Le cose non sono così complicate

Aviso aos leitores adolescentes: o texto a seguir contém linguagem e conteúdos que te colocariam em apuros caso sua mãe te pegasse lendo, recomendamos o bom senso.

Este texto foi escrito, originalmente, em dezembro de 2020, quando o autor e seu pseudônimo viviam em Lisboa.

* * *

Olha, eu não estou bem, Maria Fernanda. Eu vivo ansioso, com os nervos em frangalhos. Acordo suando frio no meio da madrugada, com o coração pesado, atacado. Sabe o que isso parece, Maria Fernanda? Parece a porra de um tamborim numa porcaria de bateria de escola de samba. E eu odeio samba, Maria Fernanda. EU ODEIO SAMBA! É de foder. Pra piorar, uma voz na minha cabeça fica dizendo: “não se enrugue, couro velho, que te quero pra tambor”. E repete, repete, repete. É de foder. Olha aqui como estão minhas mãos e meus pés: formigando, quase sem sensibilidade. A circulação tá comprometida. Não encontro posição nessa maldita cama, nem que me paguem. Toda vez que me mexo é a um custo muito grande, muito pesado. É TUDO muito pesado. Como assim? Assim, ora! Não começa, Maria Fernanda. Francamente! As coisas estão complicadas, você sabe melhor do que eu. O Tom Jobim, que era um colosso, mas que também era um reverendo pé no saco, disse uma vez que viver no exterior é bom, mas é uma merda, e que viver no Brasil é uma merda, mas é bom. Eu concordo com o Tom Joboquete, mas também discordo. É de foder, Maria Fernanda. Quer saber de uma coisa? Isso tudo que eu estou falando não reflete, necessariamente, as minhas opiniões. Escrevo enquanto discordo vigorosamente das minhas próprias palavras, como disse o outro lá. Mas é aquela coisa, Maria Fernanda, por mais que seus antepassados tenham nascido aqui, e que você fale a mesma língua que eles, quando você cruza o Atlântico você não passa de um imigrante fodido. AI, MARIA
FERNANDA! ACODE AQUI QUE ESTÁ DOENDO O MEU PÊNIS! Acho que é melhor ir até a emergência. Isso, ao hospital. Atrás do Martinho Moniz. Martim Moniz. Martinho Monique. Martilho Arrombado Filho da Puta Moniz… Dá na mesma, porra! Cadê meu passaporte? Achei. Vamos. Olá, boa tarde. Meu nome é Giuseppe Mariano Dipinto e é o meu pênis que está doendo. Ir até a receção? Informar meu número de utente? Ao lado da máquina que vende sandes e sumos? Caralho, Maria Fernanda, traz a insulina que o gordão tá delirando. Que porra de língua é essa? Tem certeza que é português? Bom, se o que nós falamos é português é porque eles falam português, e há muito mais tempo que a gente. Pronto. Pediram para esperar ali que já, já vão me chamar pelo nome. O velho que me atendeu não foi nem um pouco simpático. O mundo, Maria Fernanda, está cheio de pessoas com sorrisos no rosto e veneno na língua. Mas é aquela coisa: se você está nadando no oceano, a profundidade pouco importa. A única coisa que você precisa fazer é nadar. E no momento eu reconheço não dispor de qualquer argumento para refutar essa hipótese. Pronto, Maria Fernanda, vamos embora que eu ainda não terminei de escrever aquele texto. Preciso entregar algo que impressione e que afaste qualquer dúvida sobre minha capacidade intelectual e sobre meu domínio da língua. Já falaram que as coisas que eu escrevo não fazem sentido em português porque eu escrevo em brasileiro. É de foder, Maria Fernanda. Mas sei lá, se você é escritor e escreve ficção e é muito, muito, muito inteligente, você não escreve absolutamente nada que preste. Mas se você é escritor e escreve ficção e é só meio burro, você também não consegue escrever porra nenhuma. O que você precisa, Maria Fernanda, é encontrar um meio termo nessa história toda. Essa é a parte complicada. Aí, você resolve matricular seu filho numa escola e o que eles fazem? Não sei, porque nem eu nem você temos filhos, mas a Luisa Geisler disse que eles “jogam José de Alencar numa turma de 40 crianças como se fosse uma granada e