Feliz 1978!


Estou dizendo, com isso, que Chico Buarque está errado? Não. O filho da puta escreve com pena de anjo. Errado estou eu, meu parceiro, que não sei fazer poesia.


AVISO AOS LEITORES ADOLESCENTES: O TEXTO A SEGUIR CONTÉM LINGUAGEM E CONTEÚDO QUE TE COLOCARIAM EM APUROS CASO SUA MÃE TE PEGASSE LENDO. RECOMENDAMOS O BOM SENSO.

Escutei dizerem por aí que uma das maiores derrotas da minha geração — e olha que nós, millenials, contamos tantas, mas tantas, derrotas que fica até difícil elencar, sei lá, que sejam as dez maiores! — era ter o Chico Buarque como nosso Chico Buarque. E após ouvir “Que Tal Um Samba?”, faixa lançada há poucos dias, concordei em gênero, número e grau com tal afirmação derrotista. Isso porque “Que Tal Um Samba?” veio à luz em 2022 para ser o “Apesar de Você” (1978) da minha geração — que, por ser molenga e asquerosa, foi obrigada a ver velhos decrépitos elegendo outro velho decrépito, racista, homofóbico, lambe-botas, covarde, boçal, biltre, lixo, genocida, pulha, sórdido, crápula, bosta, brega e bufão como presidente.   

“… Puxar um samba, que tal? / Para espantar o tempo feio / Para remediar o estrago / Que tal um trago? / Um desafogo, um devaneio […] Um samba para alegrar o dia / Pra zerar o jogo / Coração pegando fogo / E cabeça fria / Um samba com categoria, com calma […] Esconjurar a ignorância, que tal? […] Puxar um samba porreta / Depois de tanta mutreta / Depois de tanta cascata / Depois de tanta derrota / Depois de tanta demência / E de uma dor filha da puta, que tal?”. 


“… Quando chegar o momento / Esse meu sofrimento / Vou cobrar com juros, juro / Todo esse amor reprimido / Esse grito contido / Esse samba no escuro / Você, que inventou a tristeza / Ora, tenha a fineza / De desinventar / Você vai pagar e é dobrado / Cada lágrima rolada / Nesse meu penar […] Você vai ter que ver / A manhã renascer / E esbanjar poesia / Como vai se explicar / Vendo o céu clarear / De repente, impunemente / Como vai abafar / Nosso coro a cantar / Na sua frente?”.

Estou dizendo, com isso, que Chico Buarque está errado? Não. O filho da puta escreve com pena de anjo. Errado estou eu, meu parceiro, que não sei fazer poesia.

Agora, não se pode negar a tristeza imensa de ver um homem de 78 anos cantando sobre iminente alvorada enquanto nós, que temos toda uma vida pela frente, estamos mais preocupados em acertar na loteria do empreendedorismo e, com a ajuda de Deus, fazer um IPO. 

Goste ou não do que escrevi, contudo, por favor não saque a arma no saloon. Eu sou apenas o cronista. Mas, se após ler, você ainda quiser me atirar, mate-me logo à tarde, às 15h, que tenho à noite compromisso e não posso faltar.


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