Entrevista: Walter Delgatti Neto

A Revista O Sabiá entrevistou Walter Delgatti Neto, hacker que obteve as mensagens das conversas de membros da força-tarefa da Lava-Jato em Curitiba e personalidades populares.

Em 26 julho de 2021, mostramos como a Operação Spoofing, processo judicial que investiga o vazamento das mensagens, estaria possivelmente atuando de forma política ao envolver o ex-ministro-chefe do governo Rousseff, Antônio Palocci, no processo como suposto mandante. A reportagem se tornou uma colaboração inédita de capa com a Carta Capital. Após a publicação da matéria, o inquérito foi arquivado pela Polícia Federal.

Em 29 de julho de 2021, publicamos um perfil biográfico de Walter Delgatti Neto abordando partes de dois processos judiciais publicizados pela imprensa brasileira após sua prisão – um envolvendo suposta fraude bancária, outro acusações de estupro. A publicação também conteve informações inéditas sobre ambos os casos, comprovando sua inocência.

Em 6 de janeiro de 2022 publicamos, também com exclusividade, na revista Jacobin Brasil sobre como o programa de extração israelense Cellebrite estava sendo utilizado na Operação Spoofing. O software é palco de uma ampla discussão sobre privacidade e direitos humanos.

Delgatti ainda se encontra em prisão domiciliar, em razão do único inquérito da investigação do Ministério Público. Ele obteve autorização judicial para cursar Direito, curso que estava enquanto fora preso em 2019, presencialmente em uma faculdade em São Paulo. Recentemente, também se tornou pai. Entrevistamos o estudante e hacker para falarmos sobre eleições presidenciais, Julian Assange e suas persepctivas políticas.

O QUE VOCÊ ACHOU SOBRE SÉRGIO MORO TENTAR SER CANDIDATO À PRESIDÊNCIA?

Para mim, foi algo esperado. Eu acredito que o Sergio Moro tem com ele um “fetiche” por poder e, ainda, acredito que ele sempre almejou ser o presidente da república do Brasil. Na minha opinião, se o Lula continuasse preso e a Lava Jato continuasse, quando ele disse que o Bolsonaro interferiu politicamente na Polícia Federal, a mídia teria muito mais força e por ser o mocinho da Lava Jato, muito possivelmente resultaria em impeachment. Era uma forma de conseguir vencer, em um cenário onde o Lula estivesse preso e a população ainda acreditasse nele. 

RECENTEMENTE, UM PAINEL DA ONU JULGOU QUE O QUE MORO FEZ NA OPERAÇÃO LAVA-JATO CONSTA COMO UMA VIOLAÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS. O QUE VOCÊ ACHOU SOBRE ISSO?

Notadamente a operação violava direitos humanos, isso era sempre apontado por juristas. Mas como a mídia fez uma lavagem cerebral na opinião pública, onde os fins justificavam os meio, onde o importante era prender até que um acordo de colaboração premiada fosse realizado. A população, quando assistia aos delatores contando com detalhes e apontando outros partícipes, se sentia revoltada e agradecia a operação pelo que estava fazendo. Sendo que muitos delatavam mentiras apenas para conseguir sair da prisão. Contudo, juízes de tribunais superiores não tinha mais forças para corrigir os abusos, já que o Deltan e o Moro, junto com a mídia, conseguiram convencer a maioria das pessoas que quem fosse contra os abusos da operação, era contra o combate a corrupção.

Mas, a decisão da ONU ficará sempre na história do país, pois se trata uma autoridade internacional confirmando que a operação não obedeceu leis, tratados e tampouco a Constituição Federal.

VOCÊ ACHA QUE A VAZA-JATO PODE INFLUENCIAR ESTE ANO ELEITORAL?

Na verdade, já influenciou. Já que o Lula está elegível, muitos que o tratavam como um corrupto agora entendem o que realmente aconteceu, e a mídia (Globo) perdeu forças que tinha para lançar o Moro como candidato, encontra-se totalmente influenciada a eleição. 

VOCÊ AFIRMOU EM UMA ENTREVISTA DE 2019 QUE AS MENSAGENS VAZADAS SÃO DE “INTERESSE PÚBLICO”. SE SÃO DE INTERESSE PÚBLICO, POR QUAL RAZÃO O CONTEÚDO DAS MENSAGENS FIZERAM COM QUE VOCÊ AINDA FOSSE PRESO?

O processo de início foi aberta uma investigação para saber o que tinha realmente acontecido. Eles descobriram o meu endereço de IP e envolveram outras pessoas no processo e eles entediam que as conversas eram de interesse público e que o método não a partir de nenhuma invasão de senhas, ou algo do tipo.

De início, eles mantiveram a ideia de que era uma organização criminosa porque era o começo dos vazamentos e eles queriam calar as publicações. A única forma de fazer isso seria mudar a minha confissão para haver um mandante.

A proibição do juiz de acessar a internet é para evitar que a imprensa entre em contato comigo, até para me convencer a divulgar mais conversas. Não há mais força midiática, nem política.

