Ver, querer, mas não conseguir crer que, um dia, vai ser

Hoje em dia, é muito difícil conseguir acreditar no nosso potencial sem que haja uma comparação com o que o outro produz, faz, ou deixa de fazer.

Com a sociedade contemporânea, do consumo e do cansaço, a busca por excelência deixou de ser algo que encontramos apenas em ambientes compartilhados, migrando para o individual. A chance de falha, mesmo diante dos resultados bons que atingimos, muitas vezes é mais considerada e alimentada, vindo a auto depreciação ser um vilão clássico em nossa rotina .

A auto flagelação tornou-se algo cotidiano. Além da busca incessante pela aprovação social, atualmente temos uma busca eterna pela perfeição em todas as áreas. Com a internet, isso acaba sendo mais alimentado, uma vez que todos nós temos que ter opiniões sobre tudo e todos.

Os nosso momentos individuais, sozinhos, em vez de serem momentos de descanso, tornaram-se momento de cobrança e planejamento. A mente não para para analisar os ganhos, apenas as perdas.

Nos tempos livres, muitos de nós utilizam as redes sociais para descontrair, núcleo o qual gera muitos comparativos e indagações, como: “porque EU não consigo fazer isso também?”. A realidade por detrás das câmeras muitas vezes são ignoradas nesses momentos (até porque, na maioria das vezes, não são compartilhadas nas redes).

Chega-se, assim, a uma conclusão: ser bom em uma coisa já não basta há muito tempo.

Buscamos a excelência em tudo.

Não existe mais aquilo de atuar em uma área específica, essa ideia de que temos que sempre nos reinventar gera o crescimento de uma insegurança e auto cobrança, fazendo com que a gente busque sempre ser o melhor em tudo, não havendo descanso mental. A busca pelo crescimento profissional, o querer mais sempre, nos coloca na doce ilusão de que a felicidade está sempre no futuro, em coisas que ainda não conseguimos conquistar.

Com essa roda gigante travada no topo que é a busca pela felicidade, é possível ver como já não bastam os elogios externos, porque aqui dentro não tem uma só voz que diga “você é bom”, que acredite que o que é bom leva tempo, e falhar é normal.

Essa falta de credibilidade no tempo e no nosso próprio aprendizado gera uma cobrança por sempre buscar algo que não temos, e ainda, uma comparação eterna, fazendo com que a gente acredite que porque não temos nesse momento como a outra pessoa tem, não conseguimos ter nunca.

Frente a tudo isso, o que chama atenção é o fato de que, hoje, os nossos maiores inimigos são nós mesmos. Nós não nos damos qualquer tempo de descanso e acabamos por ser nossos próprios impostores. Quando nos oferecemos o descanso, achamos que somos preguiçosos ou ingratos.

E isso vem de dentro da gente, ninguém precisa dizer. Muitas vezes, o outro inclusive fala para gente desacelerar, mas achamos que não merecemos e que esse momento de respiro vai ditar todas as nossas conquistas, pois muito se conecta a ideia de sucesso com a de exaustão.

Com a já conhecia síndrome da impostora, o sentimento de incapacidade e de ser uma fraude é alimentado, tornando-se uma cadeia de auto sabotagem, não deixando espaço para falhas, pois, afinal, caso você venha a não se sair bem, já era algo previsto, pois “eu não era mesmo capaz de fazer isso”.

Diante de toda essa energia frenética em que vivemos e alimentamos, parei para pensar como tem coisas em que se sonha, almeja, deseja, inclusive projeta-se, mas diante da falta de um olhar de auto compaixão, não se acredita que um dia irá se concretizar, muito porque a ideia de que não existe capacidade em si mesmo é retro alimentada, fazendo com que a gente desista de tentar.

Dito isso, deixo um poema que explica um pouco de como pode ser esse sentimento de auto sabotagem nos momentos em que a impostora que vive em nós fala mais alto.

É difícil
ver
Querer
ser
Mas não crer que
Um dia
vai ser.

Impostora
Cego meus poderes.
Comparo minhas falhas.
Sinto-me desamparada e
Incompetente.
Adeus adeus adeus
Ao ser.

Não. Não. Não. 
Eu ainda vejo.
Eu ainda quero.
Continuo
querendo
ser.

Mas já não creio que
Um dia
Vou ser.
Não apenas
Um querer.

Desisto.
E
Decido
que
já não iria
mesmo
Ser. 


TEM UMA PAUTA?
ESTAMOS AQUI!

Toda ideia tem o potencial de ser uma boa ideia. Gostamos de ouvir ideias de pauta, denúncias ou sugestões de nossos leitores. Se quiser compartilhar, conte conosco — e olha, pode ser anônimo, tá?


Em destaque

RECENTES

A revista o sabiá é um veículo de mídia independente e sem fins lucrativos, que busca usar o jornalismo e a comunicação como um mecanismo de mudança no futuro das novas gerações.