Luto no campo dos direitos humanos no Brasil

Em menos de uma semana, o Brasil perdeu duas de suas maiores referências no campo dos direitos humanos. A triste partida do embaixador Lindgren Alves e a do professor Cançado Trindade nos faz refletir acerca de suas grandes contribuições para a comunidade internacional e, principalmente, para o Brasil. 

Na foto à esquerda, Cançado Trindade. Na foto à direita, Lindgren Alves. Fonte: diplomata Bruna Veríssimo.

O professor Cançado Trindade, juiz brasileiro na Corte Internacional de Justiça (CIJ) desde 2009, foi, sem dúvidas, um dos maiores humanistas do nosso tempo. Contribuindo para a formação do pensamento acadêmico e diplomático contemporâneo, Trindade dedicou anos de sua vida ao Itamaraty, ao Instituto Rio Branco e ao estudo do direito internacional, principalmente no que se concerne aos direitos humanos. O jurista também chegou a presidir a Corte Interamericana de Direitos Humanos, sediada em San José, na Costa Rica.

Em nota, o Ministério das Relações Exteriores ressaltou que “Consultor Jurídico do Itamaraty de 1985 a 1990 e Professor do Instituto Rio Branco entre 1979 e 2009, Cançado Trindade inspirou gerações de diplomatas na defesa do direito internacional”. “Ao longo de sua carreira, o Professor Cançado Trindade prestou inestimável colaboração ao Itamaraty, ao Brasil e ao direito internacional. Em sua trajetória, permaneceu fiel a seus ideais e, com determinação incansável, deixou como legado uma maior humanização do direito internacional”.  Algumas obras do professor estão disponíveis na biblioteca da FUNAG, como no caso do livro Os tribunais internacionais contemporâneos, que está de graça e serve como uma introdução ao direito internacional público. A sua morte precoce gerou grande repercussão no meio jurídico e diplomático, principalmente por conta de suas contribuições à comunidade como um todo. 

O embaixador José Augusto Lindgren Alves, por sua vez, fez carreira dentro do Itamaraty e mudou a forma como o Ministério dialoga com os direitos humanos no cenário internacional. Com mais de 30 anos dedicado ao tema, Lindgren tornou-se referência no que concerna à análise dos direitos do homem e mudança da abordagem no tema em grandes conferência, como descrito por ele mesmo em seu livro A Década das Conferências

Tendo sido conselheiro da Missão do Brasil junto às Nações Unidas em Nova Iorque, delegado nas reuniões do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas em Genebra, chefe da Divisão das Nações Unidas e, posteriormente, o primeiro Diretor Geral do Departamento de Direitos Humanos e Assuntos Sociais do Ministério das Relações Exteriores, o embaixador foi, sem dúvidas, uma das maiores autoridades no tema dos direitos humanos na história da diplomacia brasileira. Lindgren também atuou no Comitê para a Eliminação da Discriminação Racial (CERD), em Genebra. 

Na academia, o embaixador foi professor em cursos relacionados aos direitos humanos nas universidades de Berkeley, Stanford, Georgetown, Aristotelis e em diversas outras instituições ao redor do mundo. Publicou diversas obras, como a previamente mencionada “A Década das Conferências”, além de “Os Direitos Humanos como Tema Global”, “Os Direitos Humanos na Pós-modernidade” e, um dos livros que mudou a minha vida, “Precisamos salvar os direitos humanos!”. Cabe destacar que, em 2013, o embaixador recebeu a Medalha Sergio Vieira de Mello, de Direitos Humanos e Direitos Humanitário, como forma de reconhecimento por seu trabalho na área – um motivo de muito orgulho para todos nós. 

A morte do embaixador Lindgren Alves acaba sendo muito pessoal para mim. Em 2020, quando iniciei os estudos para ingressar na carreira diplomática, tive a imensa honra e oportunidade de ouvir, do próprio embaixador, reflexões sobre a carreira e perspectivas para o futuro no campo dos direitos humanos. Eu nunca esquecerei daqueles momentos e de todos os ensinamentos que me foram passados – e não só para mim, mas para dezenas de aspirantes à diplomacia que também acompanharam o evento. Tive a honra de ter uma pergunta respondida pelo embaixador e, naquele momento, tive a certeza de que a diplomacia e os direitos humanos são complementares e devem caminhar juntos. Deixo aqui o meu agradecimento ao diplomata Marcílio Falcão e ao grupo Ubique, que proporcionaram esse momento que ficará na minha memória para sempre.   

A comunidade das relações internacionais está de luto nesta triste semana que se inicia. O Brasil perde dois gigantes no campo diplomático e no direito internacional. Cabe a nós, apreciadores de suas obras e de seus ensinamentos, seguirmos com a enorme responsabilidade de defender os direitos humanos e levarmos o legado dos dois adiante. 

À família de Cançado Trindade e à família de Lindgren Alves, toda a nossa solidariedade e carinho. As contribuições desses para a sociedade jamais serão esquecidas. 



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