Dor e Glória, o cinema como arte terapêutica para Almodóvar

Os filmes do cineasta espanhol Pedro Almodóvar são, até certo ponto pessoais, em toda sua filmografia são perceptíveis particularidades que não refletem apenas seu estilo mas também sua personalidade. Todavia, Dor e Glória (2019) assume um caminho único, vai além do biográfico, se assume quase uma terapia do autor.

Salvador Mallo, interpretado brilhantemente por Banderas é o próprio Pedro Almodóvar; o cabelo, as roupas, a homossexualidade; é um diretor de cinema apaixonado pela arte e com forte ligação pela mãe, que teve infância difícil com pai ausente. É um filme íntimo, um retrato muito sensível das dores – físicas e espirituais- de um artista, e como essas influenciam no processo criativo e geram um bloqueio nesse. E falar sobre as próprias dores é análogo a um processo de terapia, o desabafo aqui é comunicado através do cinema e os ouvintes somos nós.

Esse estudo (e desabafo) das dores encontra uma estética perfeita nessa fase contida do Almodóvar, provável que este seja o ápice desse novo momento do diretor, que opta pelas cores mais contidas e frias, talvez em decorrência de seu envelhecimento, maturidade ou mesmo pelas dores que tanto acusa em seu filme. Ainda que seja um drama almodovariano típico, vemos ainda um grande distanciamento de sua produção comum.

Esse exercício de introversão é sintomático na atuação de Banderas, que tem seus grandes momentos nos olhares, nas pequenas expressões e nos detalhes; é um personagem que quer ter algo a dizer, quer novamente dizer algo, mas está preso por esse bloqueio criativo e pelas dores mal resolvidas, preso em seu apartamento com suas artes – quadros, esculturas e livros-, que o fazem companhia nesse estado letárgico tão perigoso para quem faz arte.

Toda obra de arte é sim em algum grau um retrato do íntimo do artista, Salvador não consegue mais fazer filmes, não por causa do desafio físico que ele acusa no inicio, mas pelo desafio de se resolver com seu interior, deixar de ter vergonha deste, ter paz com suas dores mais profundas, e transforma-las em arte. Talvez por isso ele tome a atitude de viver novamente depois de um reencontro feliz com o passado. Algo um pouco parecido com o que o Almodóvar faz em Dor e Glória.



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