Documentos revelam que o caso contra os Papéis do Pentágono foi trágico para o jornalismo


Os Documentos do Pentágono, são indiscutivelmente um dos maiores trabalhos jornalísticos, onde foram reveladas tomadas de decisões dos Estados Unidos sobre a Guerra do Vietnã que se desenhavam nas sombras.

O Knight First Amendment Institute da Universidade da Columbia publicou no dia 8 de Junho, pela primeira vez, dois memorandos do Escritório de Assessoria Jurídica (ou Office of Legal Counsel) relacionados aos ‘Papéis do Pentágono’ – o Pentagon Papers. O primeiro foi escrito pouco antes da Suprema Corte decidir o caso em 30 de junho de 1971, e o outro, logo depois. O Instituto obteve os documentos como parte de um acordo legal histórico em um caso que busca a divulgação de opiniões da OLC redigidas há mais de 25 anos. O Instituto já publicou centenas de outros memorandos da OLC obtidos através do acordo e espera publicar outros nas próximas semanas.

Os memorandos divulgados foram escritos imediatamente antes e logo após a Suprema Corte emitir sua decisão em New York Times v. United States, que expuseram uma campanha do governo Nixon para interromper a publicação dos Papéis do Pentágono – série de informações secretas que documentavam os atos do exército norte-americano na Guerra do Vietnã – e seu esforço para processar os responsáveis por sua publicação. Os dois documentos podem ser lidos aqui.

A publicação desses memorandos é essencial na atual conjuntura do jornalismo, pois comportam um dos confrontos mais importantes da história da Primeira Emenda dos EUA e sobre um caso que ajudou a definir a liberdade de imprensa. Esses documentos históricos estarão agora disponíveis para acadêmicos, jornalistas e advogados.

Daniel Ellsberg recorre ao Jornalismo Investigativo

A história dos Papéis do Pentágono começa com Daniel Ellsberg, um analista de defesa especializado em estratégia de armas nucleares e teoria de contrainsurgência. Ellsberg tinha profundo conhecimento do Vietnã, com histórico de serviço militar na divisão de Assuntos de Segurança Internacional (ISA) do Pentágono de 1964 a 1965, depois como analista no Vietnã do Sul por dois anos.

Ex-analista da Guerra do Vietnã, Daniel Ellsberg, o denunciante por trás dos Papéis do Pentágono.
Foto por Christopher Michel

Depois de retornar aos Estados Unidos para trabalhar para a RAND Corporation (think-tank norte-americana de pesquisa às Forças Armadas dos Estados Unidos), tornou-se membro da força-tarefa de análises militares. O trabalho confirmou o que ele já suspeitava: o envolvimento dos EUA no Vietnã foi baseado em mentiras sistemáticas por parte do governo. À medida que a administração de Nixon seguia sua própria política no Vietnã, Ellsberg ficou cada vez mais frustrado, vendo um padrão contínuo de sigilo e manipulação e começou a considerar vazar o estudo.

Inicialmente, Ellsberg recorreu a membros do Congresso americano, como os senadores J. William Fulbright, Charles Mathias Jr., George McGovern e o congressista Paul McCloskey Jr., na esperança de que um deles estivesse disposto a inserir os Documentos do Pentágono no Registro do Congresso. Todos os quatro recusaram. Mas os esforços de Ellsberg não foram inteiramente infrutíferos. McGovern sugeriu que Daniel fornecesse suas cópias ao New York Times ou ao Washington Post. Em março de 1971, o ex-analista mostrou o estudo a Neil Sheehan, repórter do Times.

O jornal sabia que a história era grande. Sheehan e alguns colegas seletos se isolaram no hotel New York Hilton para examinar milhares de páginas fotocopiadas enquanto a administração do New York Times decidia se arriscava publicar material altamente confidencial.

Em 10 de junho, chegou a Sheehan a notícia de que, contra o conselho jurídico da Lord, Day & Lord, o escritório de advocacia do jornal, o Times havia decidido seguir em frente. Os editores usariam os Documentos do Pentágono para analisar a guerra e publicar dezenas de páginas, com a primeira seleção publicada no dia 13 de junho de 1971. A primeira página daquele dia trazia um artigo de Sheehan, “Vietnam Archive: Pentagon Study Traces Three Decades of Growing US Involvement”.

No dia em que o New York Times divulgou a primeira parte dos Papéis do Pentágono, também cobriu o casamento de Tricia Nixon.

A tomada de medidas legais contra o Times não foi o primeiro instinto de Nixon. No dia 13 de junho de 1971, em conversa com o Conselheiro de Segurança Nacional Henry Kissinger, o presidente reconheceu que os Documentos do Pentágono poderiam ajudá-lo politicamente, lembrando aos leitores que a Guerra do Vietnã foi produto dos erros de seus antecessores. Nixon e Kissinger assumiram, erroneamente, que a divulgação do estudo foi programada para afetar uma próxima votação da Emenda McGovern-Hatfield, que exigiria a retirada das forças americanas do Vietnã.

O vazamento dos Documentos do Pentágono trouxe uma profunda paranóia em Richard Nixon, endurecendo sua convicção de que ele nunca estaria a ‘salvo’ de conspirações que buscavam destruí-lo. A reação do presidente levou seu governo a institucionalizar um esforço sistemático para atacar aqueles que ele considerava inimigos – foram inclusos nos esforços alguns jornalistas de grandes veículos para tentar conter futuros vazamentos – e identificar ameaças, especialmente whistleblowers.

A manifestação final desse impulso foi a criação da Unidade de Investigações Especiais da Casa Branca, informalmente chamada de ‘Plumbers‘ (os Encanadores), cuja primeira missão foi invadir o consultório do psiquiatra de Ellsberg. Mais tarde, membros do grupo realizaram uma missão final, o arrombamento do escritório do Comitê Nacional dos Democratas, episódio que ficou historicamente conhecido como Watergate, que acabou custando a Nixon exatamente o que ele procurava defender: sua presidência.

Daniel Ellsberg não apenas se encarregou de direcionar o documentos, mas também escolheu jornalistas competentes e os informou qual estava sendo o papel dos EUA em uma guerra inconstitucional. E os Documentos do Pentágono revelaram muito mais do que algum segredo de Estado – revelaram que toda uma geração de política externa foi baseada em mentira contínua e proposital do governo Nixon.

E por que isso importa hoje em dia? Mais uma vez encontramos os EUA, a maior democracia do mundo, em crise com seus princípios básicos de liberdades civis. E não é por causa de whistleblowers , mas porque qualquer que seja o presidente na Casa Branca, a busca pelo financiamento de guerras estará intríseca na cartilha de políticas externas do país.

Assim como o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, que poderá passar a vida em prisão de segurança máxima nos EUA se extraditado, os atos de Daniel Ellsberg são amplamente considerados como heróicos para uma grande parcela de pessoas. Afinal, diante de uma possível sentença de prisão perpétua e acusação de violação de uma lei obsoleta – a Lei de Espionagem de 1917 – Ellsberg também se encarregou de informar ao público sobre um assunto vital: as publicações do Pentágono mostraram que o governo americano estava mentindo há anos sobre o andamento de uma guerra. E ainda mente.



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