A Radicalização da Democracia e a Livre Imprensa

Em 2021, os jornalistas Maria Ressa e Dmitry Muratov conquistaram o Prêmio Nobel da Paz. Ela é filipina, co-fundadora do site de notícias Rappler; Dmitry é russo, co-fundador do jornal independente Novaja Gazeta. Atuantes em países pouco democráticos, os premiados receberam elogios do comitê norueguês por defenderem a liberdade de expressão, bem como pelo combate ao autoritarismo. Segundo o ranking mundial de liberdade de imprensa elaborado pela ONG Repórteres Sem Fronteiras em 2022, as Filipinas e a Rússia ocupam, respectivamente, as posições 147 e 155 entre 180 países. O Brasil ocupa o 110º lugar. Assim o Prêmio Nobel justificou a premiação dos jornalistas:

“O jornalismo livre, independente e baseado em fatos serve para proteger contra abuso de poder, mentiras e propaganda de guerra (…) sem liberdade de expressão e de imprensa, será difícil promover com sucesso a fraternidade entre as nações, o desarmamento e uma ordem mundial melhor para ter sucesso em nosso tempo”.

Tal qual o comitê norueguês, é importante sustentar que a liberdade de imprensa é fundamental para o desenvolvimento saudável de uma democracia liberal. Nela, o governo precisa ser realizado em público. Logo, a transparência do poder é um pressuposto basilar. Em um sistema representativo, somente quando as ações e as razões dos poderosos são divulgadas publicamente serão possíveis a fiscalização e a crítica popular – exercícios de manutenção e de aprimoramento de um regime democrático.

Entretanto, como aponta o escritor búlgaro Elias Canetti na obra “Massa e Poder”, dois dos atributos centrais do poder são o saber e o segredo. O conhecimento se traduz em mais controle; o desconhecimento, em descontrole. O poderoso, então, pretende saber mais do que os subordinados, porque deseja manter a ordem hierárquica vigente. Em projetos autoritários, o segredo no exercício do poder é a regra. Nos regimes democráticos, a exceção – sobrevive nos serviços de inteligência com a justificativa de garantir a segurança nacional.

Na literatura, o ‘Grande Irmão’ de George Orwell simboliza a rejeição dos poderosos à privacidade dos indivíduos. Em cartazes imponentes, os habitantes da superpotência fictícia, Oceania, são alertados: o líder supremo observa a todos – em qualquer lugar, a qualquer tempo. Deseja monopolizar o sigilo, ver sem ser visto, saber sem ser descoberto, aniquilar sem ser aniquilado. No cerne do poder totalitário, reside o desejo pela onisciência, obtida apenas pela onipresença. No encontro dos dois atributos divinos, o poder tende à onipotência.

Portanto, posto que há uma tendência dos poderosos em direção ao segredo, cabe ao jornalismo lançar luz às informações escondidas por eles. Para tanto, é necessário que a mídia coloque o interesse público acima das ambições do capital, a fim de revelar o que é relevante à coletividade. A ética jornalística cidadã, pautada no respeito aos Direitos Humanos, orienta o jornalista a perseguir a diversidade qualitativa de fontes, a maior proximidade possível em relação aos fatos, a representação complexificada da realidade, assim como o bem comum.

O objetivo ideal de uma imprensa livre, independente e múltipla é a radicalização das democracias liberais: ou seja, a descentralização do poder e a consolidação da soberania popular. “Toda pergunta é uma intromissão”, constata Elias Canetti. Que o jornalismo se intrometa livremente entre os dentes do poder, arrancando um a um para a cidadania viver em segurança.   

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