A cópia na construção do “eu” e na criação artística


E o que é a cópia? Apenas a reprodução idêntica de alguma coisa? Um ato condenável, desejável, inescapável? A reflexão sobre a cópia se dá na filosofia desde Platão.


“Você está me copiando!”, consiste em uma agressão grave. De imediato, o copiado se impõe como superior em relação ao copiador, como um modelo a ser reproduzido. Ocupa uma posição superior na hierarquia de valorações. Em adição, o “eu” torna-se uma propriedade capaz de ser apropriada indevidamente pelo “outro”. “Você é minha inspiração!”, contém uma inversão significativa. Com ela, a fúria do copiado será possivelmente aplacada, revertida em êxtase. Porque a superioridade é reconhecida. Pelo menos implicitamente. Admite-se o copiar caso seja revestido de outros nomes: o cover de um artista, por exemplo, é uma cópia socialmente aceita. A questão é admitir a cópia. Mas como admiti-la apenas às vezes se o copiar está por todo corpo de todo ser? As células são cópias de cópias.

E o que é a cópia? Apenas a reprodução idêntica de alguma coisa? Um ato condenável, desejável, inescapável? A reflexão sobre a cópia se dá na filosofia desde Platão. O filósofo dividia a realidade em duas: um mundo sensível, ilusório, passageiro, no qual os seres humanos vivem, percebendo-o por meio dos sentidos; outro metafísico, das ideias originárias, permanente, onde as almas eternas repousariam antes de existir feito corpo. Em tal plano superior, residiriam as formas perfeitas, os moldes-primeiros das coisas mundanas: a Beleza, a Justiça e a Verdade enquanto tais, dignas da letra maiúscula.

Segundo a estética platônica, construída a partir da metafísica dos dois mundos, algo terreno é belo quanto mais se assemelha ao modelo do mundo das ideias. Por ser cópia terrena de uma realidade espiritual, jamais será tão bela quanto o molde. A Arte é cópia da cópia: uma pintura realista de uma árvore reproduz a reprodução física da árvore do mundo metafísico. Assim, distancia-se duplamente da Verdade. Logo, é uma enganação de uma enganação. A filosofia platônica abomina a má cópia, enquanto admite a boa cópia, que nunca superará o objeto original.

Platão lançou as bases da teologia cristã. Para ela, o corpo é imperfeito, passageiro; a alma é perfeita, essencial. O tempo é pecado, a eternidade é salvação. Somos, inclusive, feitos à imagem e à semelhança do Deus cristão. Somos cópias. O cristianismo, por sua vez, forjou a mentalidade do Ocidente. Valoriza-se, então, a criação a partir do nada, habilidade exclusiva do Deus único da cultura judaico-cristã. Copiar se traduz como degradação, jamais condição para criar-outro. Entretanto, qualquer objeção à ideia de copiar – instituição deveras desvalorizada na sociedade do individualismo e do copyright – encontrará um obstáculo intransponível: as línguas humanas. Para discordar de qualquer coisa, a linguagem se faz indispensável. O que são as palavras, imagens e gestos utilizados dia após dia para significar o “eu” e o “mundo” senão criações anteriores ao indivíduo? A cópia é a condição humana.

Desde cedo, portanto, copia-se o falar alheio. Às vezes o falhar. Se se pensa a partir da língua, o pensar do “eu” está impregnado de alteridade. Conceber um discurso próprio implica em um conhecimento profundo do dizer do outro. Eis as palavras do filósofo estadunidense do século XIX, Henry David Thoreau, em Walden: “O eco é, em certa medida, um som original, daí a sua magia e o seu encanto. Não é meramente uma repetição daquilo que valia a pena ser repetido no toque do sino, mas em parte a voz da floresta; as mesmas palavras e notas triviais cantadas por uma ninfa do bosque”. Thoreau concede ao eco – à cópia – o status de original, porque repete diferente: a floresta canta o som anterior, do soar metálico do sino, articulando-o à unicidade das cordas vocais cheias de doçura das árvores. Em relação aos humanos, qualquer unicidade existencial será resultado de cópias articuladas de uma maneira única pelo sujeito. “Je est un autre” (eu sou um outro), escreveu o poeta simbolista francês Arthur Rimbaud.

