Jibaro e os Yanomami: uma história que se repete há 500 anos.

Para aqueles que não acompanham assiduamente o catálogo da Netflix e perderam a nova temporada de Love Death + Robots, talvez não tenham escutado falar na obra do diretor espanhol Alberto Mielgo, Jibaro. O episódio tem pouco mais de 17 minutos e nenhuma linha de diálogo, mas conta a história de 500 anos de perseguição, exploração e violência.

Jibaro, uma espécie de criatura mitológica de beleza inegável, é coberta de ouro e pedras preciosas e é dotada do poder de conseguir afogar seus predadores com sua voz. O episódio começa com a aparição de um grupo de cavaleiros e clérigos que chegam nas proximidades do lago que ela habita. Se sentindo ameaçada, Jibaro os afoga com sua voz. Loucos, sedentos e violentos, os predadores de Jibaro dão medo e angústia para quem assiste, principalmente para aqueles que sabem que esses predadores não estão apenas na ficção. 

Entretanto, entre um dos cavaleiros, existe um deles que é surdo e imune à voz de Jibaro. Ela considera aquilo como um símbolo de sua pureza. Os dois se envolvem romanticamente. Os lábios cravejados de pedras de Jibaro cortam o homem, derramam sangue. 

Mesmo surdo, o cavaleiro não resiste às riquezas de Jibaro, e se mostra nada diferente dos seus companheiros, que agora jaziam no fundo do lago.  O cavaleiro decide roubar Jibaro de sua beleza, de sua posse; e a deixa sangrando, à beira da morte, na água. Ele despeja seu corpo, sem remorso, sem pensar duas vezes, como se Jibaro não passasse de um objeto. 

A natureza, o lar de Jibaro, se revolta com grandes ondas vermelhas. Jibaro chora, o grito desesperador que dói a alma, mas o homem é imune. O cavaleiro, cansado de carregar o peso das joias de Jibaro, bebe a água do lago contaminada pelo sangue de Jibaro. Milagrosamente, sua audição é restaurada e Jibaro o afoga.

Muitos falaram que o conto de Jibaro era uma alusão aos relacionamentos tóxicos, como duas pessoas muito erradas uma para a outra conseguem se fazer tanto mal. A arte é algo extremamente subjetivo. É difícil entender o que Mielgo quis passar, mas é inegável o fato que os elementos visuais e a narrativa nos remetem à colonização.

E, de certo modo, é verdade. Jibaro é sobre relacionamentos tóxicos, mas um que teve seu início no século XVI.

Começou com uma invasão, e depois dessa, milhões de outras mais se seguiram. Invasão de terra, invasão de corpo, invasão de espírito. 

A colonização roubou muito dos povos indígenas. Seus entes queridos, suas línguas, danças, religiões. Roubaram seu direito de existir, suas terras, sua paz, porque enquanto os povos indígenas não estiverem seguros, não haverá paz.

A história que Mielgo nos conta da violação de Jibaro ainda é presente para muitos povos indígenas, como por exemplo, para os Yanomami.

O povo Yanomami viveu, por muito tempo, sem qualquer contato com o homem branco. Mas, no final do século XX, especificamente nos anos 1970, houve a descoberta de jazidas de minérios na região. No final dos anos 80, começo dos anos 90, a exploração e a invasão garimpeira. 

Em julho de 1993 aconteceu o Massacre de Haximu. Nele, 16 indígenas foram assassinados a tiros e facadas. Foi o primeiro e último caso no Brasil que foi julgado como genocídio

Até a atualidade, os Yanomami sofrem perseguições dos garimpeiros, como foi o caso dos 25 yanomami desaparecidos, o qual foi bem divulgado pelas grandes mídias e jornais no primeiro semestre deste ano (2022). A Hutukara Associação Yanomami (HAY) estima que existem 3 mil garimpeiros no território indígena Yanomami atualmente. 

A presença desses garimpeiros é uma ameaça muito grave para a vida desses povos indígenas, pois, propaga o consumo de álcool e drogas entre jovens, causa conflitos armados, propagam doenças e, além disso, muitas mulheres e meninas indígenas sofrem violências sexuais por parte dos garimpeiros, sendo obrigadas a se prostituir.

Por causa da mineração, pesquisas mostram que os povos indígenas dessa região têm índices altíssimos de mercúrio no corpo. Ou seja, esses povos estão sendo rapidamente envenenados, caçados e violentados pelos garimpeiros, um verdadeiro genocídio. Tudo isso em nome da ganância, a qual é um mal enraizado no capitalismo.

Os modos de vida da grande maioria dos povos originários é insustentável para o capitalismo, pois o capitalismo tem como fim o lucro para os mais ricos e a escravidão dos mais pobres. Os povos originários são os grandes protetores da nossa fauna e flora, enquanto os grandes senhores são os destruidores da terra.

Mas o que as histórias dos povos originários têm em comum com Jibaro?

Protetores da terra, que são vistos como selvagens, exóticos e violentos pelos invasores. São apenas um empecilho no caminho, uma pedra no sapato, quando o verdadeiro objetivo é a exploração, o roubo, o assédio moral, ético e sexual da terra e dos seus habitantes originais.

Jibaro conta a história de milhões de mulheres indígenas, conta a história da terra. Jibaro nos fala que não podemos confiar no invasor de armadura brilhante, no garimpeiro, no capitalismo encarnado. Para sermos verdadeiramente livres, temos que pôr um fim ao imperialismo, ao capitalismo, e dar início a uma verdadeira revolução e continuar nosso processo de descolonização.



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