Nem tudo é o que parece ser: a fábrica de interação e engajamento


O cultuamento das aparências e consequentemente do engajamento, o serviço precarizado e altamente opaco, ausente de qualquer transparência que se utiliza de uma massa de pessoas desesperadas por dinheiro que são vítimas de um modelo político-econômico que não possui interesse algum em resolver as mazelas que ele mesmo criou. Quão orgânico realmente são os engajamentos hoje em dia?


Engajamento é um dos pilares das redes sociais na atualidade, é o que expõe para os algoritmos fiscalizadores que tal figura/canal/perfil ‘merece’ receber visibilidade e que seu produto chegue aos seus seguidores (já é sabido que o que publicamos não chega para todos os nossos seguidores e está diretamente condicionado às normas de interação da plataforma e como respondemos a elas). Acho importante frisar, entretanto, que quando digo produto estou me referindo ao que chamamos de ‘conteúdo’; boa parte do que entendemos hoje por ‘produtores de conteúdo’ está muito mais próximo, na realidade, de produtores de entretenimento/produtos. É essencial reconhecer o esvaziamento no sentido de ‘conteúdo’ promovido pelo capitalismo e a mercantilização das relações sociais.

O que está por baixo desse pilar, porém, é uma indústria do engajamento, ou seja, plataformas que condicionam seus usuários – a partir de recompensas monetárias – a interagirem (curtindo, comentando, compartilhando e afins) de forma inorgânica nas mais diferentes plataformas (YouTube, Instagram, TikTok e Facebook). Essa indústria é um exemplo de rompimento com o discurso de que no espaço digital a meritocracia existe de fato; já que todos possuem acesso às mesmas ferramentas e por estarem condicionados às mesmas regras, partem do mesmo ponto de partida. Todavia, assim como o próprio discurso meritocrático na realidade existe apenas para justificar o privilégio e, ao mesmo tempo, usar a exceção como regra, no digital não é diferente, quem possui uma condição estrutural/financeira melhor consegue impulsionar seus produtos pela própria ferramenta de marketing da plataforma e pode, também, usar fábricas de interação e trazer para suas publicações a falsa sensação de que aquele produto está sendo bem-visto e recebendo um ótimo engajamento.

Acabei esbarrando em um desses esquemas de interação quando vi um vídeo e o youtuber fez a propaganda (paga) deste serviço, expondo superficialmente o seu funcionamento (e me deixando completamente instigado). Uma das primeiras coisas que me chamou a atenção foi um dos ads que falava sobre ‘realizar seus sonhos e mudar de vida’ podendo receber uma comissão máxima de R$144.000,00; veja, quando consideramos o cenário atual do Brasil: inflação no espaço, cesta básica cada vez menos capaz de superar os gastos diários, taxas de desemprego elevadas, número de pessoas em insegurança alimentar ou passando fome aumentando a cada dia, precarização trabalhista e alta exploração com pouco retorno, se deparar com a oportunidade de ganhar dinheiro apenas precisando ‘interagir’ em vídeos ou fotos, tudo do conforto de casa, parece tentador. Assim, analisar o discurso é importante para reconhecer como funciona o sistema que se aproveita da miserabilidade social para funcionar.

Em um dos anúncios que fica rodando na plataforma temos a presença do discurso do dinheiro fácil e no outro o clássico modelo de esquema pirâmide.

Além de um discurso do dinheiro fácil, que visa angariam e atrair usuários há, concomitantemente, o modelo clássico de esquema pirâmide, ou seja, para receber mais regalias convide pessoas e essas pessoas devem convidam outras pessoas e assim vai em um ciclo ad infinitum até que a bolha estoure e apenas aqueles que estão no topo efetivamente se privilegiam dos ganhos. Aqueles que já estão um pouco integrados no sistema são chamados VIP, assim como o discurso, compreender a linguagem é fundamental na desconstrução de uma estrutura; curioso chamar Very Important Person (Pessoa Muito Importante, em tradução literal) aquela pessoa subalternizada no fim para prestar funções mecânicas e repetitivas de interação.

Do lado esquerdo a lista dos níveis de VIP e a devida recompensa e do lado direito a ‘lista de tarefas’ com detalhes das obrigações.

Nessa plataforma, cada nível de VIP recebe uma quantidade X de reais (que vai de oitenta centavos até quarenta reais no último nível) ao cumprir cada uma das ‘dez tarefas diárias’ – mais uma vez é preciso observar o uso da linguagem para subverter a exploração. A plataforma cria no usuário um sentimento de jogo gradual, ele não vê ali uma lista de afazeres maçantes, mas uma lista de tarefas que ele, como ‘agente’, deve completar/cumprir. Transforma pessoas em verdadeiros bots humanos que obedecem comandos digitais. Isso parece bobeira, mas faz parte do enredo que distorce a realidade.

Quanto a plataforma em si, ela é extremamente opaca, para acessá-la basta clicar em um link (não seguro), cadastrar o celular e criar uma conta. Busquei o ao máximo algum site oficial, mas não encontrei em nenhuma esfera de pesquisa, não encontrei, também, nenhum link para termos de uso e termos de privacidade, ou seja, não temos a menor clareza de como efetivamente funciona e como é a coleta de dados do usuário que a utiliza.

Por fim, como mostrado, a lista de tarefas determina quais ações o usuário deve fazer para receber as recompensas, no caso do youtuber que eu assisti à maioria das deles consistiam em curtir diferentes vídeos no YouTube, onde, após curtir, ele precisa tirar um print e anexar no sistema para comprovar que cumpriu a tarefa e ser creditado, mas os comandos podem variar conforme a demanda como pedir para comentar, compartilhar ou seguir. Vale ressaltar a quantidade de likes demandados para os vídeos, cerca de 30 mil onde, em alguns, mais de 6 mil pessoas já cumpriram suas tarefas.

A questão central é observar que no espaço digital as aparências enganam, assim como no mundo real. Um não se dissocia do outro, pelo contrário, hoje o espaço digital mais do que nunca é uma extensão algorítmica de nossa realidade, reproduzindo os dilemas, padrões e desigualdades já presentes. Entender a fábrica de engajamento exige, antes de tudo, perceber a realidade de fato; o que está sendo definido como sociedade e avanço do capitalismo. O cultuamento das aparências e consequentemente do engajamento, o serviço precarizado e altamente opaco, ausente de qualquer transparência que se utiliza de uma massa de pessoas desesperadas por dinheiro que são vítimas de um modelo político-econômico que não possui interesse algum em resolver as mazelas que ele mesmo criou. A partir de hoje é importante observar que por trás das interações daqueles que possuem condições para efetuar tais demandas, existe todo um sistema exploratório da miserabilidade social travestida de oportunidade para realizar sonhos. Quão orgânico realmente são os engajamentos hoje em dia?


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