Luto pelo fim da cultura Otaku

Agora que tenho sua atenção, vamos ao que realmente importa: em primeiro lugar, peço perdão aos otakus – apesar de não conhecer vocês a fundo, defendo que existam livremente e sejam tão ou mais felizes do que esse bando de otário que está gastando rios de dinheiro com NFTs; em segundo lugar, eu luto (e agora é para valer!) pelo fim da cultura do NFT.

Poderia listar aqui uma infinidade de argumentos para que você, meu caro leitor e minha cara leitora, embarcasse nessa briga a meu lado, mas a colunista Luisa Oguime já o fez nesta revista, e de maneira muito melhor do que eu faria. Você sabia que um Ethereum, criptomoeda utilizada na comercialização de NFTs, “é produzido através de uma mineração de códigos”, e que isso “funciona de forma bem parecida com minerações físicas”?

Até ler o texto da Luisa, eu nunca havia pensado que “para gerar um código legítimo de criptomoeda”, computadores passam uma quantidade considerável de tempo justamente procurando códigos e equações seguras o suficiente – coisas que, assim como diamantes, não são tão fáceis de ser encontradas. Enquanto escrevo esta crônica, 1 ETH (Etherium, criptomoeda) vale exatamente R$ 10.831,92, mas, como já disse, é melhor que você leia o texto. Altamente recomendável. 

Agora, para reforçar os argumentos que a Luisa listou, vou contar uma história que talvez não seja cem por cento real, mas, como você sabe, meu caro leitor e minha cara leitora, às vezes a verdade não dá conta de toda a verdade, e às vezes a gente precisa de uma boa mentira para dizer a verdade inteira. Pois, vamos a isso: eu, que para ganhar reais preciso trabalhar como PJ – ao passo onde o patrão converte seu pró-labore em ETH e, recentemente, transformou-se em colecionador de NFTs, além de ter co-criado uma DAO (Organização Autônoma Descentralizada, em tradução livre) que exige a compra de um NFT para que os interessados façam parte do clubinho -, faço freelas para engordar o faz-me-rir mensal. Recentemente, para conversar sobre as entregas e os valores de um freelance específico, fui convidado para uma reunião num café muito simpático. Pedi um expresso, como de costume, e,  meu interlocutor, um mocha gelado de chocolate branco. Conversa vai, conversa vem, chegamos aos finalmente:

— Certo, e qual orçamento vocês têm para esse trabalho? 

— Orçamento? Você quer dizer budget? Rá, rá, rá!

— Isso, budget. Rá, rá! Quanto vocês pretendem me pagar?

— Essa é a parte mais disruptiva desse job! Before talking numbers, se liga nisso: 30% do valor será pago em dinheiro, PIX! Os 70% restantes você recebe divididos em três NFTs exclusivos da nossa primeira coleção! 

— 70% em NFTs? Olha… 

— […] pensa grande, man: we’re about to fly over the rainbow, so high! São NFTs exclusivos, primeira coleção, arte com fundamento, com raízes na mais pura tecnologia, blockchain gringo!

— Escuta, meu parceiro, eu prefiro receber tudo em dinheiro. 

What do you mean, bro?

— Eu quero a grana. 

— Não vamos nos precipitar, man. Vamos fazer o seguinte: vai para casa, sleep on it e a gente se fala amanhã. Eu tenho certeza que você vai mudar de ideia, for real.

Despedi-me do meu interlocutor, que entrou na fila para pedir outro café, agora com óleo de coco e ghee – uma receita exclusivíssima, disse ele -, e saí. Na calçada, fui abordado pelo barista que nos atendeu. Ele estava fumando um cigarro e me dirigiu a palavra como se nos conhecêssemos há muito tempo: 

— Escuta, meu chapa, você não vai cair nesse papo de jacaré, vai? 

— Oi? 

— O corno lá dentro tá querendo te enrolar, meu chapa. NFT de [expressão censurada com carinho pela edição] é rola. 

— Pode crer. Eu vou recusar o trabalho, foda-se. Só preciso encontrar uma forma educada de dizer isso pro corno. 

— Aceita uma sugestão? 

— Claro, por que não? 

— Amanhã, quando ele te perguntar: “do we have a deal?”, você responde: “meu parceiro, você prefere dar [expressão censurada com carinho pela edição] pro seu pai ou comer a sua mãe?” 

Agradeci, filei um cigarro e fui para casa. Às vezes é melhor deixar as histórias sem fim mesmo.

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