A Descoberta de Deus


Um conto sobre Deus, a guerra e a linguagem.


O avô lutara na guerra, na Grande Guerra. Era francês, alto, de ombros larguíssimos, bigodudo – bigode cor preto-petróleo, bigode tão profundamente preto quanto os poços-túneis-do-tempo do Oriente Médio. Era cristão praticante. Rezava feito ninguém, pois rezava enquanto rezava. E, em maio de 1917, o mandaram à guerra dos imperadores desesperados por mais súditos, dos proprietários industriais desejosos de mais fumaça.

“Ame o próximo como a você mesmo”, em silêncio sagrado repetia o avô de trincheira a trincheira. Sob o uniforme amassado do Exército nacional da França, escondia a cruz de Cristo, como um pai cuidadoso a proteger o filhotinho inocente da barbárie dos adultos. O filho que, contudo, era Ele próprio Pai da humanidade, Redentor da humanidade, Criador da humanidade.

De trincheira a trincheira, sereno o avô aspirava a morte; serenidade escorria pelo rosto tal qual suor: fria, salgada, desconfortavelmente palpável para os que o cruzavam no caminho mortífero. Entre um estouro assombroso e outro, apertava a cruz de Cristo contra o peito – preocupação descabida de resguardar Cristo por supor ser mais resistente ao terror do que o fundador do amor.

O avô via homens matando homens, homens odiando homens apenas como odiavam a si mesmos. Via, no mundo humano condenado, uma porta entreaberta, a qual insinuava uma luz fraca de redenção. Uma abertura tão pequena, tão distante. Talvez inalcançável, talvez intransponível, talvez inexistente para os microscópios precisos dos biólogos, entretanto visível aos precários olhos dele. Somente o avô a via? Supunha compartilhar a intuição dos padres e dos santos.

Estouros estouravam ao redor. À direita, homens decepados preenchidos pela grama; à esquerda, um cavalo branco caía lento na lama banhada por sangue. Assim, igual a um artista impassível e obcecado, a guerra esculpia e pintava corpos. Os ouvidos zuniam… a cruz de Cristo era esmagada pelas mãos à época jovens do avô. Esmagar era amar. A cabeça de Cristo pendia sangrenta, coroada. O rosto insondável – era amor por tudo o que é, inclusive a destruição, inclusive a guerra? Era terror pelas outras possibilidades de realidade explodidas? Pensava em Cristo desesperado. Era possível pensar em Cristo desesperado? Pensava. E se ninguém Me entendeu, se a mensagem do Pai for uma fechadura em vez de uma chave? E se falhei?

O avô compreendia, ao menos pensava compreender. O rosto de Cristo era o rosto de Deus descobrindo pela primeira vez a incomunicabilidade de Deus. A dor dilacerante de Cristo, a despeito da disposição corporal sustentada pelos pregos dos carrascos, era a dor de se descobrir divino e incomunicável. Acreditava-se onipotente e onisciente e onipresente. Aí, de súbito, algo O limitava no cosmos. Como? Por que? Fiz-Me carne para Me comunicar com o que é carne. Fiz-Me filho de Mim para Me compreenderem, sobretudo para se compreenderem irmãos. No começo, era o verbo. Na cruz, junto de Cristo, morre a potência do verbo. Resta, então, a impossibilidade persistente da palavra humana.

O avô sentia, talvez compreendesse Deus sem compreendê-lo pelo intelecto. Perdoava o absurdo de um Deus limitado. Além de perdoar, O aceitava e O amava. De trincheira a trincheira, rezava, rezava e rezava. Encerrava as mãos protetoras em Cristo. Apertava Deus tão forte quanto apertou, pouco antes de morrer, o único filho. Do pai, o menino herdou os ombros larguíssimos e o bigode cor preto-petróleo. Da mãe, uma alemã morena e freudiana, o ateísmo.


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