Porque os jovens deveriam ter enterrado o NFT há muito tempo

O que é um NFT? Em tradução livre, um “token não fungível” é uma peça original de arte que não se desgasta e nem se multiplica. A diferença entre um NFT e um simples .jpg é como a diferença de um Picasso original no museu e uma capa de caderno do Guernica. Os NFTs, como tudo “pra frentex” cibernético, são negociados através de um Ethereum, um tipo específico de criptomoeda.

Agora, vamos falar de números. Hoje, 11 de maio de 2022, dia de queda, um ETH (uma unidade de Ethereum) significa desembolsar R$11.871 através de qualquer cripto câmbio popular. Para a maioria Millennial e Geração Z, isso significa um poder aquisitivo de uma milifração de ETH. E, como qualquer criptomoeda, amanhã pode valer o dobro ou pode valer R$1, é difícil manter um prognóstico.

Mas o X desta questão não é onde milionários decidem ou não jogar seus rios de dinheiro, mas sim a forma como se produz esse dinheiro. Assim como outras moedas, essa não pode simplesmente ser impressa, caso contrário pode ser desvalorizada. O ETH, como o clássico Bitcoin, é produzido através de uma mineração de códigos, e funciona mesmo de uma forma bem parecida com minerações físicas. Um computador passa um período de tempo buscando códigos e equações que possam gerar um código legítimo de criptomoeda. E, assim como diamante, não é tão fácil de ser encontrado.

Cada GPU – unidade de processamento visual – uma “parte” do computador, como se fosse a “pá” de um minerador, tem uma velocidade em que funciona e que é capaz de criar e averiguar esses códigos, chamada de hash rate. O meu computador pessoal, que uso para editar e jogar (um computador médio, diga-se de passagem) tem uma hash rate de mais ou menos 33 Mh/s, e traduzindo significa que ele é capaz de buscar 33 milhões desses criptocódigos por segundo. Você pensa que é muito? Bom, se meu computador passasse 24 horas seguidas decifrando e autenticando esses códigos, eu teria um lucro médio de R$4 por dia em ETH. Se quiser pensar se vale a pena aventurar seu computador, você pode fazer as contas aqui.

Hoje, a oferta em circulação de Ethereum é de 120,74 milhões de unidades, movimentando mais de USD$ 276 bilhões, ou mais de R$1,41 trilhão. Isso não quer dizer que pequenos computadores trabalham desde o lançamento do NFT em 2014 ou do ETH em 2015, mas sim, que desde que o alcance de veiculação da mídia comum atingiu este mercado, em abril de 2021, aconteceu um boom de plantas de mineração de criptomoedas. As peças que usávamos para computadores gamers, de edição, ou qualquer função além de navegadores, se tornaram laboratórios de placas de vídeo construídas em quartos que passam dias em claro procurando aqueles códigos que signifiquem frações de ETH.

Reportagem CBS sobre minerações de Bitcoin.

“Mas e daí? Não quero um computador gamer, eu quero DINHEIRO!”. Pois então, vamos falar sobre custos. Quando estão em estoque, as peças de melhor custo benefício são as RTX 3090 flutuam entre R$12 mil e R$20 mil. Claro, com tanta procura justamente para esse propósito, o preço das peças aumenta a cada mês.

Montando uma mini planta de mineração com 20 GPUS em noites viradas, já somando a barganha de R$240 mil e supondo um valor mais baixo, seria necessário um espaço físico de mais ou menos 60 m², considerando uma estrutura de fileira única. Claro, é impossível calcular uma média de quanto custaria essa kitnet com a bolha imobiliária de hoje. Ainda assim, vamos assumir que o espaço físico da planta está garantido.

Para manter peças de computador funcionando 24 horas por dia, sem parar, seria prudente mantê-las resfriadas através de sistemas de água. Arriscando a compatibilidade e veracidade das peças, que tal uma oferta de R$300 por resfriadores simples? Seriam mais R$6 mil na conta. E, como nossas mães avisam, ninguém aqui é dono da light. Uma placa desse modelo consome aproximadamente 540 kWh por mês, ligado durante 24 horas por dia, 30 dias no mês, ou seja, seriam 10.800 kWh por mês apenas tendo em vista a busca por códigos.

É possível calcular aqui quanto isso custaria em cada cidade, mas em São Paulo, com a bandeira de escassez hídrica, a Enel enviaria uma conta de luz no valor de R$9.720 ao final de todo mês. Considerando que a maioria dos jovens brasileiros não tem R$260 mil no bolso nem para investir em uma casa própria, talvez esse não seja um investimento interessante para nós.

Contudo, mais do que o custo monetário que uma mini planta de mineração, são os custos ambientais das grandes plantas que já existem. Levando em conta as emissões de carbono pelas produções industriais em grande escala das peças físicas necessárias, o descarte de lixo em embalagens, a demanda crescente de fontes de energia – até mesmo em fontes renováveis como mais e maiores barragens, produção de placas de energia solar ou descampamento para parques eólicos – e a emissão de gases em transporte das fábricas para o mundo inteiro diante de um planeta em extinção que praticamente ignorou as pautas ambientais na recente COP 26, talvez custe mais caro para o mundo do que para o bolso.  

“The Merge”, Pak.

E mesmo assim, os valores continuam altos e a cada dia que passa, o mercado fica cada vez mais aquecido. Todos os dias acontecem leilões em valores assustadores, como um leilão de artes físicas. Na época da sua venda, a notícia sobre um NFT do famoso GIF do Nyan Cat sendo vendido a aproximadamente R$3 milhões assustou a grande mídia e parte das pessoas que não acompanham o nicho. Mas não está nem perto de ser o valor mais alto. Até hoje, o NFT que mantém essa posição foi vendido no valor de R$471 milhões, distribuído entre mais de 30 mil pessoas. É uma peça interativa com seu valor, em que a massa aumenta conforme recebe ofertas, e resultou nisso:

Considerando o poder aquisitivo do jovem médio no mundo, os anos que levarão até acumular um valor considerável para comprar uma obra, e a situação ambiental em que estamos em 2022, será que ainda vale a pena a nova geração pensar tanto na criptoarte?



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