Os crimes de guerra dos EUA estão intrísecos em ‘deslize freudiano’ de Bush

O ex-presidente dos EUA George W. Bush pareceu admitir que a invasão do Iraque em 2003 foi ‘totalmente injustificada, brutal’ em um discurso sobre a guerra na Ucrânia.

O ex-presidente dos EUA George W. Bush, que deu aval à invasão do Iraque em 2003 sob o falso pretexto de que o país estava desenvolvendo armas de destruição em massa (ADMs), pretendia condenar a invasão russa da Ucrânia durante um discurso em Dallas nesta quarta-feira (18). Outro discurso com a mesma profundidade, do atual presidente Joe Biden, aconteceu em Março, onde acusou o presidente da Rússia Vladimir Putin de ser um criminoso de guerra na atual conjuntura da guerra na Ucrânia. Ambos comentários foram feitos como uma observação improvisada.

A declaração de Biden foi de acordo com a linguagem incendiária e provocativa usada repetidamente por administrações passadas com o objetivo de escalar conflitos, neste caso, com a Rússia pela Ucrânia. O fato de Biden ter retornado à câmera para fazer essa declaração demonstrou uma escolha calculada de personalizar e aumentar as tensões para fins de propaganda. Há um caráter irreversível em tais declarações.

A acusação feita por Biden também está entre as mais graves possíveis. Tal declaração contra o presidente de um outro país, abrange não apenas a culpa por atos criminosos durante a condução do conflito, mas sim o crime de instigar ainda mais uma guerra, um crime contra a paz.

Julgando por esse padrão rigoroso, todo presidente norte-americano dos últimos 30 anos foi um criminoso de guerra.

A autorização de crimes de guerra

As guerras que ocorreram durante os governos de Clinton, Bush, Obama e Trump continham o mal acumulado da tortura em Abu Ghraib e Guantánamo, o bombardeio com drones contra civis, aldeias arrasadas por mísseis e refugiados afogados no Mediterrâneo. Bagdá desmoronou sob o choque e o tremor de bombardeios dos EUA. Atos de guerra que tiveram a morte de milhares sob a justificativa de manutenção da paz e ordem.

Os 3 ex-presidentes Barack Obama, George W. Bush e Bill Clinton. Reprodução.

Após a morte de Donald Rumsfeld, muitos ex-funcionários do governo Bush comemoraram o sucesso da participação do ex-secretário de Defesa. A ex-secretária de Estado Condoleezza Rice se referiu a Rumsfeld como “um funcionário público notável e comprometido”. O presidente George W. Bush divulgou na época um comunicado afirmando que foi um “período que trouxe desafios sem precedentes aos EUA e aos militares” e que “também trouxe à tona as melhores qualidades do secretário Rumsfeld”. Ele acrescentou que Rumsfeld “enfatizou um pensamento original e responsável” e que os EUA estavam “mais seguros e em melhor situação por seu serviço”.

Como chefe do Departamento de Defesa, Rumsfeld foi responsável pela tortura e tratamento desumano de pessoas detidas, causando danos graves às condições físicas e mentais de detentos. Como esses atos foram cometidos durante a guerra do Iraque, eles podem constituir crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

Embora Rumsfeld não tenha cometido pessoalmente esses crimes durante a guerra ao terror, ele os autorizou. O ex-secretário também chegou a assinar um memorando de ação aprovando técnicas de interrogatório forçado em detentos na Baía de Guantánamo em Cuba, acrescentando uma nota que dizia: “Eu fico de pé por 8-10 horas por dia; por que ficar de pé é limitado a quatro horas?” De acordo com um relatório do Comitê de Serviços Armados do Senado dos EUA, Rumsfeld e outros representantes da adminitração Bush foram culpados pela tortura de pessoas detidas na prisão de Abu Ghraib no Iraque e na Baía de Guantánamo.

Criminosos de guerra desconstruídos

Bush tem se reinventado na sua pós-presidência, e agora, um gentil estadista mais velho, se afirmou como um adversário de Donald Trump e contra o “estado atual do Partido Republicano”. Bush se tornou um escritor – já lançou um livro de retratos de imigrantes intitulado “Out of Many, One” – e amigo de personalidades como Michelle Obama e Ellen DeGeneres. Em 2018, o ex-presidente Bush e a primeira-dama Laura Bush receberam a Medalha da Liberdade do National Constitution Center, concedida a líderes “que se esforçaram para garantir as bênçãos da liberdade às pessoas em todo o mundo”. No ano seguinte, ele também recebeu o Lincoln Leadership Prize da Abraham Lincoln Library Foundation.

A concessão de cargos oficiais e elogios a homens culpados de violações de direitos humanos é uma questão bipartidária nos EUA. Henry Kissinger, por exemplo, continua sendo amplamente respeitado nos círculos de Washington, e foi homenageado pelo governo Obama em uma cerimônia de 2016 no Pentágono. Hillary Clinton se referiu a Kissinger como amigo. Ele também chegou a aconselhar Donald Trump.

Mas em governos anteriores, Kissinger foi apenas mais um que auxiliou regimes que cometeram crimes de guerra e crimes contra a humanidade, como Paquistão, Camboja e Timor Leste.

Já passou da hora de responsabilizar criminosos de guerra por meio de mecanismos centrados nas pessoas, como os tribunais populares. Os tribunais populares são fóruns de justiça iniciados por organizações de base e movimentos de justiça social. Seus espaços favorecem no julgamento de acusações contra o Estado e atores estatais fora do sistema judicial formal.

Os tribunais populares que centralizam as vozes das pessoas diretamente impactadas podem ser organizados para responsabilizar Bush, Abrams, Kissinger e outros criminosos de guerra que ainda permanecem na cena política e atuando como vozes razoáveis na imprensa. É possível que esses políticos possam nunca ver o interior de um tribunal, mas esses tribunais podem ajudar a corrigir o registro histórico sobre quem são esses representantes políticos e o que eles já fizeram.

Comunidades, famílias, aldeias e indivíduos impactados pelas atrocidades que eles criaram não merecem fazer parte de uma simples fala de deslize.

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