Happy birthday, Henry Kissinger. Sorry your party’s so lame.


O ex-secretário de estado estadunidense completa, nesta sexta-feira, noventa e nove anos. Conhecido como o “mago da diplomacia”, Kissinger coleciona orientações diplomáticas duvidosas em seu currículo. Para os estadunidenses, é considerado um herói; para o resto do mundo, um criminoso de guerra com um prêmio Nobel na estante.


O ex-secretário de estado estadunidense completa, nesta sexta-feira, noventa e nove anos. Conhecido como o “mago da diplomacia”, Kissinger coleciona orientações diplomáticas duvidosas em seu currículo. Para os estadunidenses, é considerado um herói; para o resto do mundo, um criminoso de guerra com um prêmio Nobel na estante.

Nascido na Alemanha, Henry Kissinger, que têm origem judia, mudou-se para os Estados Unidos com a sua família aos cinco anos (1938), devido à repressão e à perseguição aos judeus comandada por Hitler. Tendo se formado em contabilidade e cursado pós-graduação em Harvard, Kissinger demonstrou o seu interesse por assuntos ligados à estratégia e ao poder após obter o título de professor, conquistando rápida notoriedade no campo acadêmico. O reconhecimento foi tanto que, no governo de Richard Nixon, esse se tornou o 56º Secretário de Estado dos Estados Unidos, cargo que equivale à posição de Ministro das Relações Exteriores no Brasil. 

A guerra contra a ideologia comunista moldou a política externa dos Estados Unidos ao longo do século XX; e com Kissinger ficou ainda mais evidente. O envolvimento do diplomata em assuntos sensíveis que tratavam diretamente da repressão à grupos comunistas em países subdesenvolvidos gerou tamanha revolta que, nos dias atuais, há uma recomendação clara de que a presença desse em certos locais deve ser evitada.  

Autor de diversos livros que tratam de política externa, com destaque às obras “Diplomacia”, “Nova Ordem Mundial” e “Sobre a China”, Henry Kissinger é um personagem fundamental para entender o método de formulação e de disseminação das mentiras inventadas pelos Estados Unidos acerca dos países subdesenvolvidos e, principalmente, dos que adotaram o comunismo. 

A guerra do Vietnã

A Guerra do Vietnã, um dos maiores símbolos do embate ideológico que marcou a Guerra Fria, é considerado o grande fracasso da política externa americana. 

O temor da interferência da China no Vietnã, “disseminando” a ideologia comunista, é o principal argumento utilizado até os dias de hoje para justificar a entrada dos Estados Unidos no conflito. Até o ano de 1965, os estadunidenses apoiaram o governo ditatorial do Vietnã do Sul, principalmente com o fornecimento de armamento e treinamento militar. A chegada de Lyndon Johnson à presidência dos Estados Unidos mudou a postura do país no Vietnã, algo acompanhado de perto por Kissinger. 

Embora esse ainda não participasse oficialmente do aparato governamental, Henry Kissinger fornecia informações privilegiadas aos estadunidenses por meio de seus contatos na França, num clássico jogo de poder e influência. Kissinger estava ciente, desde o início, das estratégias e do uso de armas químicas contra civis que chocaram os telespectadores ao redor do mundo, mas utilizou-se dessas informações para barganhar posições de poder e para aumentar a influência dos Estados Unidos no cenário internacional.    

Após a enorme pressão popular para o fim da participação dos estadunidenses na guerra, Kissinger e um dos líderes norte-vietnamitas, Le Duc Tho, elaboraram um acordo de paz que retiraria oficialmente as tropas dos Estados Unidos da região. Conhecido como Acordo de Paz de Paris, o documento estabeleceu um cessar fogo completo no dia 27 de fevereiro de 1973 e enfraqueceu as forças do sul, facilitando a unificação do Vietnã do Sul ao Vietnã do Norte a partir de 1976. 

Kissinger recebeu o prêmio Nobel da Paz, em 1973, em conjunto com Le Duc Tho. A justificativa para a escolha do comitê foi a de que ambos tinham sido fundamentais para o cessar-fogo total no Vietnã. Tho, entretanto, recusou a premiação.  A escolha do ex-secretário foi muito contestada, acarretando na renúncia de dois membros do Comitê do Prêmio Nobel, além de fortes críticas na mídia estadunidense. 

“O que estava em jogo aqui era a posição futura dos Estados Unidos no mundo. Clifford me perguntou se eu achava que valia a pena salvar os vietnamitas. Eu disse que a questão já não era mais essa…”

Kissinger para a sua biografia, escrita por Niall Ferguson.

O governo do Vietnã reconheceu oficialmente em 2002 a responsabilidade do diplomata estadunidense por manter a estratégia de massacre contra os vietnamitas do norte. Embora muitos protestos tenham sido realizados ao redor do mundo pedindo a investigação da conduta de Kissinger, esse nunca foi formalmente acusado por crimes de guerra no Vietnã e no Camboja.

O Camboja

A presença dos comunistas no Camboja também não agradou Kissinger e os burocratas estadunidenses. Embora bombardeios contra a população civil – que, cabe ressaltar, era majoritariamente rural – ocorressem desde o início das tensões (1969), a chegada de Nixon à presidência e a recusa do governo do Camboja a assinar o Acordo de Paz de Paris junto ao Vietnã demonstrou quão avassaladora era a política externa comandada por Kissinger.

