A expressionista do século XXI


“O lugar perfeito seria onde Ella, Van Gogh e Munch cruzariam madrugadas silenciosas enquanto gritavam sentimentos que todos fingem ouvir”


Capa do álbum “Melodrama” de Lorde

“A arte imita a vida”. Essa citação de Aristóteles evidencia o quanto é difícil para um artista se afastar de sua realidade em suas criações. Nesse sentido, a arte, principalmente em momentos delicados, se torna uma companheira, uma amiga fiel. O artista faz bom uso de suas habilidades para se expressar e desabafar. Aliás, é exatamente esse fator que faz com que as pessoas se identifiquem com filmes, músicas, séries, livros, entre tantos outros meios de entretenimento.

Sem dúvida, Olivia Rodrigo sabia do que estava falando quando descreveu a adolescência como brutal. Se você já teve o coração partido, aposto que o álbum Red de Taylor Swift foi seu amigo do peito por pelo menos dois dias. The Bold Type, uma icônica série de TV norte-americana, foi inspirada no cotidiano da ex-editora-chefe da revista estadunidense Cosmopolitan, Joanna Coles. Aqui no Brasil, no universo literário, foram incontáveis as vezes em que Paula Pimenta declarou que um bom escritor escreve sobre aquilo que conhece.

Esse modelo de criação se reafirmou ainda mais quando, em 16 de junho de 2017, Lorde decide lançar seu segundo álbum de estúdio. O estopim para o início da produção do Melodrama foi o término de relacionamento prolongado com o fotógrafo James Lowe. Depois de três anos juntos, a cantora e compositora mergulhou num universo melancólico; tentando tocar a vida enquanto transitava por cada uma das letras das onze faixas do projeto. No entanto, apesar da tristeza, Lorde não queria construir um álbum apenas sobre corações partidos. Ela rompe com a fórmula enfadonha de “garota machucada” e expande o sofrimento para além do término. De fato, o Melodrama é sobre desejos obscuros, vontades sombrias, as diferentes sensações experimentadas em uma festa, desabafos explosivos, confissões dramáticas. É assim que Lorde se firma na indústria como a expressionista do século XXI.

As características do movimento artístico do século XX estão presentes logo na capa do álbum. Enquanto as cores azul e roxo se contrastam numa menção à solidão, os contornos indefinidos somados a expressão do rosto capturam a vulnerabilidade de Lorde naquele momento. Sua mão sob o travesseiro pode até ser confundida com um coração. Já o sombreamento, ganha destaque entre a iluminação baixa; insinuando o desejo ou até mesmo o vício em se sentir solitária. A estética impecável do projeto já previa seu sucesso, pois com certeza o artista Sam Mckiniss, responsável pelo quadro, não podia ter escolhido inspiração melhor que Vicent Van Gogh.

As influências do Expressionismo não param por aí. Assim como as vanguardas, Lorde choca o público – principalmente os fãs – ao lançar o primeiro single da era, Green Light. No início, todos ficaram com receio de que a cantora se rendesse às fórmulas genéricas do pop internacional, e assim se desprendesse de sua personalidade peculiar, presente no álbum anterior, Pure Heroine. Efetivamente, o toque radiofônico da música garantiu seu sucesso nos charts, mas a letra mística, composta por Ella, Jack Antonoff e Joel Little, confere a permanência de identidade da cantora. Qualquer compositor antigo na indústria poderia escrever sobre seguir em frente após um rompimento, mas apenas esse trio teria a genialidade de comparar a situação com a luz verde de um semáforo. Ao se inserir na atmosfera do álbum, você consegue visualizar as batidas eletrizantes ecoando numa casa de shows à noite em Nova Iorque. Quando os vocais soam, desesperados, em meio à produção maximalista, cantando “I’m waiting for it, the green light, I want it” (em português, “Estou esperando por isso, a luz verde, eu a quero”), você tem certeza que é Lorde.

Na sequência da tracklist, a cantora continua sua jornada noturna em Sober. Agora, ela se deixa levar por uma paixão intensa ao retratar uma situação típica em que se envolve de forma instantânea com um completo estranho na festa. Os dois, no calor do momento, se divertem e aproveitam a superficialidade um do outro, enquanto fingem não se importar com o que virá a seguir. Essa narrativa prossegue em Homemade Dynamite, o single promocional cuja composição teve partcipação de Tove Lo, e mais tarde ganhou um remix com Khalid, Post Malone e SZA. Em The Louvre, o título, a sinfonia da bateria e o solo de guitarra que conferem à faixa um tom poético, são claras referências à vanguarda expressionista. Nessa, Lorde insinua a estupidez que é se apaixonar, ao passo que explicita sua obsessão pelo parceiro.

