Nacionalista e revisionista, Shinzo Abe flertava com crimes de guerra do avô

Shinzo Abe, que governou o Japão como primeiro-ministro por um ano em 2006 e depois novamente de 2012 a 2020, foi baleado e morto na sexta-feira (8) durante um comício na cidade de Nara. Abe discursava em uma reunião de seu Partido Liberal Democrata (LDP) do lado de fora de uma estação de trem. A emissora pública NHK (Japan Broadcasting Corporation) relatou que o agressor, Tetsuya Yamagami, 41, é um ex-fuzileiro das Forças de Autodefesa do Japão. Até o momento, o motivo ainda não é conhecido.

O assassinato foi imediatamente condenado por líderes de todos os principais partidos políticos do Japão e líderes mundiais. O Japão tem leis rígidas de controle de armas e a violência armada é quase inexistente no país. Em 2021, houve apenas uma morte registrada por violência armada.

A política de Shinzo Abe

Como político, a reputação de Abe incluía uma preferência pela economia neoliberal favorecendo os grandes negócios. E quando se tratava de política externa, ele era conhecido como um militarista de direita que buscava reviver o poder armado do país e branquear a brutalidade do passado do imperialismo japonês. Assumiu o cargo sob a sombra da promessa de tornar o Japão “o país mais favorável aos negócios do mundo”, revogando as regulamentações corporativas e as proteções dos trabalhadores, reduzindo os impostos corporativos e aumentando os impostos sobre todos os outros.

Seguindo o manual neoliberal de livre comércio, Abe procurou tornar mais fácil para as empresas demitir trabalhadores, levar o Japão à Parceria Trans-Pacífico (TPP) e reviver a tecnologia nuclear como produto de exportação após o desastre do reator de Fukushima. A pressão de Abe para implementar o acordo comercial da TPP foi recebida com resistência de trabalhadores e grupos trabalhistas. O acordo proposto priorizava os interesses das corporações multinacionais no Japão e nos EUA sobre os direitos do povo e que eliminaria as proteções para os sistemas de saúde, emprego, seguro social e toda a estrutura pública do Japão.

Shinzo era repudiado pelo Partido Comunista Japonês (JCP,) sindicatos e a centro esquerda, mas reconhecido pela classe empresarial pelo seu conjunto de medidas econômicas denominadas como “Abenomics”, que visava reformas fiscais, o aumento da “produtividade” e a “flexibilidade” trabalhista – palavras de código na ideologia capitalista para ‘espremer’ mais os direitos trabalhistas e dar carta branca às empresas sempre que quiserem demitir alguém.

Shinzo e seu sonho militarizado

Ainda mais do que suas políticas econômicas, porém, foram as políticas militares e externas nacionalistas que moldaram o legado que ele deixa para trás. O ex-Primeiro Ministro era um revisionista quando se tratava da história de agressão e atrocidades imperialistas do Japão e um defensor de tornar o país uma forte potência militar mais uma vez.

A atitude de Abe sobre o papel do Japão durante a Segunda Guerra Mundial – incluindo a negação da escravidão sexual que o exército japonês forçou a dezenas de milhares de mulheres e crianças, minimizando ou ignorando assassinatos em massa cometidos na China e na Coréia, o apoio à distribuição de livros escolares que encobrem os crimes do Japão e suas freqüentes visitas a um santuário em homenagem a criminosos de guerra japoneses o colocam em desacordo com grande parte da população japonesa.

Um dos principais objetivos de Abe, que graças à pressão popular não foi cumprido, era revogar o Artigo 9, a chamada “cláusula de paz” da constituição do Japão. Parte da carta imposta pelas forças de ocupação dos EUA após o fim da guerra, o Artigo 9 procurou proibir a guerra e o Japão de se posicionar na ofensiva novamente.

Influência dos crimes da 2ª Guerra Mundial

A pressão de Shinzo Abe em descartar o Artigo 9 era uma tradição familiar. Seu avô, o ex-primeiro-ministro Nousuke Kishi, também procurou minar o documento quando esteve no poder de 1957 a 1960. Durante a década de 1930, Kishi era conhecido por seu governo desumano a mando do Reich hitlerista, quando atuava na região de Manchukuo, no nordeste da China. Expressando admiração pelas técnicas dos aliados nazistas do Japão na Alemanha, Kishi supervisionou a exploração colonial do Japão na Manchúria, que viu milhares morrerem como trabalhadores escravos em minas e fábricas. Houveram ainda mais mortos em experimentos de guerra química, fato que deu a Kishi o apelido de “Monstro de Manchukuo”.

Avô de Shinzo Abe, Nobusuke Kishi, em imagem do documentário “Manchukuo: a guerra inacabada da Ásia”. Via The Wall Street Journal.

Após a guerra, Kishi passou três anos na prisão antes de ser libertado durante a Guerra Fria, quando os EUA determinaram que tecnocratas como ele eram necessários para reconstruir o Japão para que ele pudesse se juntar ao esforço anti-soviético na Ásia. Abe via em seus esforços a capacidade de aumentar as forças armadas do Japão como uma continuação do trabalho de seu avô e regularmente organizava seus anúncios e ações políticas em torno de datas comemorativas importantes relacionados ao governo e à vida de Kishi. Shinzo já rasgou elogios a seu avô em um discurso de 2007, ao dizer “avançar, não importa quantas pessoas se opusessem, porque aquele era o único caminho”.

Encurralado pela oposição nos seus esforços contra o Artigo 9, Abe, no entanto, conseguiu aumentar o orçamento de defesa e trabalhou para transformar as Forças de Autodefesa do Japão em um exército de fato. Seguindo a liderança do então presidente dos EUA, Donald Trump, ele pediu um maior acúmulo de armas para atingir a China e trouxe o Japão para o Diálogo de Segurança Quadrilátero (conhecido como Quad), uma aliança militar com os EUA, Austrália e Índia.

O primeiro-ministro do Japão, Fumio Kishida, participa de uma reunião virtual com o presidente dos EUA, Joe Biden, em sua residência oficial em Tóquio, Japão, em 21 de janeiro de 2022. Gabinete de Relações Públicas do Japão. Via Kyodo/via REUTERS.

Cenário eleitoral

Citando motivos de saúde, Shinzo Abe renunciou ao cargo em 2020, tornando-se o primeiro-ministro com mais tempo de permanência do Japão. É inegável que Abe foi uma poderosa figura que fez parte do Partido Liberal Democrata, no entanto, mantendo o controle das posições políticas do partido. O atual primeiro-ministro Fumio Kishida foi seu sucessor e é visto como uma ferramenta ‘flexível’ do establishment do partido que era dirigido por Abe.

No último domingo, dia 10, o partido governista do Japão e o núcleo político de coalizão tiveram uma grande vitória na eleição parlamentar imbuída de significados após o assassinato de Shinzo Abe em meio à incerteza sobre como sua perda poderia afetar a unidade partidária. Com esse impulso, Fumio Kishida deve governar sem interrupção até a próxima eleição de 2025.



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