Jackie e a impenetrabilidade do poder

Em Jackie (2016), o diretor chileno Pablo Larraín, intencionalmente ou não, faz um filme sobre o distanciamento da figura de Jacqueline Kennedy. Mesmo que aparente o objetivo do diretor de desconstrução da imagem da ex-primeira dama dos Estados Unidos, viúva do assassinato presidencial mais midiático da história; o luto dela, que deveria servir como artifício de emancipação de sua persona, na verdade, soa como um reforço da impenetrabilidade de seu drama.

O texto e a forma da qual Larraín filma Natalie Portman, tem o efeito de congelar Jackie e martirizar seu sofrimento, ao invés de gerar empatia e intimidade, elevando-lhe a esse símbolo solene. De primeira, um drama cinematográfico com pouco poder de identificação para o público pode parecer má ideia. Todavia, Jackie trabalha muito bem sendo esse estudo sobre a impenetrabilidade das esferas de poder sobre a vida pública norte-americana ser esse ambiente asséptico.

A austeridade e preciosismo estético da direção de Larraín trazem a política como esse ambiente de isolamento. A cena de posse de Lyndon Johnson poucas horas após o assassinato de Kennedy, com a primeira-dama ainda suja de sangue do seu próprio marido na sala — assim como na vida real —, é sintomática da indiferença do poder.

Jackie Kennedy, interpretada pela atriz israelense Natalie Portman. Reprodução: Fox Studios.

Os insights de roteiro, que citam a todo momento o conto de fadas Camelot, são também mais uma evidência de que nós não conseguimos compreender a dor de Jacqueline. Na realidade, no filme, nem a própria Jacqueline sente tal dor humanamente. Para ela, parece mais importante que ele tenha um cortejo fúnebre e enterro memorável, desejo do qual a mesma admite ser vaidade pessoal em certa altura do longa.

A realidade é que Jackie reflete a impenetrabilidade do poder, a própria primeira-dama, ainda que busque uma dissociação, reproduz o ambiente indiferente do mundo que rodeava seu marido, o mundo de mais um quadro na parede e um nome na lista.

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