O líder de muitas facetas

A esquerda no Brasil nunca foi estabelecida no poder, e não vai ser diferente em 2022, seja qual for o resultado das grandes frentes que aparecem liderando a pesquisa.

Luiz Inácio, o Lula, homem do povo e de origem extremamente pobre, como afirma em diversas ocasiões, fez história ao liderar grandes greves dos operários no ABC Paulista e ser um dos principais fundadores do partido dos trabalhadores (PT). Em um Brasil extremamente carente de representatividade para a classe operária, Lula ganhou força mesmo sendo um candidato assumidamente da esquerda, que há três décadas, não era benquisto pela elite da época e consequentemente os meios midiáticos, mas, ainda sim, vinha ganhando apelo popular pela sua trajetória e seu diálogo com a classe operária.

O ex-metalúrgico só conseguiu a faixa presidencial em sua quarta candidatura, coincidentemente (ou não) quando seu discurso se tornou mais brando, dialogando com a elite, principalmente os bancários. Em um viés menos radical, não mais pautado na luta de classes, mas sim a conciliação entre elas, Lula se estabelece como presidente por dois mandatos consecutivos.

Antes de mais nada, é inegável como o país ascendeu socialmente. Lula consegue tirar o país do mapa da fome através de programas sociais, além de promover amplo investimento em ciência e educação, melhorar economicamente o país e promover boas relações internacionais. Dito isso, existe o outro lado da moeda: o partido dos trabalhadores do governo Lula até a Dilma cada vez mais foi perdendo sua identidade pautada nas massas populares, uma vez que se mantinha no poder, vestiu a pele por muitas vezes do que jurou combater. Esquemas de corrupção, privatizações, alianças incoerentes e lotações recordes do sistema carcerário (com maioria esmagadora de pretos ou pardos). O partido muitas vezes foi tão opressor com suas massas quanto qualquer outro, e Lula deixou pendências em seu governo, até a derradeira queda em 2016, quando Dilma sofre o golpe pelo próprio vice, Michel Temer, e o antipetismo toma conta das massas.

Ex-presidentes Michel Temer, Dilma Rousseff e Luís Inácio Lula da Silva em evento de posse de Rousseff.

No atual cenário, há pouco meses de uma eleição novamente bipolarizada, Lula tenta adotar uma estratégia covarde, adjetivo que não combina nenhum pouco com toda sua trajetória política. A começar com a escolha de seu vice: Geraldo Alckmin, seu rival ideológico de longa data, com uma grande ficha de atrocidades contra o povo, a quem Lula jura a governar. Além disso, fica cada vez mais nítido o afastamento do ex-presidente em relação a lados políticos. Em sua última declaração, o candidato deixou incerto a própria revogação da reforma trabalhista, algo que criticou duramente nesses últimos anos.

Seu discurso eleitoral é muito mais pautado no passado, baseado no sentimentalismo e na esperança de sairmos do buraco em que nos encontramos, mas pouco prático. Lula não nos apresenta um plano de governabilidade para os próximos 4 anos, tampouco a perspectiva de melhora. A impressão que fica é que temos que acreditar na palavra e ter fé no líder, tal qual os fiéis e seu pastor.

É claro que essas incoerências de Lula são defendidas, há quem afirme que se trata do velho jogo político onde alianças são feitas para sustentar uma base de apoio ao presidente, sendo de suma importância. Além disso, as críticas ao candidato do PT sempre são rechaçadas pelos seus eleitores em prol do bem maior, retirar o atual presidente fascista do Palácio do Planalto, transformando o questionamento em um erro grave para o atual momento. Entretanto, esse discurso é extremamente perigoso, pois além de esvaziar o debate político, também sufoca a democracia e sua pluralidade de candidatos e escolhas, duas características que se assemelham justamente com o Jair Bolsonaro, por mais irônico que seja.

A queda de um dos piores presidentes da história do nosso país, é mais que necessária. E Lula sem dúvidas se torna um grande nome nesse processo de transição para o Brasil voltar a respirar gradualmente. O grande problema de toda trajetória de Luiz Inácio, desde 2002 até aqui está em sua ideia: a conciliação de classes. O socialismo democrático nada mais é que uma maquiagem do neoliberalismo opressor vigente. Uma vez que para a existência do acúmulo exacerbado de riqueza é necessário a manutenção da miséria, a conciliação entre duas classes se torna impossível. O que o Brasil experimentou nesses anos de governo Lula, foram governos que continuavam a favorecer sua elite e governar para poucos, mas que paralelamente fomentava um plano de suporte para a população pobre e de classe média, e consequentemente a fuga da miséria e fome. E esse é o mínimo que deveríamos cobrar de qualquer governo, mas se torna nítido após o golpe de 2016 que o mínimo consegue promover mudanças nas estruturas sociais do nosso país.

Sendo traidor do povo ou representante dos trabalhadores, a eleição de Lula se faz necessária no contexto político atual, quase como um ato de fé, muitos irão votar no político nas urnas carregando no peito a esperança do retorno messiânico do pernambucano e na retomada de um governo democrático e plural. Como outros muitos tendem a votar desconfiados — com razão — no velho e conhecido homem de muitas facetas: Lula é um líder, mas ainda longe de ser um líder que represente a esquerda.