O fracasso do jornalismo brasileiro


No fundo, o que não queremos aceitar é que o jornalismo falhou, pois, se ele falhar, significa que também falhamos como sociedade. Não estou aqui apelando para o fictício jornalismo “imparcial”, isso não existe. Estou clamando pela honestidade. No fundo, acho que somos todos idealistas.


Por Cleber Lourenço

Nos últimos 30 anos, o jornalismo brasileiro foi guiado por pessoas que sempre se colocaram como inimigos intransigentes da ética. E que não se importaram em deixar a sua contribuição para as sucessivas crises de representatividade que primeiro trouxeram Collor e depois Jair Bolsonaro.

E hoje o nosso jornalismo falha de maneira miserável com suas “escolhas muito difíceis”, “massas cheirosas” e “enxadristas”.

E justamente, pela sucessão de erros, não lhe cabe o tom pedante que adota às vezes com leitores e críticos.

Embora tenhamos uma seleção fantástica de repórteres que inúmeras vezes não se pouparam em trazer o Brasil de verdade para o centro das discussões sociais, fica evidente o contraste com os diversos chefes de redações que por muitas vezes permitem publicações tão hediondas, que em alguns casos chega a flertar com a ilegalidade. E que por muitas vezes estão encastelados em suas redações, longe do país real.

Depois de tudo que aconteceu nos últimos 30 anos, era esperado que os adultos fossem capazes de se desculparem por seus fracassos. 

Quais? O compromisso de informar o cidadão, não induzirem a nação toda ao erro e acima de tudo, o fracasso em defender a dignidade humana e os direitos humanos de maneira intransigente. 

O compromisso não banalizar barbaridades ou oferecer o devido contexto para aquilo que se publica, no lugar disso, fomos tomados por uma infestação de jornalismo declaratório, onde as mais diversas sandices, mentiras ou barbaridades são publicadas sem qualquer reflexão ou contraponto. 

Não adianta nada os veículos investirem em fact-checking se também investem pesado nesse tipo de expediente ordinário que induz o leitor ao erro. 

E ainda temos a falta de humanidade. Se no passado o jornalismo destruiu a Escola Base e matou Eloá, recentemente conseguiu tripudiar em cima da dor de uma mulher que flagrantemente estava fora de si e ao morador de rua que se aproveitou da mulher, ofereceu-lhe palco, microfone e holofotes até que virasse uma celebridade, sem o mínimo de pudor em expor cada detalhe e até mesmo a intimidade da mulher.

Meses depois, mais uma onda de terror, a vítima, dessa vez, seria muito pior. Uma mulher, vítima de estupro, foi barbaramente exposta, a criança gerada por esse crime, igualmente.

A resposta para isso? Um frio pedido de desculpas, rapidamente suprimido pela resposta vil da diretora do mesmo veículo envolvido no caso.

 Criticada e questionada por um leitor, retrucou o anônimo da Internet de forma mais hedionda ainda.

Orientou que se estivesse incomodado, deveria consumir conteúdo dos concorrentes.

Não foi apenas uma resposta malcriada. Ela deu de ombros para a ética.

 Alguns dias após esse episódio lamentável, outro show de desdém com a dignidade humana. Um outro veículo decidiu contar a história do Vinícius, um bebê que sofre duramente com uma doença rara, a AME. Não fala, não anda, não consegue engolir e só respira com ajuda de um ventilador mecânico.

A perversidade da reportagem chega logo nas primeiras linhas, a doença da criança tem cura, um remédio chamado Zolgensma e que custa R $6,4 milhões.

Segundo a reportagem, o custo desse remédio compromete o orçamento do sistema de saúde brasileiro e coloca outros portadores de doenças raras como uma espécie de “fardo” para o SUS, chegando ao absurdo de comparar o custo de seus tratamentos com o custo de tratamento de outras doenças como diabete e afins.

E em uma abordagem digna da Alemanha do terceiro reich, defende de maneira indireta e até mesmo acidental, a eugenia.

Se eu acho que os responsáveis pela reportagem são perversos nazistas inveterados? Não! Porém, acho que a falta de responsabilidade e humanismo em tratar de assuntos delicados produziu essa vergonha. Coisas que se tornaram corriqueiras no jornalismo brasileiro (para mais detalhes sobre o caso, recomendo a publicação do economista David Deccache. Clique aqui).

