Spencer: A Imobilizadora monarquia britânica


A montagem de Stewart correndo sem rumo usando roupas diferentes após tomar a decisão de desistir de seu casamento com Charles é de uma ternura tocante, é o momento em que a austeridade de Larraín se entrega a liberdade e Diana a encontra.


Em Spencer, Larraín não deixa de realizar o que ele não consegue em Jackie (2016): a emancipação política e pessoal dessa figura feminina, nesse caso Lady Di. Enquanto a primeira dama interpretada por Natalie Portman falha em emancipar sua figura através do luto, a “princesa do povo” de Kristen Stewart encontra a dissociação de sua figura da monarquia através do divórcio.

Larraín é muito perspicaz em construir a monarquia britânica como esse ambiente imobilizador, nesse sentido o preciosismo estético do diretor chileno é assertivo em congelar a realeza, seus palácios e cerimônias, como a própria Diana afirma durante o filme “Aqui presente e passado são a mesma coisa, e o futuro não existe” a princesa de Gales anseia por libertação desse ambiente opressor. Até por essa ânsia ela passa o filme praticamente inteiro em estado letárgico, reforçado pela maneira em que Stewart é filmada, através de uma lógica visual claustrofóbica, imobilizada pela coroa e pela aliança.

Em outro diálogo brilhante, Charles diz a Diana que é necessário se obrigar a fazer coisas que seu corpo não quer pelo bem da pátria, dialogo que ganha contornos ainda mais fortes quando o filme trabalha um paralelo entre Diana e Ana Bolena – Rainha consorte do Reino da Inglaterra, segunda esposa de Henrique VIII tendo sido incapaz de gerar herdeiros para este, executada sob o pretexto de um caso extraconjugal incestuoso que teria sido uma tentativa desesperada de gerar um filho, ironicamente o próprio rei tinha amantes e inclusive casou-se novamente após a execução de Bolena e a anulação de seu casamento com a mesma — Bolena pôs seu corpo a disposição da coroa, do país e de seu casamento, morrendo refém dessas instituições, e mesmo que a monarquia não fosse executar Diana em praça pública nos anos 1990, provavelmente seu estado depressivo só se potencializasse se ela se entregasse de vez.

Além da presença de Bolena, os quadros antigos no palácio — incluindo um de Henrique VIII-e a própria arquitetura do mesmo reafirmam esse caráter imobilizador e anacrônico que a política do Reino Unido possui, do qual Diana não se encaixa e precisa escapar. A montagem de Stewart correndo sem rumo usando roupas diferentes após tomar a decisão de desistir de seu casamento com Charles é de uma ternura tocante, é o momento em que a austeridade de Larraín se entrega a liberdade e Diana a encontra.


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