Ironicamente, Kissinger recebeu o Nobel da Paz em 1973 pelo documento envolvendo o fim da guerra no país vietnamita. No mesmo ano, entre janeiro e agosto, os Estados Unidos comandaram uma série de bombardeios que massacraram a população do Camboja, com o lançamento de, aproximadamente, 250 mil toneladas de bombas em direção aos civis. Tais ações nunca foram nem mesmo questionadas em fóruns internacionais.

Operação Condor

O diplomata também interferiu na América Latina, sendo o principal responsável pela elaboração do Plano (ou Operação) Condor. Esse plano consistiu na aliança entre as ditaduras latino-americanas na década de 1970, que incluía a Argentina, a Bolívia, o Brasil, o Chile, o Paraguai e o Uruguai, com o aval dos Estados Unidos, para vigiar, sequestrar, torturar e assassinar membros da oposição em seus respectivos países. A participação ativa dos estadunidenses foi comprovada anos depois, por meio de documentos divulgados, em sua maioria, pela Comissão da Verdade, como o relatório “Summary of Argentine Law and Practice on Terrorism”, elaborado pelo Departamento de Estado dos EUA; o relatório da CIA a respeito de pessoas suspeitas nos países latino-americanos; o “South America: Southern Cone Security Practices, feito pelo  Departamento de Estado dos EUA, que confirma a existência de um sistema para o monitoramento de pessoas; e o “Counter Subversion”, emitido pela embaixada estadunidense em Buenos Aires, que confirma a cooperação entre a Argentina e o Brasil contra a oposição. 


Cabe ressaltar que Kissinger era amigo próximo de Augusto Pinochet, ditador chileno. A sua admiração e fidelidade à Pinochet e, por consequência, ao modus operandi do mesmo, o garantiu momentos constrangedores, como quando recebeu uma intimação de um juiz francês, em 2001, pedindo informações a respeito do sumiço de cinco cidadãos franceses no Chile. Kissinger deixou a França no dia seguinte, sem prestar os esclarecimentos solicitados.

Na foto, Henry Kissinger, Augusto Pinochet e Azeredo da Silveira na embaixada brasileira em Santiago, Chile.

Kissinger e a imprensa

Como um clássico burocrata que não gosta de ser questionado acerca de seus crimes ou acerca de suas atitudes duvidosas, Henry Kissinger travou uma enorme batalha contra o jornalista britânico Christopher Hitchens. Autor do livro “O julgamento de Kissinger”, Hitchens foi a principal voz no que concerna à investigação das condutas do diplomata estadunidense que, de acordo com a investigação feita pelo jornalista com base na jurisprudência internacional, poderiam ser considerados crimes de guerra ou até mesmo crimes contra a humanidade. 

Com a intenção de barrar as informações divulgadas por Hitchens, Kissinger exige, até os dias de hoje, uma declaração formal e assinada de qualquer seus entrevistadores não farão quaisquer perguntas relacionadas ao livro ou assuntos nele tratados. A tentativa desesperada de evitar assuntos espinhosos também afeta as viagens do diplomata, já que ele, além de ser considerado um inimigo de certos países, também evita alguns outros para não correr o risco de ser questionado pela imprensa ou juridicamente. 

Feliz aniversário, Henry Kissinger!

As felicitações pelos noventa e nove anos de Kissinger se limita à análise da quantidade de sangue que esse carrega em suas mãos. Chamado de “o maior diplomata” de todos os tempos – o que é uma verdadeira ofensa para a história da diplomacia mundial -, o aniversariante, na verdade, não se passa de mais uma pessoa que usufruiu dos poderes que lhe foram dados para abusar dos mais vulneráveis e fortalecer os próprios interesses. Exercendo sua influência até o governo de Ronald Reagan, em 1988, e posteriormente trabalhando no setor privado por meio da “Kissinger Associates”, o diplomata é considerado um dos nomes mais importantes na formulação de política externa dos Estados Unidos, sugerindo uma aproximação dos estadunidenses da China e da Rússia, além de ser atuante no lobby israelense.

Na data de hoje, cabe lamentar a mancha na formulação do pensamento diplomático que a humanidade ainda terá que carregar por muitos anos por conta de Kissinger. Ao redor do mundo, estudantes de relações internacionais são orientados a enxergarem os feitos do diplomata com um modelo a ser seguido, um exemplo de sucesso para as relações internacionais.

A única lição que pode ser aprendida com ele é a de que um homem com poder e privilégios pode ser quem quiser e fazer o que bem quiser sem nenhum tipo de punição. Até então, nenhuma novidade. Kissinger não conseguiu ser original nem mesmo em seu modus operandi. Na famosa teoria dos jogos das relações internacionais, ele representa o jogo de soma negativa, onde todos perdem com a sua participação.

Nesta data, fica aqui a admiração e as congratulações aos grandes diplomatas da história diplomática, dos quais Kissinger não chega nem aos pés, nem na competência, nem na sensibilidade.


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