Poderíamos chamar esse texto de um artigo feito por uma mente com vivência acadêmica, mas não só. Essa narrativa passa por caminhos muito mais práticos do que subjetivos. Se é que a prática está assim tão longe da subjetividade, imaginando serem as nossas subjetividades que sustentam boa parte das nossas vivências.

Mas que ofensa é essa? Em meio a tantas dificuldades enfrentadas socialmente pelos homens, especialmente os da classe trabalhadora, a colunista querer dar a cartada de que pais tem privilégios, sendo que sabemos o quanto a maioria de nós, pessoas não-ricas, sofremos atualmente para simplesmente sobreviver. Pois bem, está dado, pais tem privilégios. Existe uma pesada e invisível força que rodeia apenas a nós, mulheres-mães: carga mental. E, não, homens, não estamos falando só sobre pensar em dinheiro (o que vocês sempre fazem questão de pontuar ser a maior dor de vocês). O ato do Cuidar é uma herança ancestral que causa ansiedade especialmente em nós que ocupamos a posição da Mãe. Quem lembra da tranquilidade do Scooby no reality BBB22? Memes, elogios e zoeira para o surfista durante o programa, sua tranquilidade sempre apreciada. Com a carga suprema nas costas, corpo e mente da então socialmente taxada como louca, estressada e pirada, Luana Piovani, como não estaria esse homem sempre nas nuvens? Sim, o patriarcado, junto com o sistema capitalista, não absolve inteiramente a pressão sobre os homens, mas é inegável o quanto o sujeito homem cis hétero tem sua passabilidade estrondosa de carta-branca para ser medíocre e tão elogiado por isso. A propósito o termo “Carta Branca” é curioso em como se revela na sua própria nomenclatura, seu significado consiste em “Permissão; plenos poderes. Permitir a alguém que proceda como quiser.”, poderíamos embarcar nas impressões sobre o privilégio branco que o próprio termo carrega.

Mas o que eu estou querendo dizer é que pais, vocês podem errar. Nós? Quase nunca e se o fato ocorre a corte de julgamento já nos está mais que posta. A mulher, especialmente quando em posição de maternidade, está sempre sendo orientada pelo olhar do julgamento e avaliação social, inclusive, muitas vezes, na própria rede familiar, nem das próprias mulheres o escapa, pois essas reproduzem as falas de uma geração que teve os cuidados muito mal elaborados, como relembra Bell Hooks em Feminismo Para Todos, Antes que as mulheres pudessem mudar o patriarcado, tivemos que mudar a nós mesmas; tivemos que criar nossa consciência. A conscientização feminista revolucionária enfatizou a importância de aprender sobre o patriarcado como um sistema de dominação que é perpetuado e mantido.”

Ainda percorrendo os pensamentos de Bell Hooks quando afirma que ser oprimido é ter a ausência de escolhas, a Mãe está socialmente situada nesse lugar de serviço do Cuidar. Inclusive endeusada nessa posição de “ninguém vai fazer melhor que você”. Tal afirmação não é um elogio, mas sim um fardo. A escritora que vos fala sabe que muitos dELES estão, eu sei, tentando. Mas enquanto você homem-cis-hétero-pai acreditar haver funções que são por excelência da Mãe, eu sinto dizer: você continua sendo um pai medíocre que se aproveita e dorme agarradinho com os privilégios do sistema que favorece o Ser Homem e Ser Pai em sociedade. Você que é mulher, mas reproduz a responsabilidade de ter orgulho de fazer trabalho não remunerado por amor e inclusive dá esporro em outras mulheres por não seguirem tal cartilha, essa mensagem também é para vocês, desabrace-se das correntes que lhe prende. Não algeme outra prisioneira.

Por fim, chamo para a conversa minha colega de narrativas (lembrei de uma situação com meu filho em que ele viu a Kate Perry na televisão e falou “é sua amiga mãe?”, e eu sem pestanejar soltei que “sim”, eu ia perder essa oportunidade?). Mas, voltando, a grande Virginia Woolf questiona: “O que é uma mulher? Eu lhes asseguro, eu não sei. Não acredito que vocês saibam. Não acredito que alguém possa saber até que ela tenha se expressado em todas as artes e profissões abertas à habilidade humana.” Diferente do que reflete a autora, eu diria que podemos identificar muito bem o que é a Mãe pelas normas e lentes sociais: o ser mais preocupado em meio a sala. Esse é um convite para o abandono da culpa materna: o que poderia ser uma Mãe? Se nos cuidássemos com a facilidade que cuidamos de Outro. O auto acolhimento pode ser caminho muito mais provável de felicidade e adivinhem? Um melhor maternar. Por um olhar para Mães em todo lugar, inclusive em Bar.

A discussão recente nas redes sociais nos mostrou que existe uma barreira social persistindo em sociedade para todo mundo fingir que as necessidades da Mulher-Mãe não existem. Essa mulher deseja criar, respirar, dançar, descansar, aprender, desejar, viajar, gozar, viver. Por que insistem em nos colocar na caixa do Cuidar? Não é necessário matar o Desejo para sermos boas mães. Enquanto estivermos reféns da culpa e da ausência de possibilidade e apoio, o caminho será mais difícil. É preciso Matar a Mãe Ideal para que a verdadeira essência da Mulher-Mãe-Infinitas coisas que se deseje, renasça.