Andrei Karlov (não é um poema histórico)


Sete vezes, foram sete às vezes em que furaram o peito do boneco de papel. Sete furos exatos, simétricos demais, qual é o raio de bala do revólver?


Para Ulrike Meinhof

I

Sete vezes, foram sete às vezes em que furaram o peito do boneco de papel. Sete furos exatos, simétricos demais, qual é o raio de bala do revólver? Não é redondo assim, não fura com calma assim como foram então nestas sete vezes em que cutucaram com força o tronco deste homem. Isso me lembra de quando vi um gato morto quando criança e o confundi com uma pelúcia e eu sei que as às vezes desenhos são só desenhos que se derretem, mas aqui a ordem das coisas foi mudada, aqui algo aconteceu, mas não, se é exatamente este algo que falam que aconteceu como pode alguém morrer assim, sem se esconder, sem se dramatizar? Como que passa a gravação de um assassinato, sem nenhum filtro, como pode estes sete tiros não serem ficção?

II

Destas vezes fizeram-se manchas que calculadamente iam do vermelho-bordô típico do sangue e se diluíam misturando-se no branco da camiseta social formando uma extensa paleta de cores até este vermelho-leite, que parece com o vermelho do dia em que pedi pra que meu colega me desse um soco no primário para roubar da fada dos dentes alguns trocados. na película dessa câmera fazia-se uma animação em meio a realidade, uma pintura impressionista que se movia enquanto aquele homem contorcia os braços no ângulo exato que pressionava os vasos sanguíneos a soltarem mais e a pintura se formava majestosamente entre a câmera do jornal, como se Walt Disney e Irmãos Lumiere fossem membros do quartel-general de operações do Daesh junto com Taulouse Lautrec.

III

A feição do Rosto oito vezes abatido e surpreso, surpreso como um vilão em final de novela mexicana com olhos engordurados e tão cansados como se o segundo daquelas sete apunhaladas o tivesse dado anos incontáveis e criasse olheiras profundas que me lembram uma foto de homens do exército vermelho em fotos da segunda guerra em que aqueles olhos sempre olhavam para baixo carregando o peso da violência deste tal espírito absoluto. e tudo isso em apenas um segundo, como se fosse uma performance de Daniel Day-Lewis em algum de seus filmes do Oscar e se curvou como quem fosse dar um espirro, como se o Diabo tivesse senso de humor (talvez realmente o tenha). estava caído como naquela cena de clássico d’O Poderoso Chefão.

IV

E mesmo que a headline dissesse tudo, mesmo com a chamada do jornal nacional e a face de luto de uma criança em um funeral sem entender tudo e está segurando o riso para não apanhar da mãe, no rosto de William Bonner, sabíamos, eu e eles, que empiricamente não dava, não dava para saber se havia morrido mesmo Andrei ou se havia fingido tão bem a própria morte que, decorrente disso, havia também morrido, por detrás das câmeras, que onde todo mundo tem o verdadeiro direito de morrer.

V

Pois, sangrava e sentia dor, mas não como um homem, não como se sente dor depois de um soco, nunca é a expressão máscula dos filmes que passavam nas tardes de férias, mas sim coisas arcaicas mais nossas, e aquela dor não era como qualquer outra dor, casava nessa linha entre algo tão cru que não tinha coragem de apontar e falá-lo. eis então o simulacro ou eis então o fingimento. ao contrário era algo análogo, mas não exatamente certo, sabe quando você olha demais pro sangue que você mesmo deu e você não vê ele mais como o seu? Sangrava, mas não sei se doía assim, aquelas sete vezes antes de cambalear e cair, antes de sair do campo da câmera, último baluarte de sua existência.

VI

“Inocentes morreram em Aleppo” foi a fala do homem, do homem com a arma que era tão escura que me parecia de brinquedo, estava enraivecido com essas raivas que vemos na vida em que realmente se mata, mas não daquelas onde a fúria realmente trespassa o valor da individualidade humana, sabe, eu sempre duvido que alguém puxe o gatilho. quando eu tinha dez anos eu vi um motoqueiro botar um revólver na cabeça de um motorista na faixa de pedestre e eu corri porque mamãe mandou que eu corresse, mas eu ria. Ria porque no fim o episódio acabaria, e fiquei com vergonha de ter uma agitação de nervoso que causaria quase um riso daqueles bem de escape, bem de alívio de tensão, porque só parecia tão descolado como as imagens daquelas mesmas crianças em Aleppo que o homem tanto falava e eu vi em imagens tempos mais tarde e também não me parecia um horror que eu imaginaria horroroso, não me parecia como nos filmes, logo, eu não consegui dormir, pois eu não conseguia me enojar.

VII

E eu não me esqueço daquele verão de dezembro em que nós aguardávamos com os meninos dos bairros enquanto matávamos árabes nos jogos de videogame mais notícias sobre o nosso novo Francisco Ferdinando e usávamos o mapa do War para deslocar tropas e apostar no meu quintal quem seria quem dessa vez, como seria a tríplice aliança e qual seria a nova Armênia, eu me pegava rindo sozinho enquanto fazia limonada pensando que Angela Merkel não tinha cara de quem estaria disposto a invadir a Polônia e me perguntava, como sempre ao ver o jornal, quem é que ia trair quem. E foi muito bom, eu não me esqueço dessas nossas brincadeiras de homenzinhos que moram num país que não vê uma guerra fazia uns bons setenta anos, mas não me esqueço mesmo é das sete vezes em que vi aquele vídeo naquela semana tão pacata de apartamento, eu era moleque e não sabia, não sabia que tem gente que vai, que vê, a guerra todo dia e não conseguia, não mesmo, por mais que eu me esforçasse, para honrar a minha mãe, não conseguia não pensar no pobre Andrei e talvez nessa farsa que todo mundo viu, e todo mundo esqueceu, menos eu, logo eu, que duvidei desde a primeira vez que apertei play. Será que já sou tão ocidental que já nem vejo mais onde que acaba a realidade da experiência humana?


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