Precariedade como condição de existência e resistência: O Cinema da Boca do Lixo


Foi um momento em que as classes populares e sujeitos marginalizados de fato estavam presentes como público; e representados na tela, é claro. Na década de 70, a Boca respondia por mais de 50% da produção cinematográfica nacional e possuía diversos diretores, roteiristas, atores, atrizes e técnicos associados ao polo produtivo.


A região apelidada de Boca do Lixo, no centro de São Paulo, bairro da Luz, foi palco de uma das mais pulsantes empreitadas cinematográficas do Brasil. Se nas décadas de 20 e 30 já havia sido um polo cinematográfico com empresas multinacionais que se alocavam na região, foi na década de 60 que se tornou a casa não-oficial do cinema independente brasileiro.

Na Boca do Lixo cineastas jovens e mais experientes se encontravam nos rápidos processos de produção de filmes que não recebiam incentivo do Estado e assumiam a precariedade como aspecto distintivo de sua estética. O erotismo, fortemente usado em muitos filmes para maior apelo popular, representava também uma forte transgressão: no Brasil da ditadura militar, representar o erótico, o prazer, a liberdade sexual era uma afronta à moralidade conservadora do poder. Muitas vezes, como no cinema de Carlos Reichenbach, um dos maiores nomes da Boca do Lixo e do cinema brasileiro, a nudez trazia não apenas prazer, mas também desconforto e naturalidade – uma naturalidade que causava estranhamento, mas que florescia na Boca do Lixo, aonde outros sujeitos transgressores e considerados moralmente questionáveis transitavam e viviam suas vidas dividindo o espaço com os artistas. Na Boca, Carlão dirigiu Lilian M: Relatório Confidencial (1974) e outros dois longas, para depois viabilizar sua própria produtora.

Não se pode falar em Boca do Lixo sem mencionar José Mojica Marins, conhecido pelo seu eterno personagem Zé do Caixão. Zé do Caixão tornou-se um mito popular cuja recepção dialogava com o imaginário popular de tudo aquilo que se temia – chegando, claro, a sofrer até censura do Estado por atentar contra os bons costumes. Ozualdo Candeias, outro grande nome do cinema da Boca, fez do seu filme A Margem (1967) um verdadeiro ensaio estético que originaria oficialmente o Cinema Marginal. O Cinema Marginal e a Boca do Lixo se atravessam, sendo que muitos marginais construíram ali sua carreira, embora não possamos dizer que o movimento se limite a este polo. O mais relevante filme do cinema marginal também surgiu na Boca, O Bandido da Luz Vermelha (1969), de Rogério Sganzerla. Abraçando uma ideia de uma estética do lixo, da precariedade, Sganzerla criou um clássico que mostra a intensidade dos contornos sociais e políticos do cinema que ali se desenhava:

“O terceiro mundo vai explodir. Quem tiver de sapato não sobra, não pode sobrar”

Não se pode, entretanto, pensar o cinema da Boca como um clube de concepções compartilhadas. Cada diretor tinha sua maneira e nem sempre era consenso entre os outros que ali trabalhavam (Ozualdo Candeias, por exemplo, nunca gostou do cinema de José Mojica). Não existia, portanto, uma linguagem suficientemente unificada para chamar movimento, uniam-se no baixo orçamento, no local e nas possibilidades de uma viabilidade comercial, resgatando a importância das chanchadas; embora, claro, houvesse uma ideia de um Brasil real, sem glamour, das classes baixas e dos sujeitos marginalizados que permeava coletivamente a produção audiovisual que se dava. O sucesso comercial dos filmes viabilizou, no período pré decadência da Boca, viabilizou a carreira de diversos cineastas.

A decadência da Boca enquanto polo cinematográfico também se deu de forma acelerada e por volta dos anos 80 o local já não mais servia a este propósito. Reichenbach culpa o espaço dado ao cinema estrangeiro pornográfico que ocupava em proporção colossal os cinemas de bairro e os espaços frequentados pelo público cativo do cinema brasileiro, as classes C e D. A distribuição foi afetada rigorosamente e com o crescimento da inflação e a crise do mercado cinematográfico em todo Brasil, o “golpe de misericórdia” estava anunciado. Na década de 90, o espaço onde outrora o cenário cultural efervescia deu lugar à cracolândia e desde então operações de combate ao tráfico e intervenções irresponsáveis da prefeitura tomaram as manchetes. Hoje, a historiografia do cinema brasileiro tem feito mais justiça a este período, anteriormente ignorado pela crítica. Nas próximas semanas, trarei perfis complexos de alguns dos diretores que viveram o auge produtivo da Boca, bem como suas descrições realistas e nostálgicas sobre este espaço cultural cuja herança ainda ressoa e foi definitivo para a consolidação de um cinema nacional.


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