Publicações do WikiLeaks são provas de que nunca se aliou a Rússia

Documentos do WikiLeaks expõem que organização não trabalhava com governos

“A Rússia é um estado mafioso que trabalha em colaboração com redes de crime organizado para extorquir negócios, perseguir rivais, fraudar eleições e traficar armas”. Estas são algumas das alegações contidas em telegramas diplomáticos dos EUA revelados pelo WikiLeaks e publicados por vários jornais em 2010.

Embora as revelações não surpreendam a maioria dos russos, cientes da corrupção desenfreada em seu país, as dezenas de telegramas vazados mostram que o governo do ex-presidente dos EUA, Barack Obama, tinha uma visão sombria da liderança da Rússia, apesar de seus esforços declarados para “redefinir” as relações com Moscou.

Os documentos vazados descrevem o governo russo como altamente centralizado e corrupto, uma “marca moderna de autoritarismo” que permitiu ao primeiro-ministro Vladimir Putin acumular vastas “receitas ilícitas”.

Um telegrama de fevereiro de 2010 cita o ex-secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates, dizendo que “a democracia russa desapareceu”. Outro documento cita o ex-secretário de Estado adjunto dos EUA, Daniel Fried, sugerindo que Putin pode ter conhecimento de um complô para matar o dissidente Aleksandr Litvinenko, que morreu de envenenamento em novembro de 2006, na Inglaterra.

Incomodando Moscou

Algumas das alegações mais prejudiciais contidas nos telegramas vêm de José Gonzales, um promotor espanhol que passou anos investigando as atividades do crime organizado russo na Espanha.

De acordo com os telegramas publicados pelo WikiLeaks, Gonzales disse a autoridades dos EUA em janeiro de 2010 que vários partidos políticos russos trabalhavam lado a lado com grupos mafiosos. Os documentos supostamente o citam dizendo que as autoridades russas dão, deliberadamente, empregos aos líderes do crime na política para lhes garantir imunidade e impunidade.

Gonzales também acusou oficiais de inteligência russos de organizar remessas de armas para grupos curdos para desestabilizar a Turquia e de estar ligado a um escândalo de 2009 envolvendo um navio russo de carga suspeito de transportar armas destinadas ao Irã.

“O serviço diplomático deveria ser mais cuidadoso com seus documentos”, disse Putin em comunicado oficial. “Esses vazamentos já aconteceram antes, em épocas anteriores. Não vejo isso como qualquer tipo de catástrofe”, finalizou. Putin, no entanto, disse que Robert Gates estava “profundamente enganado” sobre o estado da democracia russa e alertou Washington para não se intrometer nos assuntos da Rússia.

Espionagem na Rússia pela Rússia

Outro vazamento, de 2017, detalha o aparato de vigilância usado pelo governo russo para espionar a Internet e usuários de dispositivos móveis.

Tweet do WikILeaks sobre a publicação, em 2017. Reprodução.

Nos documentos vazados em russo, o WikiLeaks descreve como uma empresa russa que fornece software para serviços de telecomunicações investiu em instalação de infraestrutura – com o consentimento do governo – que permite que agências estatais russas acessem, pesquisem e espionem a atividade digital dos cidadãos, sugerindo um programa de vigilância em massa financiado pelo Estado semelhante ao utilizado pela NSA dos EUA ou pelo GCHQ no Reino Unido (ambos detalhados nas divulgações de Snowden de 2013).

Nos documentos publicados ( em 34 “documentos básicos” ) referem-se a uma empresa com sede em São Petersburgo, chamada Peter-Service, que alega ser uma contratada para a vigilância estatal russa. De acordo com a Tech Crunch, a empresa foi criada em 1992 para fornecer soluções de cobrança antes de se tornar uma grande fornecedora de software para o setor de telecomunicações móveis.