Ainda existe essa demora vantajosa de reconhecer o conteúdo dessas mensagens como de interesse público. E ainda assim o juiz conseguiu, de certa forma, manter as medidas cautelares e a ideia do crime. Via de regra, conversas feitas entre procuradores e juízes são públicas.

Reconheço que a justiça mantém os procedimentos e responsabilidades processuais. Por exemplo, o juiz poderia anular todo o processo e reconhecer a legibilidade do que foi revelado nas mensagens vazadas, mas veríamos pressão de todos os lados para inverter a decisão. É um abuso, sem dúvidas.

QUAIS SÃO AS SUAS PERSPECTIVAS PARA ESTE ANO ELEITORAL?

Acredito na polarização Lula x Bolsonaro, porém, devido a sua má gestão tanto na pandemia quanto na economia, suas falas e atos nada republicanos, a chance do Bolsonaro se reeleger, está bem próxima de zero. Não vejo outra opção senão a vitória do Lula, quiçá em primeiro turno.

HÁ CHANCES DE MEMBROS DA ANTIGA FORÇA-TAREFA DA LAVA-JATO SEREM ELEITOS?

Penso que será a chance de eles fazerem política na política. No entanto, há grandes chances do Deltan ficar inelegível, devido a processos disciplinares. O que me espanta é até a esposa do Moro ser candidata. Entretanto, Deltan, Janot, etc, não têm vocação para política e, criaram muitos inimigos. Caso eleitos, não conseguiriam fazer nada, não teriam espaço para nada e muito provavelmente teriam seus mandatos cassados.

SOUBEMOS QUE VOCÊ ATUALMENTE RETORNOU AO CURSO DE DIREITO COM AUTORIZAÇÃO DO JUIZ RESPONSÁVEL PELO SEU CASO. RETOMAR O CURSO E SUA FORMAÇÃO INTELECTUAL NA ÁREA LEGAL ESTÁ MUDANDO SUA PERSPECTIVA SOBRE A POLÍTICA BRASILEIRA?

Minha perspectiva vem se modelando a partir de estudos e analisando como é realizada a prática, como funciona o que eu chamaria de jogo. O curso de Direito é bem cauteloso quando o assunto é política. Os professores, na maioria juízes, promotores, delegados, encontram-se tacitamente proibidos de falar sobre política em sala de aula, já que esse assunto está polarizado e, caso fosse levantando em aula, acarretaria debates precedentes. Todavia, o curso está afetando a minha perspectiva sobre o meu processo e me conscientizando do absurdo que fizeram com a democracia do nosso país, durante a operação lava-jato. 

RECENTEMENTE A ORDEM DE EXTRADIÇÃO DE JULIAN ASSANGE FOI IMPOSTA NO REINO UNIDO. QUAL SUA OPINIÃO SOBRE ISSO E VOCÊ ACREDITA QUE A POLÍTICA BRASILEIRA DEVERIA DISCUTIR SOBRE ISSO E O WIKILEAKS NESTE ANO?

Isso demonstra a força que os EUA ainda têm. Não vejo outro motivo a não ser o de tortura, já que ele se encontra preso com ou sem extradição. Ou mesmo um troféu para o país, por ele vazar os documentos que demonstraram o abuso e a violação de direitos humanos dos EUA em guerras e, não obstante, a liberdade de imprensa. Não somente o Brasil, mas todas as Democracias do mundo deveriam discutir sobre este assunto e o WikiLeaks. Impondo até sanções aos EUA, defendendo o jornalista e condenando o que foi demonstrado com os documentos. 

Se analisarmos mais a fundo, os EUA estão ferindo a soberania do Reino Unido ao aplicar suas leis naquele país. O que abre margem para fazerem o mesmo em outros países, incluindo o nosso. Diversas autoridades declaram apoio a ele, porém, nenhum procedimento eficaz foi tomado em nosso país. A mídia brasileira, ao menos a grande mídia, não tem interesse em defender o Assange, eles preferem ficar do lado do governo norte-americano. O que faz com que pessoas cada vez menos tenham conhecimento sobre quem é Julian Assange e a importância do que ele fez. 

Devemos lembrar que se não fosse o Gilmar Mendes, o Glenn [Greenwald] poderia ter sido preso, já que o MPF pediu sua prisão no meu processo. E, ainda, mesmo com a liminar da Suprema Corte, o denunciou. Contudo, sabe-se que a política brasileira discutirá apenas o que for do interesse de cada candidato, de cada partido. A grande maioria, pouco se importa com democracia e com o povo. Quer apenas se manter no poder, a qualquer custo. Realizam alianças totalmente inesperadas, que surpreende até mesmo os políticos experientes. Enfim, o Brasil ainda tem um enorme analfabetismo político, até mesmo pelos próprios políticos. Demoraremos muito ainda para evoluir, quem sabe se o Assange tivesse feito tudo isso em outra época, com uma sociedade não tão primitiva, com todos fazendo e participando da política, tudo seria diferente. 

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