Algumas semanas antes, outro veículo comemorava a decisão do Supremo Tribunal de Justiça que determinou que rol da ANS é taxativo isso enquanto mãos e familiares de pessoas com problemas de saúde relataram o fato de a decisão colocar a vida dos seus entes queridos em risco e mãos denunciam que planos de saúde, com base na decisão, iriam remover o oxigênio de seus filhos, uma verdadeira barbaridade.

Barbaridade acompanhada de um editorial indecoroso e sádico. Sem sequer se importar com a sociedade e as dores de pais, mães, filhos, maridos e esposas.

E o que dizer do veículo que publicou a seguinte chamada:

“Idoso de 75 anos com Parkinson e enfisema supera o peso da idade e as doenças para trabalhar e poder comprar remédios e comida em Bertioga”.

Acontece que isso não é uma história de “superação”, talvez de tortura ou um retrato do nosso fracasso como sociedade.

Sobre a notícia, uma internauta com poucas palavras, conseguiu trazer um contexto muito melhor sobre o que deveria ser a notícia na história em questão: “Toda história de superação esconde em algum grau o fracasso das políticas públicas e o abandono estatal. E escancara o jornalismo que passa pano para desigualdade”.

Ela não errou em suas ponderações. Os episódios em questão se somam a tantos outros, nos mais diferentes veículos e portais ao redor do país e ainda descredibilizam ainda mais o jornalismo.

Frutos de um lento, repetitivo e devastador trem descarrilhado de fracassos que nos trouxeram ao agora e desumanizam o jornalismo.

Uma indústria que manipulou resultados eleitorais, agitou ameaças de terror, excitou falsas-controvérsias, e falhou muitas vezes em informar a nação. Do colapso do sistema político aos perigos que a sociedade vive.

Uma indústria que orientou mal a atenção da sociedade com a destreza de Harry Houdini enquanto milhares de brasileiros negros e jovens morriam ora pelo crime organizado, ora pelas forças de segurança do estado. O motivo para tamanho desastre não é nenhum segredo. 

Como rentabilizar o serviço fundamental de prover informações aos cidadãos?

Como depender cada vez menos dos tão escassos assinantes? Duas respostas: anunciantes e cliques no atacado.

Isso acabou distanciando ainda mais os leitores das notícias, o cidadão foi visto como um mero consumidor de publicações baratas, deixou de ter a sua cidadania reconhecida e de ser visto como um eleitor.

E como capitalismo e responsabilidade social são coisas distintas…

A viabilidade desse modelo de negócio só foi possível graças à supressão de informações nocivas aos anunciantes, ou a polêmica hedionda e vil de factoides com pouco ou nenhum interesse público.

Do outro lado, para aqueles que decidiram investir nos acessos de leitores no atacado, restaram eleger inimigos e heróis fictícios, manipular a emoção das pessoas e trabalhar sempre com o medo e com o ódio.

Como esses dois últimos sentimentos cegam, não demorou muito para que os cidadãos ficassem desorientados. E então, outra tragédia foi formada.

Nada é mais importante para uma democracia do que um eleitorado bem-informado.

Em uma época em que o pouco que resta de bom jornalismo é atacado ferozmente por autoritários de plantão, ninguém fez mais mal ao jornalismo profissional do que o próprio jornalismo profissional.

Quantos profissionais e veículos se preocupam em contextualizar as notícias, em oferecer espaço ao contraditório e escutar de maneira honesta os seus leitores sem qualquer postura jocosa?

Faço todas essas indagações como um mero leitor, um voraz consumidor de notícias e principalmente, um apaixonado pelo jornalismo bem-feito e de qualidade que ainda resiste em redações de todo o país. Um bom jornalismo que muitas vezes precisa resistir muito mais ao poder econômico, editores e chefes de redação desonestos e donos de veículos perversos do que contra a extrema-direita que busca sepultar o bom jornalismo de maneira frontal.

No fundo, o que não queremos aceitar é que o jornalismo falhou, pois, se ele falhar, significa que também falhamos como sociedade.

A pergunta que deveríamos fazer é: quais veículos, hoje, fazem uma análise honesta dos fatos? Quais se preocupam em dar o devido contexto para as notícias que publicam? Quais buscam qualificar os debates dos principais temas a serem discutidos no momento? E quais não excitam falsas-controvérsias?

Não estou aqui apelando para o fictício jornalismo “imparcial”, isso não existe. Estou clamando pela honestidade. No fundo, acho que somos todos idealistas.


Cleber Lourenço é observador e defensor da política, do Estado Democrático de Direito e da Constituição. Ex-colunista na Revista Fórum. Escreve semanalmente no Congresso em Foco.


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