Acerca de alguns dos gênios do século XX, o músico Bob Dylan (Duluth, 24 de maio de 1941) será um dos eleitos por vários. Se prêmios são critérios de qualidade válidos, existirão oportunidades de discutir em outro momento: de qualquer modo, o poeta é o único a reunir o Nobel de Literatura, o Oscar, o Grammy, o Globo de Ouro mais uma menção do Pulitzer. Quem é Dylan? É multidões. E o bardo judeu romântico de Minnesota, como Caetano Veloso o apelidou na canção A Bossa Nova é Foda, copiava sem nenhum remorso. Em um poema escrito por Dylan, 11 epitáfios esboçados, o poeta admite: “Sim, sou um ladrão de pensamentos”. Antes de ser reconhecido feito um artista revolucionário, Bob metamorfoseou-se em Woody Guthrie (1912 – 1967), cantor e compositor estadunidense de folk pelo qual nutria admiração. Tentou cantar, tocar violão e gaita encarnando Guthrie. Robert Allen Zimmerman desejava tão somente copiá-lo perfeitamente.

Ao ouvi-lo pela primeira vez, Dylan relata a epifania na autobiografia Crônicas: “Naquele dia, escutei Guthrie como que em transe, e senti como se tivesse descoberto alguma essência de autodomínio, como se estivesse no bolsão interno do sistema me sentindo mais eu mesmo do que nunca. Uma voz em minha cabeça disse: ‘Então esse é o jogo’. Eu podia cantar todas aquelas canções, cada uma delas, e elas eram tudo o que eu queria cantar. Era como se eu houvesse estado nas trevas e alguém tivesse ligado o interruptor da luz. (…) Por meio das canções dele, minha visão do mundo estava entrando em foco nitidamente. Disse a mim mesmo que seria o maior discípulo de Guthrie”.

Os olhos a entrar em foco… como se as palavras cantadas por Woody servissem feito óculos capazes de possibilitar a Dylan uma visão menos embaçada do entorno. Ouvir Guthrie seria como ir ao oftalmologista pela primeira vez, descobrir uma realidade-outra escondida sob o mundo anterior, antes visto como o único possível apenas por um defeito óptico. Zimmerman se sente mais ele próprio do que nunca a partir dos significados articulados por um outro exterior a ele. Conhece-se um pouquinho mais pela alteridade, pelo menos por um breve momento. Antes de Bob ser Dylan, foi Guthrie.

Lançado em 1962, o primeiro álbum de Bob Dylan continha duas músicas autorais entre treze faixas. Das canções escritas por ele, há Song to Woody, uma sensível homenagem ao ídolo, à época doente em um hospital. “Uma coisa era certa: se eu quisesse compor canções de folk, precisaria de algum tipo de modelo novo, alguma identidade filosófica que não se desgastasse. Ela teria que vir de fora e por si mesma. Sem eu saber exatamente, isso estava começando a acontecer.”, relata Bob em Crônicas. Dylan compreende nascer a partir do contato com o outro exterior, de uma lenta construção tanto inconsciente quanto coletiva. Ao longo do relato autobiográfico, reverencia vários artistas somados a obras basilares para a existência dele.

A partir de 1963, Zimmerman escreve cada vez mais letras próprias. Com versos, ideias e melodias “roubadas” de qualquer canto possível, misturava tudo em uma poética única, autoral. Todos os seres humanos são ladrões de pensamento. Talvez menos competentes comparados a Bob Dylan, por razões várias. Possuem, porém, uma vantagem injusta sobre o trovador: o pensar dylanesco está aí para ser furtado, incorporado pelas almas criadoras que hoje nascem nas ruas, nos hospitais, nos escombros da guerra.

Com tais reflexões, pretende-se relativizar o ato de copiar, expandir os significados de um verbo tão desprezado pelo espírito do tempo contemporâneo. Inexiste defesa do plágio puro e simples: primeiro, porque é crime sob certas circunstâncias; segundo, porque é eticamente condenável em alguns meios, como no acadêmico e no jornalístico; terceiro, porque plagiar por plagiar qualquer robô faz; quarto, porque creditar o autor se possível é uma demonstração de reconhecimento, de agradecimento. Referenciar é reverenciar, comemorar a construção conjunta de qualquer sequência de letras, de significados. É resgatar a importância do outro.

Há uma tentativa de ressuscitar o que os modernistas brasileiros, resgatando a antropofagia, propuseram no começo do século XX: incorporar o estrangeiro valoroso ao próprio corpo, alimentando-se dele para conceber uma versão-outra da vida. Caso por acaso se criar algo, o criador compartilhará um laço eterno com o resto da humanidade. Portanto, tal qual o presente texto, toda criação é uma cocriação, uma recriação, posto que ex nihilo nihil fit (nada surge do nada).


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