O modo norte-americano de retratar o WikiLeaks para o mundo

Quinhentos e oitenta anos atrás, Johannes Gutenberg apresentou a imprensa ao mundo. Esse ato único criou uma imprensa livre que deu origem ao conceito de liberdade de expressão. Os dois estão inextricavelmente ligados; a impressão é uma forma de discurso. A invenção de Gutenberg deu início à Revolução da Impressão, um marco do 2º milênio que iniciou o período moderno da história humana, incluindo o Renascimento, a Reforma, a Era do Iluminismo e a Revolução Científica, e iniciou a economia baseada no conhecimento que espalhou mecanismos de aprendizagem para as massas.

Na nossa atualidade, a ameaça do WikiLeaks aos poderosos foi reconhecida, e por mais que suas publicações tenham sido resultado de colaboração jornalística coletiva, todos os esforços foram e ainda estão sendo feitos para criminalizar o WikiLeaks, o que seria semelhante em criminalizar a imprensa de Gutenberg, mas sabemos que não há muita chance dessa parte ter sucesso.

A estratégia da mídia dos EUA, no entanto, como exposta na época das publicações em conjunto com o WikiLeaks, até hoje delineou como a organização usa a confiança protegendo o anonimato e a identidade dos denunciantes e, como resultado, concluiu que danificar ou destruir essa confiança impediria o vazamento, assim como também difamar Assange e o próprio WikiLeaks para liquidar o que representava pelos vazamentos de fontes anônimas.

Por 14 anos, desde 2008, é exatamente isso que corporações poderosas, a mídia corporativa e instituições governamentais vêm fazendo. São conglomerados que agem em prol de interesses e que reúnem esforços para abalar a confiança da opinião pública em Julian Assange. O resultado é a garantia de que esse mecanismo de conhecimento e educação do mundo falhe.

Depois dos vazamentos, a tempestade

Assange é alvo de várias acusações de espionagem e crimes relacionados, sob a Lei de Espionagem dos EUA. As acusações seguem condenações de acesso ilegal a servidor militar, com base na suposta assistência a whistleblower Chelsea Manning na obtenção dos arquivos do Cablegate, em meados de 2009. Apenas isso custou Julian Assange uma condenação de cinco anos. Outras condenações somaram 170 anos de prisão.

Tais acusações foram preparadas anos atrás, durante o governo Obama. Um grande júri havia sido formado na época, embora isso fosse frequentemente desprezado por grandes jornalistas, que diziam que “Assange estava se engrandecendo”. Obama se recusou a seguir com o processo e deu um perdão a Chelsea Manning, pouco antes de Trump assumir o cargo, em 2016. Mas as acusações estavam lá, esperando para serem replicadas em um futuro próximo.

Essa oportunidade surgiu nas eleições do Equador e o poder passou da presidência de esquerda de Rafael Correa para a direita do mesmo movimento liderado por Lenín Moreno. A expulsão de Assange foi apresentada como resultado “de suas próprias ações”, supostamente arbitrária e conspiratória. Fato que foi puramente fruto de propaganda, para a qual a imprensa norte-americana – incluindo ex-parceiros editoriais do WikiLeaks – estavam dispostos a agir como megafones.

O retrato midiático

Não se pode negar que o New York Times, o Washington Post e o Wall Street Journal, os três principais jornais norte-americanos, endossaram entusiasticamente a prisão e a decisão de extradição de Assange para os Estados Unidos, por acusações relacionadas à publicação de documentos que implicavam o governo norte-americano em crimes de guerra e o assassinato de civis no Afeganistão e Iraque.

A aprovação entusiástica desses jornais para a rendição de um jornalista, com a ameaça de tortura, prisão indefinida e possível execução, resume suas atitudes em relação às liberdades de expressão e de imprensa incorporadas na Primeira Emenda: a oposição aos seus princípios, a menos que não seja para o fundador do WikiLeaks. Para isso, houveram esforços múltiplos na publicação e disseminação de conteúdos perfilados de Julian Assange como um fora da lei. 

