Envolto na preguiça de um sábado frio no Rio de Janeiro, às 10h da manhã caminhei em direção ao metrô da Siqueira Campos a fim de ir até à Pavuna. Para chegar à estação, atravessei pela Anita Garibaldi, rua arborizada, residencial, um dos redutos silenciosos de Copacabana, onde senhoras passeiam junto de cães. Obras de manutenção da Prefeitura invadiam uma das calçadas — um paraíso de silêncio se perderá em ruídos por alguns dias. E as senhoras mais os cães, entre palavras e latidos, reclamarão uns com os outros.

No metrô, John Carlos transmutava o trem em um palco de rimas improvisadas: “No colo da mamãe, tá o pequeno Spiderman, aproveite a infância que é a melhor fase que tem”. Como a performance artística nos vagões é proibida pelo governo, quando as portas se abriam o rapper logo silenciava: “Agora o que a gente faz, pros guardinha não me expulsar, pausa pros comerciais”. Contagiando os viajantes com risadas, nenhum Dom Casmurro à vista para ignorá-lo, todos o protegeriam da lei.

Quando John saiu, uma mulher bem baixa e gordinha, de voz afinada, talvez portadora de alguma deficiência, entrou no vagão solicitando dinheiro. Em seguida, saíram diversos passageiros na Uruguaiana. Antes de sair, uma criança apelidada pelo rapper de Ben 10 olhava entre curiosa, assustada e empática para a personagem circense — estranhando o que os adultos familiarizaram.

De lá até a Estácio, sem as rimas de John nem as falas da pedinte, o silêncio artificial do trem me perturbava. Assim como Jim Morrison, o poeta-xamã, suplicava ao grande criador do ser, caso haja algum: “conceda a nós mais uma hora para performarmos a nossa arte e para aperfeiçoarmos a nossa vida”.

Na Estácio, estação de transferência, a maioria desceu. De lá até São Cristóvão, observava uma moça de descrição autoral desnecessária, porque Machado de Assis a criara. Os olhos eram de cigana oblíqua e dissimulada. Assim que o trem parou, desviei o rosto para o lado oposto dela. Quando retornei, Capitu sumira como uma onda no mar.

Nos arredores de Triagem, o metrô paralisado na superfície, uma distante bandeira do Brasil tremulava alto: os dizeres “Ordem e Progresso” voavam parados. Dentro do trem, um cadeirante entregava um cartão para as pessoas:

 “OI SERA QUE VOCÊ PODE ME AJUDAR A COMPRAR UMA CADEIRA DE RODAS MOTORIZADA? FAÇA ISSO POR MIM, POR FAVOR!! MUITO OBRIGADO, DEUS TE ABENÇOE!!”.

Até a Pavuna, uma mãe desempregada vendia balas de hortelã e de morango com a filha bebê no colo. De repente, uma personagem me tragou a atenção: era uma senhora de traços semitas, de rosto demasiado enrugado — a cada tosse as rugas enrugavam mais profundamente —, de olhos entre o verde e o azul. Na testa, óculos escuros marrons repousavam. Vestia um vestido longo e agarrava uma bolsa, ambos coloridos e floridos, complementados por um par de brincos psicodélicos e por tênis brancos. A idosa deu dois reais ao cadeirante. Levantou do banco, com auxílio de um desconhecido, para sair em Coelho Neto.

Retornei, da Pavuna para a Estácio, pelo mesmo trem, embora mais vazio, mais frio. Com esforço, o cadeirante mudo se arrastou pelo caminho percorrido antes. Recebi um segundo cartão, de uma surda-muda venezuelana. A imigrante passava por problemas financeiros, assim como mais uma desempregada surgida depois. De acordo com dados do IBGE, no primeiro trimestre de 2022 havia 11,9 milhões de desempregados no Brasil.

À frente de mim, uma mulher disse a alguém pelo celular estar em posse do atestado de óbito. Chorava um pouco, amparada por uma outra moça, talvez parente, talvez amiga. Era a morte. Ao meu lado, duas garotas bonitas viajavam para uma festa. A de vestido branco curto, mais próxima de mim, temia o atraso. Era a vida.

Dividia-me entre o desejo de abraçar a enlutada e o de festejar junto das meninas. O desejar se equilibrava trêmulo nas névoas, na fronteira inabitável entre a vida e a morte. Quando trocamos para um trem mais cheio em direção à Zona Sul, de pé as jovens me encaravam por alguns segundos para em seguida retomar a conversa: preenchiam-me de mistério, de atração. Festejariam comigo algum dia? A segunda delas, a mais atraente, vestia roxo. Na Uruguaiana, desceram. Imagino as garotas bonitas vagando a procurar Capitu, onda verde imersa no mar azul, para festejarem todas as três juntas.

Sabiá

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