Carros elétricos e autônomos são mesmo uma alternativa sustentável?

POR THIAGO NETO

O debate de sustentabilidade nunca esteve tanto em evidência como hoje, seja no setor privado ou poder público. No entanto, o termo sustentabilidade acaba, na maioria das vezes, limitando-se tanto na ideia quanto na prática, ao aspecto “verde” ou à questão ambiental. A sustentabilidade voltada para a preservação ambiental é um dos pilares essenciais na busca de uma sociedade sustentável. Porém, o desenvolvimento sustentável deve ser compreendido como uma interação interdependente entre o social, o econômico e o ambiental.

Quanto à sustentabilidade urbana, o sistema de transporte é um aspecto fundamental para o desenvolvimento sustentável das cidades. Porém, o número de automóveis, apesar de já ter sofrido uma desaceleração em algumas partes do mundo, é um número ainda expressivo e que vem aumentando. Os automóveis são um dos principais responsáveis por emissões de gases causadores de mudanças climáticas, e como solução para esse problema, os carros elétricos e carros autônomos são considerados como a panaceia para as cidades.

Emissões anuais de CO2 em todo o mundo de 1940 a 2020. Fonte: Statista.

É muito comum nos deparar com discursos oriundos dos zelotes do Vale do Silício e da indústria automobilística de que os carros elétricos e autônomos diminuirão a dependência de combustíveis fósseis, a emissão de gases de efeito estufa e que os engarrafamentos das cidades serão coisas do passado. O problema é que a solução proposta pelos mandatários da economia verde apresenta o avanço tecnológico por si só como a resposta para os problemas do mundo.

No entanto, esse “discurso verde” em relação aos carros, segundo Olívia Bina, “é muito mais um discurso para serviços financeiros ecológicos e manutenção da estrutura lógica de mercado, que no caso busca manter o automóvel como centro do sistema de transporte urbano”. Desse modo, o estímulo ao automóvel, seja elétrico, autônomo, ou até um sistema de compartilhamento de automóveis, têm feito parte da acomodação dos automóveis nas cidades e não interrompendo ou invertendo uma tendência nociva: a “dependência do automóvel”, afirma o especialista em mobilidade urbana Jeffrey Kenworthy.

O problema número um dos carros elétricos

Há uma gama de problemas relacionados aos carros elétricos e autônomos que precisam ser considerados. A alocação de recursos para modo de transporte individualista, o que configura um aporte maior de recursos para mover poucas pessoas em detrimento do transporte coletivo. Por exemplo, carros autônomos podem não acabar com o problema do congestionamento do tráfego, especialmente nas grandes cidades, além de atualmente o progresso na área estar sendo direcionado à caminhões; existe uma série de problemas ambientais e sociais na extração de matéria prima para as baterias do Elon Musk e o destino das baterias de lítio após o uso precisa ser cuidadoso para não causar problemas ambientais.

De fato, os carros elétricos são ecologicamente corretos quando comparados aos carros movidos por combustíveis fósseis, porém, embora não sejam geradores de poluição direta, precisarão de uma fonte de geração de eletricidade para recarregar, e muitas vezes essa fonte ainda será por meio da queima de carvão ou petróleo.

A intensão aqui não é a rejeição dos carros elétricos, pois apesar dos problemas ligados à eles, ainda terão um papel importante no futuro. Entretanto, devemos buscar caminhos mais sustentáveis e efetivos. Por exemplo, o sistema de transporte urbano deveria priorizar o transporte ativo (caminhada e bicicleta) e sistemas de transporte público pela sua alta capacidade de movimentar pessoas. É comum o surgimento de debates sobre políticas ambientais e ideias visionárias de especialistas em mobilidade urbana, mas pouco ouvimos sobre a ampliação da acessibilidade urbana relativa à capacidade do acesso das pessoas aos seus destinos devido à proximidade com o sistema de transporte e distanciamento de locais urbanos.

Existem soluções que não passam pelo emprego de alta tecnologia, mas sim pela política e planejamento urbano, como a reflexão sobre o sistema de transporte e ocupação do solo de modo conjunto, o aumento estratégico na densidade e usos mistos do solo como objetivo de trazer para as pessoas mais próximas de suas atividades diárias.

O investimento maciço em veículos elétricos pode ser gasto em outras soluções com impacto significativamente maior, como a produção de transporte de massa e mudanças nas práticas de construção para aumentar a densidade, permitindo opções de ‘caminhabilidade’ (deslocamento a pé) e ‘micromobilidade’ (transporte em curtas distâncias).

Um exemplo de ‘Caminhabilidade’. Reprodução

Os carros elétricos não vão nos salvar sozinhos. Embora sejam frequentemente apontados por grandes campanhas de marketing verde e campanhas governamentais como a solução para nossos desafios climáticos, a verdade é que temos que ajustar nosso modelo de transporte inteiramente e nos afastar de uma abordagem centrada no carro para alcançar melhores resultados de saúde, combater o aquecimento global e evitar envenenar nossos rios e florestas.

Portanto, os carros elétricos e autônomos são iniciativas positivas para a sustentabilidade urbana, mas não devem ser a prioridade sob todas as soluções existentes para as cidades. Discursos e políticas que priorizam os automóveis fazem parte de uma tendência de acomodação de interesses do complexo automobilístico e indústrias correlatas. Para que tenhamos uma mudança de paradigma que nos leve ao desenvolvimento social, econômico e ambiental sustentável, devemos rejeitar estratégias reducionistas e pautadas por interesses corporativos, e sim priorizar políticas urbanas de transporte coletivo e uso e ocupação do solo.

Não podemos continuar presos a um sistema baseado em carros – isso não é pensar grande o suficiente.

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