Fumando um nargas, na maciota

Esta é minha grande estreia n’O Sabiá e existe um sem-número de coisas sobre as quais eu poderia escrever. Sendo este um espaço dedicado à arte e a cultura, poderia escrever sobre as exposições que visitei no passado final de semana – Walter Firmo e Daidō Moriyama estão no IMS São Paulo, e com entrada gratuita! -, mas não me apetece dar dicas de cultura a pessoas que, supostamente, já têm cultura. Poderia, então, escrever uma crônica sobre o dia das mães ou, ainda, escrever uma crônica sobre não ter assunto para escrever uma crônica, mas, sendo sincero, já fiz isso algumas vezes e não gostaria de queimar tal recurso assim, logo de primeira, afinal, acabei de ver mais um cachorro na estrada, dor de cabeça, a garganta ressecada […] tem que saber chegar, tem que esperar sua vez! Poderia, também, parodiar — ou até mesmo copiar descaradamente! — uma das duzentas crônicas escolhidas de Rubem Braga que ninguém leu para que você me tomasse por um gênio, mas vou deixar para fazer isso mais para frente, e sem aviso prévio. Como eu disse, há tantas coisas sobre as quais escrever, e tantas coisas sobre as quais eu não tenho a mais mínima ideia, que me perco mentalmente pensando: o que eu faço agora, além de não saber? O problema, porém, é que de todos os meus ofícios terrestres, o violento ofício de escrever ainda é o que mais me convém, e diante da responsabilidade de uma grande estreia, a única coisa que me vem à cabeça é Twelves, o macaco-prego de estimação do cantor Latino, que morreu atropelado por volta das 13h do dia 20 de março de 2018 na Barra da Tijuca. Twelves tinha cinco anos de idade, 129 mil seguidores no Instagram e era criado como um filho, tanto que já havia fugido de casa um ano antes — ei, se o seu pai fosse o cantor Latino, você não tentaria fugir de casa também? Não podemos esquecer que, em 2016, Twelves e Latino envolveram-se em uma grande polêmica com o Ibama depois de o cantor publicar uma foto onde o macaco aparecia fumando um nargas, na maciota, numa nice, numa tranquila; isso me faz lembrar de outra polêmica envolvendo um animal e um macaco: em 1999, o jogador Edmundo despejou cerveja goela abaixo de um chimpanzé, que vestia uma linda jaquetinha da Adidas, durante o aniversário de um ano de seu filho. E o motivo que não me deixa tirar Twelves da cabeça mesmo na minha grande estreia é simples, banal, ordinário: ao contrário de Latino, que escreveu um reggae em apoio a Bolsonaro e cujo refrão rimava Brasil com puta que o pariu, Twelves tinha o temperamento comum dos gênios, formando um conjunto de misantropia, sensibilidade e entusiasmo. E aí, eu te pergunto: quem está melhor? Latino, que pinta barba, cabelo e posa para fotos abraçando o CEO do grupo Jovem Klan, ou Twelves, que está morto?

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