Quais são os exatos efeitos colaterais da pílula? Ainda não sabemos


Cerca de 100 milhões de mulheres ao redor do mundo usam contraceptivos orais, mas os estudos sobre os efeitos da pílula na saúde mental (e física) levantam mais perguntas do que respostas.


No início de junho, Elena Toffol e sua equipe da Universidade de Helsinque na Finlândia apresentaram resultados surpreendentes de novas pesquisas no Congresso Europeu de Psiquiatria. A descoberta: taxas de tentativas de suicídio eram menores em mulheres que usavam contracepção hormonal do que nas que não usavam. Aquelas sem contraceptivos hormonais tinham 40% mais chances de tentar o suicídio.

A contradição científica é enorme quando se fala sobre os efeitos, negativos ou positivos, do anticoncepcional no âmbito da saúde mental. Por exemplo, em contraponto, um estudo dinamarquês de 2017 descobriu que a contracepção hormonal estava ligada a um aumento nas tentativas de suicídio. O relatório relatou que usuárias entre 15 a 19 anos eram cerca de 80% mais prováveis do que as mulheres que não deveriam ser diagnosticadas com depressão. As participantes que estavam tomando anticoncepcionais somente de progesterona tinham o dobro da probabilidade de estarem deprimidas.

Os anticoncepcionais orais, que chegaram ao mercado pela primeira vez há mais de 60 anos, são surpreendentemente populares, apesar das contradições e perigos do medicamento. Estima-se que mais de 100 milhões de mulheres ao redor do mundo sejam usuárias regulares. O medicamento vem em duas formas: uma versão somente de progesterona e uma versão combinada de estrogênio e progesterona. Ambas contêm hormônios sintéticos projetados para parar ou reduzir a ovulação – a liberação do óvulo do ovário.

A contracepção hormonal é prescrita para uma variedade de condições, não só aquelas que buscam métodos contraceptivos, como enxaquecas, acne cística, dores menstruais crônicas, síndrome do ovário policístico (PCOS), e endometriose. Por isso, os receios sobre os efeitos secundários psicológicos da pílula são um problema, porque criam uma tendência crescente de desconfiança generalizada em relação à contracepção hormonal e a cautela com seus efeitos colaterais. Em estudo sobre o tema, a desconfiança relativa às mudanças hormonais é citada como um dos principais motivos para não tomar a pílula.

Apesar de o estudo dinamarquês ter aparecido em manchetes internacionais, ainda não sabemos os efeitos exatos da pílula anticoncepcional no humor.

A maior parte das pesquisas da área, incluindo o estudo dinamarquês, usa o método de correlação causal. Por exemplo, nesse caso, pesquisadores encontraram uma relação entre usuárias de anticoncepcionais e diagnósticos de depressão, mas isso não significa que um seja “a causa” do outro.

A melhor maneira para solucionar dúvidas entre links do uso do anticoncepcional e alterações de humor é através de testes clínicos aleatórios controlados por placebo. Ao invés de observar como o medicamento se comporta no mundo, onde existem um número imenso de variáveis como fatores socioeconômicos e padrão de vida, é mais eficaz criar dois grupos similares de participantes, um tomando anticoncepcionais e outro placebos, sem informar quem recebeu o quê.

Isso, no entanto, demanda esforço e recursos. Ao longo de seis décadas da criação do anticoncepcional, poucos estudos nesse formato foram feitos. A lacuna nessa área de pesquisa se deve, principalmente, a falta de financiamento para a pesquisa em saúde da mulher.

O viés de gênero ainda influencia pesquisas médicas. O preconceito de gênero na medicina e na pesquisa médica ainda está colocando a saúde da mulher em risco, diz Kelly Burrowes, fundadora da FemTech e pesquisadora sênior do Auckland Bioengineering Institute, em artigo ao site The Conversation.

Na peça, Burrowes descreve como mulheres são super-representadas em algumas condições médicas, e menosprezadas em outras, como doenças cardíacas. O sintoma mais comum de ataque cardíaco em mulheres, assim como em homens, é a dor ou desconforto no peito. Mas as mulheres, além de serem mais propensas a experimentar sintomas como náuseas e vômitos, costumam a ter um diagnóstico tardio ou errado. Muitas vezes, sintomas de doenças graves são erroneamente associados às questões hormonais ou menstruais.

Dependendo de como a mulher está em seu ciclo menstrual, a variação de seus hormônios “complica” os resultados, diz Burrowes. No século vinte, a maior parte dos estudos eram feitos exclusivamente com participantes homens, com a justificativa de que o que funcionaria para homens, também funcionaria para as mulheres. Essa suposição teve resultados catastróficos. Oito em cada dez dos medicamentos retirados do mercado americano entre 1997 e 2000 foram retirados devido a efeitos colaterais em mulheres. Entre 2004 e 2013, as mulheres norte-americanas sofreram mais de 2 milhões de eventos adversos relacionados a medicamentos, em comparação com 1,3 milhões para os homens.

Mesmo sabendo das consequências, governos optam por não investir em pesquisas direcionadas à saúde da mulher. O Brasil, por exemplo, anunciou em fevereiro de 2022 um aumento de 624 milhões no financiamento anual da saúde da mulher e da criança. Entretanto, por conta do viés conservador da atual gestão, os recursos são majoritariamente voltados a maternidade, não em problemas específicos da saúde feminina. A coluna não conseguiu encontrar a verba total destinada ao financiamento de pesquisas a saúde da mulher.

A urgência desses estudos se faz ainda mais necessária com acontecimentos nesta última semana, onde tudo indica que a saúde e autonomia reprodutiva da mulher está sob ataque ao redor do mundo.



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