Absurdo e vão

Aviso aos leitores adolescentes: o texto a seguir contém linguagem e conteúdos que te colocariam em apuros caso sua mãe te pegasse lendo, recomendamos o bom senso.

Escrevi este texto depois de ver uma tirinha do Andrício de Souza em que ele conta como ganhou confiança para desenhar. O Andrício é um gênio. Digo isso porque o conheço, estudamos na mesma escola e fomos do mesmo grupo de amigos por um bom tempo. Nunca achei que ele fosse precisar de algo assim para saber que é bom, e ele é bom pra caralho. Obrigado pela inspiração, Andrício.


Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, mas aqui estou eu escrevendo um texto sem ter assunto pra escrever o que quer que seja. E olha que dessa vez eu mesmo me dei duas opções com as quais trabalhar. Lição de casa. É de foder. A primeira era escrever sobre qualquer objeto que me lembrasse uma pessoa amada. Pensei em escrever sobre a corrente de prata que pertenceu ao meu pai e que agora carrego no pescoço, mas abandonei a ideia quando percebi que todas as lembranças que tenho do meu pai nada têm a ver com essa corrente. A segunda era escrever sobre uma pessoa com quem vivi uma situação inusitada; pensei em algumas histórias, mas abandonei a ideia quando percebi que não poderia escrever nada sem comprometer a moral de grandes amigos ou, pior, a minha própria. Pensei ainda em escrever sobre o real motivo de cachorro ser melhor que halloween, mas abandonei a ideia quando conclui o raciocínio em três linhas: cachorro é melhor que halloween porque halloween é coisa de idiota, e porque cachorro é melhor que quase tudo, e quem não gosta de cachorro é tão idiota quanto quem gosta de halloween. No final das contas estou escrevendo mais um texto sobre escrever textos. É de foder.

Quando comecei a escrever, buscava inspiração em grandes nomes da literatura mundial, mas eu não mostrava meus textos pra ninguém. Nem pros meus amigos mais próximos, que quando não diziam que o que eu escrevia era uma merda, simplesmente não me diziam nada. Foi só depois de ter uma quantidade razoável de textos que resolvi mostrá-los a duas pessoas cujas opiniões sempre me interessaram: minha mãe, que é aposentada, e minha esposa, que é professora. Assim eu poderia receber críticas totalmente imparciais sobre o meu trabalho. Porra, eu gosto do que eu escrevo, mas isso não quer dizer muita coisa.

Esperei com ansiedade pelas críticas da minha mãe e da minha esposa. Então, a primeira
disse:

— Está ótimo, meu filho! Você escreve muito bem, mas poderia usar menos palavrões,
né?

E a segunda disse:

— Está ótimo, meu amor! Você escreve muito bem, mas poderia pegar mais leve em algumas piadas que podem ser ofensivas.

Sou bastante inseguro. Qualquer palavra mal escolhida, qualquer incerteza, qualquer reticência e eu não escreveria mais uma linha sequer. Pro resto da merda da minha vida!

Meu medo era que minha mãe tivesse dito algo como:

— Mas o que é isto que eu estou lendo? Seu pai e eu te mandamos à escola pra quê?

Ou que minha esposa tivesse dito algo como:

— Mas que merda é essa, querido? Você não é mais o homem com quem eu me casei!

Mas elas não disseram isso, o que também acabou sendo um problema porque eu ganhei confiança e, no final das contas, vocês tiveram que aturar mais um texto sobre escrever textos. E eu tive que aturar esse ofício absurdo e vão de dizer coisas e mais coisas.

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