Um dos parceiros de mídia do WikiLeaks na colaboração das publicações, o jornal italiano La Repubblica informa que a cobertura dos documentos é composta por “um período prolongado de 2007 a junho de 2015” e descreve o conteúdo como “extremamente técnico”. O jornal também adverte que os documentos não mencionam a agência de espionagem da Rússia, o FSB (Serviço Federal de Segurança), mas sim “falam apenas de agências estatais”, uma fórmula que “certamente inclui a aplicação da lei, e que usa metadados para interceptação legal”. Também diz que os documentos “não esclarecem que outro aparato estatal acessa esses dados por meio das soluções da empresa de São Petersburgo”.

O WikiLeaks também faz questão de observar: “as informações chegaram a nós apenas alguns meses depois que Edward Snowden divulgou o programa de vigilância em massa da NSA e sua cooperação com corporações privadas de TI dos EUA, como Google e Facebook”.

Edward Snowden compartilha link no Twitter com as publicações sobre espionagem russa. Reprodução.

“Desenhada especificamente no programa Prism da NSA, a apresentação em slides contida nos documentos oferece a aplicação da lei, inteligência e outras partes interessadas, para se juntarem a uma aliança para estabelecer operações equivalentes de mineração de dados na Rússia”, acrescenta – referenciando o governo dos EUA e seus programas de vigilância em massa.

Expondo a Rússia nas Relações Internacionais

Entre os telegramas mais significativos que o WikiLeaks divulgou ao mundo estão os obtidos da embaixada dos EUA e seus consulados na Rússia. Abrangendo o período de 2002 a 2010, os vazamentos jogam luz sob as relações EUA-Rússia durante grande parte da primeira década do novo milênio. Embora as tensões nunca tenham atingido uma linha vermelha, como durante a Guerra Fria, os conflitos eram muitos. Por exemplo, os Estados Unidos se opuseram ao retrocesso das reformas democráticas da Rússia: perseguição a jornalistas, assassinando dissidentes e tomando estações de rádio, bem como o plano de Vladimir Putin de abolir a eleição de governadores e, em vez disso, autorizar o Kremlin a nomeá-los.

A Rússia, entretanto, opôs-se à concessão de adesão da OTAN a países do antigo Bloco de Leste – Bulgária, Roménia, Eslováquia e Eslovénia, bem como aos três estados bálticos. Afinal, Mikhail Gorbachev acreditava que, em troca de a Rússia aceitar a reunificação da Alemanha, a OTAN não se expandiria para o leste, o que representaria uma ameaça geopolítica para a Rússia e diminuiria sua esfera de influência.

Em 2007, a Rússia surpreendeu a embaixada dos EUA ao levantar preocupações com o Google Maps. Um telegrama classificado pelo então vice-chefe de Relações Exteriores, Daniel A. Russell, intitulado “US-Russia Security Talks“, afirma que a secretária de Estado adjunta dos Estados Unidos, Paula de Sutter, e o diretor do Ministério das Relações Exteriores da Rússia. Anatoliy Antonov, haviam iniciado uma reunião em Paris em Janeiro de 2007.

No encontro, trataram sobre os satélites utilizados pela geolocalização do Google Maps e como poderiam facilmente ser aprimorados para localizar bases militares na Rússia. Sergey Kislyak, Ministro de Relações Exteriores na época, afirmou que a cobertura de satélite pelo sistema do Google ‘acobertava’ algumas áreas dos EUA.

Geolocalização de bases militares russas pelo Google Maps. Fonte: Daily Mail.

A Rússia apontou objeções que eram obviamente legítimas. Infelizmente, nenhum outro telegrama documenta se os Estados Unidos abordaram ou não suas preocupações. Além disso, a incapacidade dos EUA de antecipar a profundidade ou sua despreocupação com as reações da Rússia à vigilância por satélite também se aplicava à implantação de defesa antimísseis dos EUA na Europa. Desde o início, a defesa antimísseis – massivamente antiaérea – tem sido um barril de pólvora de controvérsias entre os EUA e a Rússia.

As informações nos vazamentos não mudam o que já sabemos sobre as práticas de vigilância, corrupção e operações militares da Rússia, mas nos dão detalhes técnicos interessantes sobre como eles realmente implementam o regime governamental para a sociedade civil.

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