Leia Cypherpunks, agora

Um cypherpunk é qualquer indivíduo que defenda o uso generalizado de criptografia forte e tecnologias que melhoram a privacidade como um caminho para a revolução social e política.

Originalmente se comunicando através de listas de e-mails, grupos informais de Cypherpunks surgiram no final dos anos 80, visando alcançar um estado utópico de privacidade através do uso proativo da criptografia.

A criptografia, assim como a maior parte das tecnologias contemporâneas, foi criada e majoritariamente apenas por exércitos ou agências de inteligência. Claude E. Shannon é considerado por muitos como o pai da criptografia. Em 1949, publicou o artigo “Uma teoria matemática da criptografia”, onde dissertava sobre os principais problemas da criptografia à época: autenticidade e sigilo.

Seu trabalho influenciou mais pesquisas na década de 70, quando desenvolvedores criaram a criptografia de chave pública, ou criptografia assimétrica. Esse método é o mais utilizado, por exemplo, entre comunicações de fonte e jornalistas, permitindo o compartilhamento de informações de forma anônima e não rastreável.

O movimento Cypherpunk discutia questões sobre privacidade, monitoramento governamental, controle corporativo de informações e questões relacionadas a forma da qual a sociedade se relaciona intrinsecamente com a tecnologia, ainda que de maneira indireta. No início dos anos 90, o governo dos EUA considerava criptografia como uma arma para fins de exportação. Em 1992, um acordo com a NSA permitiu a exportação de criptografias para o público que eram consideradas fracas e quebráveis. Até o momento, não era amplamente conhecido que todas as comunicações eram registradas por agências governamentais, algo escandaloso apenas após o 11 de setembro. E assim, não havia interesse público.

A primeira discussão em meios de comunicação sobre o tema veio a partir de uma publicação na revista Wired chamada Crypto Rebels, ou Rebeldes Cripto em tradução livre, em 1993. Nela, o jornalista Steven Levy disserta sobre uma reunião do movimento. “As pessoas nesta sala esperam um mundo onde as pegadas informativas de um indivíduo – tudo desde uma opinião sobre o aborto até o registro médico de um aborto real – só possam ser rastreadas se o indivíduo envolvido optar por revelá-las”, escreve.

Isso, diz Levy, apenas se materializaria através do “uso generalizado da criptografia”. Questionando-se algo assim seria tecnologicamente possível, o jornalista responde definitivamente, sendo os obstáculos apenas políticos, já que “algumas das forças mais poderosas do governo são dedicadas ao controle dessas ferramentas”. A observação não está errado: vinte anos depois, Edward Snowden mostrou como a NSA, uma das principais agências de tecnologia dos EUA, forçava empresas de tecnologia a participar na espionagem estatal de cidadãos americanos.

No mesmo ano, o matemático e programador Eric Hughes, um dos criadores do movimento, proclamou o Manifesto Cypherpunk. A peça foca na defesa da privacidade, vista por Hughes como necessária para uma sociedade aberta na era tecnológica. “A privacidade não é um segredo”, declara. “Um assunto particular é algo que não se quer que o mundo inteiro saiba, mas um assunto secreto é algo que não se quer que ninguém saiba. A privacidade é o poder de revelar-se seletivamente ao mundo”. Sabendo disso, é de se esperar que um dos maiores princípios do movimento seja o uso da criptografia para comunicações seguras e privadas.

Compreendendo a impossibilidade da anonimidade completa, os Cypherpunks defendiam a anonimidade e pseudoimunidade do indivíduo, quando escolhido pelo mesmo. A possibilidade da discussão anônima sobre certos temas é vista como vital para uma sociedade próspera, em virtude do que é considerado pelo movimento como verdadeira liberdade de expressão. A visão do completo anonimato é controversa e atrasada, algo compreensível por conta da distância do movimento original com o presente. Os Cypherpunks da década de 90, por exemplo, consideravam natural (e razoável) ter e apresentar documentos falsificados em identificações rotineiras, como na verificação de idade para compra de bebidas alcoólicas.

Anos depois da concepção do movimento, o criador do WikiLeaks e jornalista Julian Assange publicou o livro Cypherpunks: Liberdade e o Futuro da Internet, em discussão com outros ativistas da internet dos anos 2000. O livro é baseado em uma série de conversas filmadas para um programa de TV enquanto Assange estava em prisão domiciliar no interior da Inglaterra, durante todo o ano de 2011.

Em 2012, ainda havia esperança na tecnologia e qualquer debate sobre privacidade ou democratização tecnológica era visto como uma paranoia desnecessária. Era consenso a tese de que a privacidade não é necessária para aqueles que não tem o que esconder. O Instagram havia se tornado a nova sensação mundial, comprado pelo Facebook no mesmo ano, dando início a plataformização da internet.

Ainda que ataques a privacidade e direitos civis estivessem ocorrendo desde o 11 de setembro, eles passavam subitamente no radar do senso comum. Em setembro de 2012, a ACLU (uma das maiores associações de defesa aos direitos civis dos EUA) publicou uma série de documentos do Departamento de Justiça do país datados de 2010 e 2011. Reporta-se que as agências federais estavam cada vez mais monitorando comunicações domésticas e fazendo isso, segundo a organização, “sem garantias, supervisão suficiente, ou responsabilidade significativa”. Os relatórios mostravam um aumento dramático no uso de ferramentas de pen registrer ou trap and trace, usadas para reunir informações telefônicas, de e-mail e outras comunicações digitais.

Em Cypherpunks, Assange faz um contraponto temporal com as diferenças culturais da cultura tecnológica. Para o jornalista, se nos anos 90 o cypherpunk tinha potencial cultural para mudar o mundo, o cypherpunk dos anos 2010 se encontra à beira de “uma distopia de vigilância pós-moderna, da qual será impossível escapar para todos, exceto para os indivíduos mais habilidosos”.

Considerando as influências culturais e tecnológicas que levaram Assange a escrever Cypherpunks nos anos 2010, é preciso ressaltar, nessas circunstâncias mais do que nunca, que você precisa ler este livro. Agora.

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