Helena Ignez e o Cinema de Invenção

Vinte e três de maio marca o aniversário de uma das mais importantes atrizes e autoras da história do cinema brasileiro. Marcada por uma postura de invenção e desconstrução em seus papéis, Helena Ignez é lembrada especialmente pelos seus papéis em clássicos do cinema novo e do cinema marginal e segue ativa, mesclando atuação e direção aos 83 anos de idade – não se sabe ao certo se são 80 ou 83, fontes diversas confirmam anos de nascimento diferentes para a atriz.

Helena não aceita o papel de musa do cinema marginal ou do cinema novo, como afirma em entrevista na revista Mulher No Cinema: “O lugar da musa é o silêncio (…) É um lugar perigoso”. É verdade que o lugar de Helena nunca foi o silêncio, sendo diretamente responsável por transformar o papel da mulher no cinema brasileiro a partir da transgressão brechtiana, como definiu Ismail Xavier, um dos grandes teóricos do cinema brasileiro. Em seus primeiros filmes, colaborou com grandes diretores do cinema novo, como Olney São Paulo, Glauber Rocha e Joaquim Pedro de Andrade. Mas foi junto a Rogério Sganzerla e Julio Bressane que almejou ainda mais – faltava invenção ao cinema novo. Após o sucesso criativo de O Bandido da Luz Vermelha (1968) e A Mulher de Todos (1969), ambos dirigidos por Rogério Sganzerla e tendo em Helena Ignez um dos pilares da criação artística, o próximo passo seria a criação da Belair Filmes, em parceria com os dois diretores.

Julio Bressane admite que foi a radicalidade das atuações de Helena que criou o tom dos filmes produzidos pela Belair – alguns que são, hoje, clássicos incontestáveis do cinema brasileiro, como Barão Olavo, O Terrível (1970), Copacabana Mon Amour (1970) e Sem Essa, Aranha (1970). Entre problemas com a censura e com a recepção do público, a experiência durou pouco, mas é impossível falar de cinema brasileiro sem falar da Belair e sem falar de Helena Ignez. Neste período a atriz vive provavelmente seu papel mais marcante, o de Sônia Silk, em Copacabana Mon Amour (1970). Sônia Silk é uma ruptura com todos os estereótipos esperados de uma mulher no cinema, especialmente no comercial cinema hollywoodiano. Dotado do poder de subversão a partir do seu corpo e de sua palavra, Sônia é potência questionadora em um cenário de fragmentação e opressão, sendo seu corpo o centro do filme e de sua complexidade enquanto caminha pelas ruas do Rio de Janeiro. “Antes a fome não me deixava pensar. Agora ela me faz pensar não em mim, nem nos espíritos dos meus amantes, mas a fome faz cada vez mais pensar na fome dos outros azarados da Terra. É preciso mudar a face do planeta para transformar pela violência este planeta errado, vagabundo e metido a besta!”, disse.

Versada nas teorias feministas que começavam a explodir em sua época, Helena Ignez se utilizou desta influência na construção das suas personagens, especialmente neste período vanguardista – De Janete Jane, primeira personagem que interpretou em um filme de Sganzerla, até suas personagens que refletiam ainda mais o clima de opressão política da ditadura como Ângela Carne e Osso e Sônia Silk, mostrou-se comprometida com a experimentação e o cinema autoral. Não é apenas como atriz, entretanto, que é autora: a partir de 2005 trabalha com direção e tem, como um dos destaques, o filme continuação de O Bandido da Luz Vermelha, Luz Nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha (2010) em que não apenas homenageia o original, mas traz perspectivas de reinvenção pós fim das vanguardas – no Brasil, tudo ainda é sobre liberdade, subdesenvolvimento, caos.

Helena Ignez é história viva do cinema brasileiro e segue produzindo e pensando o cinema. Não se pode restringir o seu papel ao de musa de grandes diretores, nem de esposa. A representação da mulher no cinema alcançou novos paradigmas a partir de Helena; agora não mais aquela Helena que, como sua personagem Sonia Silk tem “pavor da velhice”, mas uma que entende que sua trajetória está sempre eternizada na história do Brasil. No documentário que sua filha Sinai Sganzerla dirigiu sobre a história da mãe em 2019, Helena é categórica: “A velhice é uma delícia”



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