O Washington Post de Jeff Bezos foi o menos cauteloso, declarando que Assange “chegou um pouco tarde para a responsabilidade pessoal” e revelando sua potencial “conversão em uma testemunha cooperante”. Em referência a um país como os Estados Unidos, que não reconhece acordos internacionais básicos de direitos humanos, extrair “cooperação” de uma testemunha é um eufemismo para tortura.

Mas esses editoriais calculados constituem – se isso é possível – a parte menos degradada da resposta da mídia à prisão de Assange, que tem sido tratada pelos jornais impressos, pelos noticiários e, talvez o pior de tudo, pelos talk shows populares (como o The Late Night Show With Stephen Colbert), como ocasião para insultar um jornalista perseguido que não pode se defender. “Até os amigos de Assange o descreveram como… um narcisista com uma visão exagerada de sua importância e pouco interesse em assuntos mundanos como higiene pessoal”, escreveram os estenógrafos veteranos do Pentágono do New York Times Scott Shane e Steven Erlanger em um artigo que foi capa do jornal, sem se preocupar em explicar quem são esses “amigos”, ou por que eles descrevem Assange na mesma linguagem do ex-Secretário de Estado da era Trump, Mike Pompeo.

Na programação de TV norte-americana, ao som de risos enlatados, o apresentador do Daily Show Trevor Noah proclamou que Assange “finalmente foi preso” por deixar seu gato “fazer coco em toda a embaixada”. O apresentador do Tonight Show, Jimmy Fallon, brincou que Assange, cujo confinamento solitário prejudicou sua saúde, se parecia com “Dumbledore”, personagem da série Harry Potter de J. K. Rowling.

A lista continua. Seth Meyers, apresentador do programa Late Night da NBC, riu ao dizer que Assange foi “arrastado para fora da embaixada equatoriana parecendo o Papai Noel com um manifesto”. O Saturday Night Live parodiou a prisão de Assange, com um barbudo Michael Keaton, como Assange, declarando-se o “terror da equipe de limpeza da embaixada”.

Resolução prática para o jornalismo é a liberdade

É hora de reconhecer que o vazamento por fontes anônimas está aqui para ficar e promover os benefícios que mudam o mundo que esse sistema de educação de massa oferece e ainda oferecerá.

Como podemos ter certeza que o vazamento por meio do anonimato veio para ficar? Assim como a imprensa de Gutenberg, o WikiLeaks não é uma unidade única, é um modelo de como abordar e superar um problema. Muitas prensas foram construídas depois que Gutenberg revelou o conceito e logo foram alimentadas, automatizadas e produzidas em grandes volumes.

O mesmo aconteceu com o conceito de Julian Assange a partir de mecanismos de tecnologias que podem suportar publicações anônimas. Um grupo chamado The Freedom of The Press Foundation, fundado por Daniel Ellsberg, autor dos vazamentos dos Documentos do Pentágono que expuseram o intuito dos EUA sobre a Guerra do Vietnã, criou um sistema semelhante ao WikiLeaks disponível gratuitamente chamado SecureDrop que agora está em uso por muitas organizações jornalísticas, principalmente mídias independentes. 

Quaisquer que sejam os problemas de saúde que Assange tenha, também se pode presumir que ele está sofrendo sob a sombra da lei e do futuro – a perspectiva de desaparecer no inferno de uma prisão de segurança máxima pelo resto de sua vida, com o suporte silenciado da grande imprensa. Este é certamente o ponto. 

O governo norte-americano, tendo renunciado à pena de morte – algo que renegou antes – estão utilizando seu sistema carcerário como instrumento de terror, direcionado à atividade de publicação de segredos de estado. Por isso, perseguiram Assange na Inglaterra, organizaram campanhas contra coletivos de direitos humanos através das big techs e contra hackers adolescentes no Reino Unido. Com o aval do jornalismo convencional e subserviente, o alvo será sempre o jornalismo investigativo, a dissidência e a sociedade da informação aberta. O instrumento é o estado, a desinformação, entrando pela janela do quarto ou pelo Wi-Fi.