A pandemia abalou profundamente a vida de americanos com vícios em substâncias químicas. O isolamento social, as dificuldades financeiras e as opções limitadas de tratamento prejudicaram a expansão do tratamento de pessoas diagnosticadas com transtorno de uso de substâncias (SUDs, na sigla em inglês).

Com medidas sanitárias se tornando cada vez mais relaxadas ao redor do mundo, pesquisas e reportagens inéditas sobre os impactos dos últimos dois anos na saúde física e mental dos indivíduos começaram a surgir.

Em março desse ano, a NBC reportou a existência de uma enorme comunidade online para usuários de metanfetamina, em aplicativos como Facebook, Twitter, Reddit e Zoom. A reportagem descobriu a existência de salas virtuais no Zoom onde usuários de metanfetamina se reúnem, usam substâncias e socializam. O crescimento dessas comunidades coincidiu com um aumento de metanfetamina nos EUA e em outras partes do mundo, incluindo o Brasil.

Em meio a todo esse tempo, no entanto, pouco se falou, cientificamente, da relação entre o isolamento social e o consumo de drogas. Dados do Ministério da Saúde apontam que os atendimentos por uso de drogas ilícitas aumentaram mais de 50% de março a junho de 2020 em comparação com o mesmo período de 2019. O consumo de álcool aumentou globalmente, sobretudo entre mulheres.

Aliás, pessoalmente sempre achei esquisito como, enquanto todos os alimentos se tornaram mais caros, bebidas alcoólicas continuam em um preço razoável.

Já em relação ao uso de metanfetamina, segundo os Institutos Nacionais de Saúde (NIH, na sigla em inglês) dos EUA, o uso frequente da substância aumentou em 66% entre 2015 e 2019. Já no Brasil, houve uma diminuição entre 2016 e 2019, mas um aumento entre 2020 e 2021. No primeiro ano de pandemia foram apreendidos mais de 129 mil comprimidos de metanfetamina, mais que o dobro de 2019. Em 2021, foram 154,3 mil.

Agora, alguns pesquisadores dos EUA começaram a tatear o real impacto da pandemia na vida de SUDs. Como uma população já vulnerável, muitos pacientes com SUDs perderam o acesso ao tratamento.

Sem o apoio social necessário para a recuperação, muitos mais usuários tiveram recaídas, overdose e perda de esperança. Esses desafios instigaram um impulso de mudança na moderna terapia de dependência, e a solução deve incluir a integração sem precedentes da tecnologia na prestação de cuidados de saúde.

Em estudo chamado Vício e COVID: Questões, desafios e novas abordagens de telesaúde publicado pelo Psychiatry International foi descoberto que, ao contrário do que muitos esperavam, a telemedicina (ou telessaúde) ajudou a melhorar resultados gerais, seja através do uso de chamadas telefônicas, módulos ou visitas virtuais. Pesquisadores ressaltam que uso da telemedicina parece resultar em “maior satisfação do paciente, cumprimento e taxas de retenção de tratamento”.

A publicação também diz que a telessaúde pode “proporcionar benefícios inestimáveis aos indivíduos com dependência, particularmente aqueles na América rural”, uma das regiões mais pobres e vulneráveis do país. Com resultados positivos, é possível que o sistema seja aplicado no Brasil.