Apesar da diversão, infelizmente, a noite não dura para sempre. Com a iminência do nascer do sol, é hora de encarar os sentimentos enterrados e a dura realidade. Com isso, o álbum encosta num ponto super delicado que serve como identificação não apenas para Lorde e os fãs, mas também para a sociedade de maneira geral. A quinta faixa, Liability, inspirada em Higher, da Rihanna, é sobre se sentir culpado e desconfortável por ser um peso na vida de alguém. Ao expor os desafios de ser uma celebridade e conciliar vida pública com vida pessoal, Lorde acaba impactando toda uma geração. É nítida a tristeza e a fadiga da cantora enquanto entoa cada palavra. Em menos de três minutos, você embarca numa viagem de crise existencial recheada de melancolia. Liability é como uma representação sonora de todos as sensações que Edvard Munch gostaria de transparecer em sua famosa obra, O Grito.

Os fatos continuam sendo expostos em Hard Feelings/Loveless. Ousadamente, nessa faixa, dividida em duas partes, Lorde faz referências diretas ao ex quando canta “three years, loved you every single day” (em português, “três anos, amei você cada dia”). Neste primeiro momento, ela retrata aquela situação em que percebe que o relacionamento esfriou, e você e seu parceiro ficam cada vez mais distantes. Já na segunda parte, a cantora não apenas alcança a segunda fase do luto, onde sente mágoa e raiva do ex-companheiro, mas também critica a forma como os relacionamentos tendem a ser rápidos e superficiais na nossa geração. Parafraseando a letra, estamos todos “fodendo” a cabeça de nossos amantes.

Em Sober II (Melodrama), que serve também serve como “faixa título”, Lorde resgata a temática da segunda música. Sóbrios, ela e o desconhecido não sentem mais aquela conexão imediata. Portanto, a festa termina, o dia nasce, o coração partido vem à tona, e eles se separam. Em seguida, Writer In The Dark é definitivamente uma das pérolas do Melodrama. A balada ao som do piano, que remete a Liability, é sobre as difíceis etapas do processo de seguir em frente após o término de um relacionamento. Mais uma vez, é possível sentir o sofrimento na voz de Lorde. Ainda na canção, ela menciona o fato de ter eternizado sua relação com James em suas letras. A única coisa que não faz sentido é como ele se atreveria a se arrepender de ter beijado uma gênia como Ella Marija Lani Yelich- O’Connor!

Num ritmo pop dançante, Supercut – aquele clássico ‘single desperdiçado’ – fala sobre repetir na memória cenas intensas de uma relação ao escutar uma música no carro. Na sequência, Lorde revisita o conceito de Liability e, de novo, causa um impacto bastante significativo através da mensagem. Mais madura, dessa vez, ela substitui a sensação de fardo por autoaceitação. Ella sabe que as pessoas que se importam de verdade irão permanecer em seu círculo. “But you’re not what you thought you were” (na tradução, “mas você não é o que pensava que era”) reflete a evolução; ao mesmo tempo em que “leave” (“deixe”) transmite liberdade e clareza.

A cantora segue sob esta ótica consciente para finalizar o projeto com chave de ouro. Perfect Places, o segundo single da era, carrega a essência da juventude atual: os adolescentes não são fúteis, ingênuos ou frívolos! Eles apenas procuram respostas ágeis para suas inquietações agonizantes nas festas, sexo, drogas e bebidas. Ainda ao concluir que os lugares perfeitos não existem, Lorde, no auge de seus 19 anos quando a faixa foi escrita, desperta nos jovens o desejo inconsciente de berrar para o mundo suas inseguranças e vontades. “We’re young and we’re ashamed” (no português, nós somos jovens e nós temos vergonha).

Cada um dos elementos presentes no projeto, desde a estética bem definida até a coesão sonora, garantiram a aclamação tanto da crítica especializada quanto do público. No Metacritic, por exemplo, o álbum recebeu nota 91 de 100, baseado em 32 análises. O exigente Pitchfork, elogiou a forma singular como Lorde capturou as emoções. Até mesmo o incrível David Bowie disse que a neozelandesa é o futuro da música. Sem dúvida o Melodrama deveria ter levado o prêmio de Melhor Álbum Do Ano no Grammy de 2017! Nas performances, sejam promocionais ou da turnê, Lorde impressiona com o universo criado, o jogo de sombras e luzes e seus vocais; dando destaque às apresentações oficiais no canal da Vevo.

O segundo álbum de estúdio consagra Lorde na indústria não apenas como artista, mas também como revolucionária. A cantora, que começou a fazer sucesso em 2013 com o grande hit Royals, cresceu e amadureceu juntamente ao público; o que só facilitou a conexão com os jovens, além de favorecer a construção da atmosfera relacionável. A maestria e sabedoria de Lorde ressignificaram a estética brilhante, insana, desajeitada e abstrata do Expressionismo. Afinal, o lugar perfeito de verdade seria onde Ella, Van Gogh e Munch cruzariam juntos madrugadas silenciosas enquanto gritavam sentimentos que todos fingem não ouvir.


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