Quatro anos

Aviso aos leitores adolescentes: o texto a seguir contém linguagem e conteúdos que te colocariam em apuros caso sua mãe te pegasse lendo, recomendamos o bom senso.

Nesta semana completam-se quatro anos que meu pai morreu. Falei dele muito brevemente aqui, e, agora, aproveito o espaço para me estender um pouco mais.

* * *

Meu pai nasceu num mês de abril e morreu num mês de junho. Penso nele sempre que faço a barba. Se for pra responder assim, agora, vou dizer que meu pai foi o melhor pai do mundo. Mas isso é uma mentira, ainda mais se você conheceu meu pai. Ele foi o melhor pai que ele podia ser e ponto final. De um jeito meio bruto ele me deu amor, carinho e bons exemplos, e me mostrou que a paciência pode ser inversamente proporcional ao afeto, e que longos períodos de silêncio podem ser bastante eloquentes. Ao contrário do aconteceu com muitos dos meus amigos homens, porém, eu sempre abracei e beijei meu pai sem qualquer formalidade, só porque dava vontade. Dizer “eu te amo” nunca foi um problema. Mas a verdade é que meu pai era um cara complicado, e isso quer dizer muitas coisas.

Pra começar a entender qualquer uma delas, você teria que saber onde ele nasceu, em quais condições ele passou a infância e, principalmente, quem eram os meus avós. Seria bom também saber como ele conheceu minha mãe e o que ele tinha na cabeça pra trocar Buenos Aires — pronto, agora você já sabe onde ele nasceu — por São Paulo quase aos 40 anos e sem falar uma palavra de português. Quando perguntei, ele disse que foi por amor. Na hora eu disse que tinha acreditado, mas eu sabia que naquela época a situação econômica da Argentina já estava uma merda e que isso contribuiu bastante.

Seja como for, para você começar a entender como meu pai era um cara complicado e teria que fazer toooda essa contextualização, um lengalenga interminável que, sinceramente, não estou com a mínima vontade de fazer. Além do mais, não tenho tempo para contar toooda a biografia dele… Era só o que me faltava!

O que interessa aqui, agora, é que meu pai fazia a barba às quartas e aos domingos.

Apesar de ter uma barba grossa e cerrada, que crescia numa velocidade que a minha — fina e esparsa — jamais alcançou, ele dizia que duas vezes na semana eram mais que suficientes. “Si me raspo la puta cara todos los días me quedo con las botchetchas y el cuello cómo el orto”, explicava.

Porra, eu nunca entendi como uma pele tão sensível era capaz de ostentar uma barba tão agressiva. Era de foder.

Aos domingos, o ritual começava com o despertador tocando às 7h da madrugada. Com uma malícia rústica disfarçada de sabedoria ancestral, ele dizia que “domingo não é dia de acordar cedo”. Filho da puta. Era de matar. E minha mãe queria morrer, pra dizer o mínimo.

Ele pulava da cama, fazia o que tinha que fazer no banheiro e ia pra cozinha. Colocava uma chaleira com dois litros de água para ferver e começava a encher a cuia de erva. Quando a chaleira apitava, ele geralmente estava sentado à mesa, passando as páginas da Folha
indistintamente, só pra enganar a abstinência. O chimarrão, ou mate, é uma coisa muito séria na Argentina e acabou virando uma coisa muito séria lá em casa.

Quando a água dava pra mais um ou dois mates, ele enchia a chaleira outra vez, até a metade, e voltava com ela pro fogo. Água fervendo era a única coisa capaz de dilatar os poros e amolecer os pelos da barba do meu pai. Porra, meu parceiro, eu me queimo da cara até o último pelo do cu só de pensar em fazer a barba com água fervendo.

A essa altura o relógio já passava das 8h30 e eu estava enrolando na cama, desperto mas com preguiça de levantar. Mas era só ouvir a chaleira apitar que eu levantava correndo. Alcançava meu pai no corredor, de chaleira na mão. Então ele dizia:

— Buenos días.

Eu o puxava pelo braço até que ele ficasse com o rosto na mesma altura que o meu e lhe dava um beijo na bochecha ainda áspera. Então perguntava:

— Já tomou mate, pai?

— Uhum.

— Domingo que vem eu levanto mais cedo pra tomar mate com você.

— Muy bien.

Eu conto nos dedos de uma mão quantas vezes isso aconteceu, quantas vezes eu realmente levantei mais cedo pra tomar mate com o meu pai, e sinto vontade de morrer.

No banheiro, enquanto ele preparava tudo, eu me encostava na parede atrás dele. Acompanhava tudo pelo espelho, de camarote. Era como se eu tivesse passado a vida inteira naquela posição, com as costas chapadas nos azulejos brancos e os pés assim, um pouco mais pra frente, pra me dar uma base mais confortável. Ele despejava a água fervendo numa caneca laranja, de acrílico, e molhava o pincel para espalhar a espuma. Ele mergulhava a lâmina nessa mesma água e a deixava lá, esquentando, enquanto tirava, com a pontinha da toalha de mão, os excessos de espuma de dentro das orelhas e de cima do bigode. Pelo espelho ele sorria pra mim. E eu perguntava:

— Quantas vezes você já fez a barba, pai?

— Miles de veces… Você quer afeitarse también?

— Criança não faz a barba.

A conversa terminava por aí. Logo chegávamos naquele estado em que as palavras não eram necessárias. Tirando o som da lâmina dançando escaldante na cara do meu pai, tudo ao redor era silêncio. Eu me sentia bem daquele jeito, naquela espécie de solidão a dois, encostado naquela porcaria de parede gelada. Às vezes eu achava que devia dizer mais alguma coisa, qualquer coisa, mas a frivolidade de um diálogo infantil não combinava com o momento.

A coisa que eu me lembro com mais exatidão é do olhar do meu pai. Um olhar duplo. Ao mesmo tempo em que conduzia a lâmina, ele usava o espelho pra me olhar bem dentro dos olhos. Apesar de todo o sofrimento que o tinham transformado num homem de humor melancólico, eu percebia que naquele momento ele era feliz. Feliz por dividir aquele momento comigo, e com mais ninguém. Meu pai fazia a barba com a mesma habilidade que o filho da puta do Mercadão corta 500 fatias de mortadela por minuto, mas o que me fascinava era o olhar, alegre e triste ao mesmo tempo.

O Alberto Manguel, conterrâneo do meu pai, disse uma vez que a literatura é uma “prática que forma parte das atividades humanas”, e que por isso “é afetada pelos valores que essa sociedade propõe”. Eu concordo, e acho que o mesmo acontece com fazer a barba. Fazer (ou não!) a barba é uma prática que forma parte das atividades sociais de um homem, e por isso é afetada pelos valores que essa sociedade propõe através da figura do pai. Fazer a barba é uma atividade que tem seu próprio ritmo, que por vezes é triste, solitário e difícil. Mas é difícil no sentido meritório da dificuldade, porque é algo que demanda estratégias específicas para enfrentar — no meu caso, estratégias para aguentar a saudades e tentar engolir o choro, porque hoje eu entendo que tudo o que o meu pai queria me dizer e não conseguia, ele dizia em silêncio, fazendo a barba e me olhando pelo espelho.

Não sei dizer com que idade abandonei o hábito de acompanhar meu pai no banheiro aos domingos. Talvez tenha sido quando eu mesmo comecei a fazer a barba e percebi que a mágica não estava em passar a porcaria de uma lâmina na cara.

Ma, no te preocupes tanto
Todo va a estar más o menos bien.
Pa, necesito un poco de plata
Para que todo siga más o menos bien
.



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