Comida, memória e afeto

Nós, brasileiros, dificilmente associamos a comida/alimento a algo que remete a memória e a emoção durante o dia a dia. Isso normalmente acontece em almoços especiais, aniversários, festas familiares. Mas falar sobre família é muito generalizado, não acha? Cada uma tem sua particularidade, seus comportamentos, intrigas e suas histórias. Eu particularmente não quero falar sobre família e comida. Quero falar sobre afeto e comida.  que mesmo sendo algo muito simples, passa despercebido quando estamos tentando sobreviver a esse mundo caótico e veloz, pois a comida é comparada a um combustível. Costumo achar essa frase engraçada e preocupante, pois somos comparados a máquinas, a um objeto com uma função, propósito ou força. E esquecemos quem somos primordialmente. Esquecemos que somos humanos.

E esquecer a humanidade é como dar um tiro em um abismo, não teremos certeza de quando o tiro vai parar ou o que vai ser o alvo. Esquecemos que carregamos a história familiar. Esquecemos que carregamos a nossa própria história e o peso que isso ocupa em cada um. Esquecemos que o que nos alimenta faz parte de quem somos agora e de quem seremos no futuro. Por isso, passei a pensar que ao pensarmos em comida, pensamos em 4 significamos de comida: aquela que uma pessoa próxima a você cozinha o seu prato preferido, a que consideramos sofisticada, a que nos remete a algo na infância e a aquilo que você vai comer no dia. Esses tipos definem como reagimos e lidamos com um prato à nossa frente. 

Mas por que isso importa? Importa porque somos indiferentes àquilo que nos mantém em funcionamento. Costumamos associar o que vamos comer no dia a algo insignificante e menosprezamos que são essas comidas do dia a dia que nos permitem ficar em pé. Nos interiores do nordeste brasileiro, por exemplo, há um ditado muito comum: “saco vazio não fica em pé”. Eles costumam falar isso quando se referem ao alimento como fonte de sustento, como “sustância”, pois para trabalhadores rurais, a comida é a sua maior fonte de energia, seja ela proteica, produtiva, sistemática, entre outros.

A comida, nesse sentido, assume uma relevância ainda maior quando reconhecemos o seu papel, ela reproduz sentimentos, linguagens e memórias. Assim como as receitas assumem esse papel de registro e contribuem para a perpetuação de afeto, cuidado e legado de tradições humanas. Na cultura sul-coreana, essa noção de alimento foi passada de geração em geração após a reconstrução do país depois da crise de 1988, após a introdução da gestão monetária estadunidense no país. Naquela época, a inflação estava muito alta e a comida era escassa. A culinária, vista como uma das bases de sustento do país em questão de importação e cultura, foi considerada fonte de esperança para muitas famílias e agricultores familiares na época.

A culinária foi um meio de não esquecer que dias melhores estariam para chegar. Foi uma forma de reconfortar trabalhadores famintos após horas de trabalho pesado, crianças que passavam tanto tempo sem serem alimentadas e idosos desamparados. Nesse sentido, a comida, para mim, ganhou um significado mais emocional, mais acolhedor. E mudar essa perspectiva para algo tão simples que fazemos várias vezes ao logo anos, transforma como enxergamos a realidade, mesmo que de forma pequena, ainda faz a diferença.



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