ser o chato, que chama atenção para o que está errado para ser melhorado. Não é só para ser chato, mas para ajudar as instituições a funcionarem melhor. os jornalistas necessariamente estão na linha de frente. 

A situação hoje em dia é muito pior, é só você observar o ranking da Repórteres Sem Fronteiras que pela primeira vez, quando o Bolsonaro chega ao poder, colocou o Brasil no espectro vermelho em termos de liberdade de expressão, nunca esteve nesse espectro, sempre era superior. A liberdade de expressão era muito melhor antes de Bolsonaro e, obviamente, há um temor enorme de que vá piorar caso Bolsonaro seja reeleito.


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