torcem para que haja sobreviventes”. Porra, me ajuda a te ajudar, meu parceiro. É de foder. Não, não, a dor no meu pênis já passou. Era um quadro moderado de priapismo não isquêmico. Uma injeção na chapeleta e c’est fini. Ai, finalmente em casa! Lava essas mãos, Maria Fernanda, que viemos da rua e estivemos no hospital. Esfrega bem entre os dedos, vinte segundos no mínimo. Sabe, Maria Fernanda, eu só quero ter um pouco de paz e sossego. Será que é pedir muito? Uma casinha confortável — não precisa ser muito grande — no meio do mato, um jardim com algumas árvores frutíferas, uma hortinha produtiva, espaço pros cachorros correrem até o cu fazer bico. Mas é claro que eles vão poder sair quando estiver chovendo. Como não? Francamente, Maria Fernanda! Cachorro adora lama, porra! E espalhar um pouco de sujeira faz bem, ajuda a criar anticorpos. Mas é aí que está o problema, Maria Fernanda. Você já leu “O Apanhador no Campo de Centeio”? Aqui eles chamam de “À Espera no Centeio” ou de “Uma Agulha no Palheiro”. Já vi dos dois jeitos, sabia? É de foder. Então, tem uma que o Holden fala um troço espetacular, e que talvez seja meu pedaço preferido de todo o livro que, como você sabe, é meu livro preferido entre todos os livros que já foram escritos até a porcaria do dia de hoje. O Holden diz que não se pode achar nunca um lugar quieto e gostoso, porque não existe nenhum. A gente pode pensar que existe, mas, quando se chega lá e está completamente distraído, alguém entra escondido e escreve FODA-SE bem na cara da gente. Eu estou com medo, Maria Fernanda. Esse texto é uma espécie de cartão-de-visitas, mas pode se transformar num testamento. Um banquete que pode terminar ainda no aperitivo. Sei lá, eu escrevo porque não consigo falar com as pessoas, Maria Fernanda, ou melhor, consigo, mas não sem corromper minha identidade e me tornar alguém que odeio, um cretino. O quê? Que estou procurando um jeito de te enlouquecer? De propósito? Que bobagem. Que absurdo, Maria Fernanda! De onde você tirou uma atrocidade dessas? Quer um pedaço de bolo? Podemos dividir um pedaço grande. O que você acha? Vou até a cozinha buscar, espera aí. Tá bem, pode ficar com a droga do pedaço inteiro para você. Eu não estava com tanta fome. Pois é, era mais gula do que qualquer outra coisa. Para de brincar com o garfo, Maria Fernanda. Por que você tá me olhando assim? Larga esse garfo, ô caralho. Me dá um abraço, me dá um beijo. O quê? Não, eu não estou tentando imitar o Lobo Antunes. Se me fosse permitido, eu imitava o Salinger, ou o Murakami. Ou ainda o Hermann Hesse, que escrevia frases com a quantidade exata de palavras, nem mais, nem menos. Só o necessário. Ei! Segura a onda, Maria Fernanda. Você não aguenta ver sangue, lembra? Você fica tonta, sua pressão cai. Se calhar você até desmaia e aí não vai ter ninguém pra te acudir. AI, MARIA FERNANDA! Olha o tamanho da mancha que você fez no tapete. Um mar vermelho nesse tapete branquinho que sua mãe trouxe de tão longe. Vai dar um trabalho do caralho limpar isso aqui. Corre lá na área de serviço, pega um balde, enche de água e despeja uma boa quantidade de detergente dentro dele também. Olhando essa mancha mais de perto eu acho que é melhor trazer a água sanitária. Calma, Maria Fernanda. Vou tomar meus remédios, os florais também. Sim, vou voltar pra terapia. A ansiedade vai passar. Aliás, já está passando. Meus nervos estão quase sob controle. Não estou mais suando e meu coração tá calminho, calminho. Coloca a mão no meu peito que você vai sentir. Olha aqui como estão minhas mãos e meus pés: firmes como rocha! Não, de forma alguma! Eu te amo, Maria Fernanda. É claro que te perdoo. Nenhuma boa ação fica impune. Porra, nem o tempo fica imune ao tempo, né? Vai ficar tudo bem, Mafê. Pois é, pois é. É de foder, ma’ le cose non sono così complicate.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.