Aimé Cesaire: para entender a barbárie de nosso tempo

Trinta de janeiro de 1933, data da posse de Adolf Hitler como Chanceler da Alemanha:

Seria esse o momento em que a desumanidade assolou a Europa e o destino do continente foi definitivamente selado? Que um local de paz, prosperidade e intelectualidade pujante foi desvirtuado por um indivíduo que carregava em si um mal em absoluto e que suas ações irrevogáveis levariam nações pacíficas a destruir-se entre si? Hitler seria um acontecimento isolado, um desastre do acaso que por uma conjunção única de fatores pode chegar onde chegou e fazer o que fez?

Por óbvio, tal afirmação parece absurda, e de fato o é, porém, não deixa de ser uma interpretação bastante disseminada quando se trata da transição da República de Weimar ao Terceiro Reich. Quando muito, se fala na análise do apoio da extrema-direita alemã e uma tentativa de amenizar o discurso de Hitler por aliados ‘ao centro’, que não acreditavam que, no poder, Hitler poderia fazer o que prometeu sempre que faria, o que possibilitou o nazismo chegar democraticamente ao poder, com apoio dos demais partidos da direita supostamente democrática e nomeado pelo presidente Paul von Hindenburg.

Não se pode dizer que Hitler enganou alguém. Hitler fez que sempre disse que faria. Hitler sempre foi um defensor de diversas formas de discriminação e violência. A Alemanha decidiu eleger como Chanceler o maior ‘maluco’ dentre todos os cidadãos de seu país? Ou então o discurso de Hitler não era tão solitário como aparenta ser nas histórias comumente contadas? 

“Uma civilização que se mostra incapaz de resolver os problemas que seu funcionamento provoca é uma civilização decadente.
Uma civilização que opta por fechar os olhos para seus problemas mais cruciais é uma civilização doente.
Uma civilização que se esquiva diante de seus princípios é uma civilização moribunda”
Aimé Cesaire – Discurso sobre o colonialismo

É assim que Aimé Cesaire inicia seu “Discurso sobre o colonialismo”, onde vem criticar duramente a postura europeia durante todo o período colonial, em especial contra os países africanos que sofreram com esse fato por um maior período de tempo e ainda tem de lidar com suas consequências; há toda uma geração que nasceu e cresceu no colonialismo e buscam, junto às novas gerações, juntar os cacos e construir uma nação partindo da condição de frangalhos ao qual ela foi posta. Mas a questão levantada por Cesaire vai muito além da destruição causada nos países colonizados: ela reflete sobre a consequência dessa violência nas ditas ‘nações civilizadas’ da Europa, trazendo como exemplo o Vietnã e Madagascar (na figura dos malgaxes), então colônias francesas:

“[…] toda vez que no Vietnã há uma cabeça decepada e um olho perfurado, e na França se aceita isso, uma menina é estuprada e na França se aceita isso, um malgaxe torturado, e na França se aceita isso, há um acréscimo de peso morto na civilização, ocorre uma regressão universal, uma gangrena se instala, um foco de infecção se espalha, e que no final de todos esses tratados violados, todas essas mentiras propagadas, todas essas expedições punitivas toleradas, todos aqueles prisioneiros amarrados e “interrogados”, todos esses patriotas torturados, no final desse orgulho racial estimulado, dessa jactância propagada, existe o veneno incutido nas veias da Europa, e o processo lento, mas seguro, do asselvajamento do continente.
E então, um belo dia, a burguesia é despertada por um tremendo choque, como de um bumerangue: as gestapos estão atarefadas, as prisões estão cheias, os torturadores inventam, refinam, discutem em meio aos seus instrumentos de trabalho.”

Aimé Cesaire – Discurso sobre o colonialismo

A normalização da barbárie tem um preço histórico e se reflete nas vítimas e nos criminosos, e o momento pelo qual o mundo está passando é um reflexo dessa normalização. A fome cresce na mesma medida em que contas engordam com bilhões de dólares e a xenofobia é alimentada conforme pessoas são obrigadas a fugir do lugar onde vivem pelas condições que lhes são impostas: as guerras estimuladas pelos Estados Unidos na Líbia e na Síria são os principais exemplos, assim como o retorno dos talibãs no Afeganistão. Enquanto isso, a solidariedade imediata ao povo branco e de olhos claros da Ucrânia vem, pouco a pouco, mostrando seus limites: pessoas sendo expulsas de casas onde foram abrigados, pois a comoção inicial se esvaiu e políticas de governos voltadas ao seu acolhimento estão sendo criticadas por grupos nacionalistas de direita.

Cuba sofre sanções arbitrárias e nada se faz a respeito disso; África do Sul sofre com as consequências do regime do apartheid e das rédeas econômicas impostas aos líderes do Congresso Nacional Africano (bem expostas por Naomi Klein no livro “A doutrina do choque”); os cidadãos Iemenitas sofrem com o ataque brutal da ditadura saudita e nada se faz, ao contrário, se apoia o regime de Mohammed Bin-Salman, aliado dos Estados Unidos; assim como se realiza uma Copa do Mundo Qatar, ditadura que não respeita os direitos humanos e vem fazendo campanhas contra homossexuais. No Brasil, mais de 40 mil pessoas são mortas em homicídios todos os anos, dessas, mais de 6 mil são cometidos por policiais e casos emblemáticos como os de George Floyd são cotidianos no noticiário brasileiro.

Esse cenário contrasta com um crescimento de movimentos de extrema-direita na Europa e no mundo, com Trump nos Estados Unidos, Bolsonaro no Brasil, Orbán na Hungria e Duda na Polônia e, agora, um crescimento do partido de Marine Le Pen de 8 para 86 cadeiras no parlamento francês. Além disso, ressalta-se a força de Vox na Espanha, AfD na Alemanha e Lega Nord na Itália. A barbárie normalizada aos outros chega ao centro do capitalismo global, aos países em desenvolvimento e aos mais pobres. A morte do outro deixa de ser importante, e o cenário obscuro dia após dia se torna o normal. Os discursos não mais espantam, e o que já foi inaceitável é cotidiano. A Globo chama os candidatos colombianos, Gustavo Petro de ex-guerrilheiro e Rodolfo Hernández de empresário, omitindo qual deles se declarou admirador de Hitler (e posteriormente alegou que se enganou, pois, acredite quem quiser, queria se referir a Albert Einstein), omitindo também que de ex-guerrilheiros na América Latina temos Pepe Mujica no Uruguai e de engenheiro/empresário temos Alberto Fujimori, no Peru.

Enquanto a importância da democracia, da liberdade e da igualdade entre os diferentes povos não se tornar consenso, a barbárie se perpetua e apodrece os pequenos lampejos de democracia e luta por igualdade vistos após o colapso da civilização que foi a Segunda Guerra Mundial. Mais uma vez o centro do capital global não será poupado e o colapso do convívio democrático vem para todos. O centro do mundo novamente colhe as consequências de seu desprezo pelo restante do planeta, e continuando o que levantou Cesaire em seu tempo, dessa vez o peso morto que infecta e gangrena a sociedade não é mais o colonialismo direto, mas a indiferença pelo sofrimento causado no outro, a busca por dinheiro acima de tudo. A extrema-direita não surgiu do nada, é fruto de uma realidade social propicia a ela, e para que deixe de existir não basta que seja derrotada nas urnas, mas que deixe de ter uma realidade que a fomente. Enquanto nós como cidadãos não agimos, os ratos fazem o banquete.



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