O caso Assange me desmotiva a sobreviver no jornalismo contemporâneo

Esta não é uma reportagem, uma notícia ou até mesmo um ensaio, mas uma coluna. Em momentos trágicos, resulto-me a escrever textos onde o máximo que consigo expressar é a minha opinião, acreditando que a situação por si só já é deprimente ou revoltante o suficiente.

Mas hoje, o motivo para minha emergência literária foi a autorização da extradição de Julian Assange pela Ministra do Interior do Reino Unido, Priti Patel.

Nunca falamos publicamente como? ou por quê? começamos a cobrir esse caso. Afinal, ele já estava acontecendo anos antes de alguém pensar na fundação deste veículo. Pois bem! No segundo semestre de 2020, ainda alguns meses após a criação dessa revista, tive uma epifania ao lembrar de assistir um documentário enquanto adolescente de um homem de cabelo branco que atuava no jornalismo. Em meio às minhas pesquisas da madrugada, envoltas em aulas chatas de ensino médio horas depois, compreendi não só quem era o homem de cabelo branco (Assange), mas entendi, finalmente, tudo o que ele havia feito no jornalismo.

Durante os vazamentos do WikiLeaks, lembre-se, eu era uma criança. O WikiLeaks foi fundado enquanto eu tinha 4 anos de idade. Logo, certamente, eu não fazia ideia do que estava acontecendo quando assisti a esse documentário com meus pais, apenas achei que era uma história distante e provavelmente não era real. Mas, aos meus 18 anos, anos após ter contato com o filme da Laura Poitras, compreendi que era.

Assange tinha realmente trabalhado em tudo aquilo; as revelações eram reais; os governos realmente fizeram tudo aquilo e, ele, agora, realmente estava em um corredor da morte eterno. Após minha epifania do real, fui interrompida para ter aulas de história, já que ainda estava terminando o ensino médio, onde estudaríamos as glórias da democracia ocidental.

As coisas não fizeram sentido por muito tempo. Por que eu iria querer continuar criando um veículo de imprensa, e até mesmo fazendo jornalismo, sendo que algo assim estava acontecendo naquele momento?

Como provavelmente qualquer jovem conhecendo esse caso, tive muita ansiedade. Em janeiro, faria o vestibular, e considerei seriamente não optar por comunicação, mas qualquer outra área nas ciências sociais. Mas, depois da tristeza e do pânico, veio a raiva.

Não concebi que aquilo aconteceria, apesar de compreender totalmente que iria acontecer. Eu e outras duzentas pessoas poderíamos fazer um enorme ato de auto-imolação na frente da Suprema Corte dos EUA, e aquilo ainda iria acontecer. A falta de opção me enraivou.

Quer dizer, temos julgamentos e audiências para esse caso, onde tanto a promotoria quanto o juizado já sabem quais serão suas decisões, e devemos acreditar haver qualquer opção de escolha? Que existe liberdade de justiça?

E foi nesse tormento de raiva e angústia que comecei a cobrir o caso. Sabendo que teria uma década de atraso, não só comecei a ler todos os livros publicados pelo Assange, como a assistir todos os documentários existentes. Para fins de curiosidade: foi assim que lembrei ter assistido ao filme do Snowden aos 14 anos e escrevi seu perfil. Mas sabia que precisaria me atualizar de forma mais substancial que isso. Pesquisei sobre os principais vazamentos, em seguida fui ao site do WikiLeaks abrir todos os arquivos principais. Foi ali, no entanto, onde encontrei o meu maior poço de raiva e angústia.

Compreender que, por exemplo, meninos da minha idade haviam sido presos e mortos em Guantánamo por uma potência estrangeira que, mundialmente, juramos comicamente respeitar, é algo absurdo. Até hoje, considero o texto sobre as crianças de Guantánamo o mais triste que já fiz em toda a minha carreira profissional, simplesmente por ler todas as fichas daqueles meninos e ter pesquisado o que foi de suas vidas. Apenas uma de vinte e duas crianças conseguiu ter uma vida normal posterior sua prisão.

Depois desses arquivos, passava dias e noites escrevendo e lendo o WikiLeaks. Tanto que, até hoje, o site da organização está entre meus preferidos no celular (naquela época, não tinha computador). Compreender a importância do trabalho de Assange para o mundo no âmbito dos direitos humanos foi o que me fez não desistir do jornalismo e ver que preferiria morrer de fome (talvez esse seja o drama da idade) a trabalhar em um local que despreze a ética do trabalho jornalístico.

A maior defesa do caso Assange é algo que jamais pode ser privado de liberdade, sendo a criação do conhecimento. A sociedade está colapsando em múltiplos aspectos, desde as catástrofes climáticas até a corrupção governamental, e um dos pilares para revolucionar isso é a liberdade de imprensa. A imprensa serve, ao menos na teoria, para ser uma mediação entre elites e povo, representando os interesses e as necessidades da população por meio da escrita. Dito isso, agora, haverá um jornalismo pré e pós extradição de Julian Assange.

Sei que falas assim às vezes podem parecer um certo ataque à imprensa, mas esse pensamento é uma ilusão fabricada por certas linhas editoriais para impedir qualquer manifestação crítica, e concentrar audiência. Há uma diferença vital em criticar o modelo de negócio do jornalismo contemporâneo, em contraponto a afirmar que o jornalismo contemporâneo não deve existir por conta do seu modelo de negócio, algo defendido por certos grupos políticos no momento. A imprensa, assim como qualquer outra instituição, deve ser criticada, principalmente quando ela falha em agir em algo de interesse público democrático, como o caso Assange. Criticar mecanismos de atuação de uma instituição não significa criticar a existência da instituição em si, nem mesmo aqueles a atuar nela.

A população não precisa aprender como fazer receitas com macarrão instantâneo enquanto um terço do país passa fome. É ridículo que a imprensa brasileira tenha repercutido as falas de Bolsonaro no caso do assassinato do jornalista britânico Dom Phillips, enquanto poderia estar fazendo pressão no porque o garimpo e agronegócio tem interesse na região. Tudo está errado, e se eu pudesse te explicar o porque, eu o faria. Mas não tenho as respostas, apenas indignação. Continuaremos, enquanto possível, lutando por um jornalismo que seja educacional. Acredito profundamente no papel do jornalismo na formação do indivíduo e, por mais que isso venha com enormes dores, não me restam dúvidas de que essa é a melhor alternativa. Dói, leitor, não só o simples ato de reconhecer a extradição como precisar noticiá-la para você. Mas lembre-se, não sinta tristeza, e sim raiva.

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