A crise argentina aos olhos de Roberto Uebel


Conversamos, na última semana, com Roberto Uebel, Ph.D e professor de Relações Internacionais na ESPM, sobre a grave crise econômica argentina.


Notícias acerca da crise econômica na Argentina ganharam destaque nos noticiários brasileiros ao longo das últimas semanas. A dificuldade na administração econômica em um país que tem a sua economia pareada ao dólar, moeda mais forte do mundo, foi ainda mais acentuada com a pandemia de COVID-19.

Agora, as consequências da crise já são visíveis no claro empobrecimento da população argentina. Além disso, percebe-se um agravamento do cenário político.

Para entender melhor a situação, conversamos com o professor e Ph.D Roberto Uebel, que atualmente leciona na faculdade ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), em Porto Alegre, no campo das Relações Internacionais e Economia, e colabora ativamente para o debate acadêmico no país. Uebel também é pós-doutorando em Geografia Política na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e tem como área de pesquisa temas da Geopolítica, Geoeconomia e Geografia dos Negócios Internacionais.

A entrevista foi protagonizada por Bruna Dalmas, editora geral da revista e coordenadora do nosso núcleo em relações internacionais.

BD | No Brasil, notícias relacionadas aos nossos vizinhos argentinos acabam ficando restritas a uma pequena parcela da sociedade. Qual o contexto histórico que precisamos saber para entendermos melhor o que está acontecendo na Argentina neste momento?

RU | A Argentina é um país que, historicamente, tem uma sociedade muito desigual. Mas, ao contrário do Brasil, a elite é muito pequena e a classe média de baixa renda é muito grande; proporcionalmente, o número de pessoas abaixo da linha da pobreza é muito menor. 

O fato da Argentina concentrar uma sociedade de classe média ajudou na criação do estereótipo de que o argentino é mais culto, mais escolarizado, com mais instrução. Eles, de fato, são mais cultos, o acesso à educação é maior e a estabilidade em termos de emprego existe.  Ao longo das décadas, entretanto, o país não conseguiu atingir o mesmo patamar econômico do Brasil. Por decorrência dos sucessivos períodos ditatoriais, com governos civis e militares, o país buscou incessantemente uma estabilidade política/democrática, mas não econômica. 

Esse baixo desenvolvimento econômico pode ser observado em um recente estudo feito pela Universidade de Buenos Aires, que compara o crescimento no poder de compra ao longo dos anos. Ao comparar o ano de 1950 a 2022, o crescimento na população na Argentina em termos de poder de compra foi de somente 3 vezes. Isso exemplifica que, de fato, embora os altos níveis de instrução e a estabilidade democrática em décadas recentes, o baixo nível de consumo dos argentinos escancara uma grave crise econômica que, certamente, se arrasta para o âmbito político.

BD | Até que ponto o agravamento da crise econômica argentina e, consequentemente, o agravamento da situação política pode impactar o Brasil?

RU | Recentemente estive em uma curta viagem para Buenos Aires e posso dizer que a situação local acende um alerta para o Brasil.  Há um sentimento refletido em grande parcela da sociedade, em especial nas ruas, redes sociais e imprensa, de que o presidente Alberto Fernández é o culpado por toda a crise. Além disso, há a impressão de que Cristina Kirchner quer retomar o protagonismo em termos de poder, e que a parcela de culpa do ex-presidente Mauricio Macri não é tão grande. 

Em um passado recente, Kirchner terminou o mandato em baixa e abriu espaço para um governo de centro-direita, comandado por Macri. Foram realizadas reformas no campo tributário, fiscal e social, muito parecidas com as reformas feitas no Brasil. As consequências dessas reformas, todavia, foram assumidas por Fernandez, no meio da pandemia. Reformas com tons liberais não funcionam em países com alta desigualdade social, como na Argentina e no Brasil. 

O agravamento da situação demonstra o que pode também acontecer aqui em um futuro próximo. No cenário do Brasil, todas as consequências das reformas (ou contra reformas) adotadas pelos últimos governos serão herdadas pelo governo que assumir em 2023.” 

BD | Em um cenário de incerteza política, por conta da situação econômica, existe a possibilidade da próxima eleição na Argentina afetar o método de funcionamento do Mercosul?

RU | Cenários políticos são extremamente dinâmicos e podem mudar a qualquer momento. Mas supondo que eleições acontecessem hoje, ou em um futuro muito próximo, com certeza.

Na minha visão, existem três caminhos para uma futura eleição na Argentina.

O primeiro engloba uma tentativa do Partido Justicialista (conhecido, também, como Partido Peronista), de se descolar do Kirchnerismo. A busca pelo retorno às “raízes” e bases do partido já são perceptíveis. Nesse plano, entretanto, não há espaço para o atual presidente Alberto Fernández, principalmente por conta da sua alta rejeição, que já chega na casa dos 70%. Alguns nomes aparecem como opção, como no caso do Embaixador Daniel Scioli, mas não há ainda uma coesão e unidade acerca de uma indicação do partido para as próximas eleições. 

O segundo caminho pode ser visto como o retorno de Cristina Kirchner. O grande problema é que a agenda progressista da ex-presidente é vista como algo “do século passado”, não encontrando bases no cenário atual dominado por crises internas e internacionais, com destaque à situação na Ucrânia. 

Em uma terceira opção, há o crescimento da extrema-direita argentina. Em um passado recente, discursos extremos não tinham espaço. Com o avanço das dificuldades econômicas, embora também não exista uma coesão em torno de um nome, a ideia de um partido de extrema-direita em um segundo turno das eleições presidenciais já não parece tão distante. 

Pode-se dizer que, hoje, o Mercosul depende muito mais da estabilidade argentina do que a brasileira. O bloco, mesmo com todas as dificuldades, superou todas as crises pelas quais o Brasil passou desde 2014. Mas não há como manter a plena funcionalidade do Mercosul com os dois principais países em crises internas. É importante ressaltar que manter a estabilidade no Mercosul não se trata somente de relações políticas, mas também comerciais. Boas relações mantêm o fluxo comercial entre os países em funcionamento. 

Semana passada, por exemplo, alguns produtos tiveram a sua importação interrompida por conta da instabilidade do câmbio argentino. Isso causa, também, problemas para os exportadores brasileiros, que: não sabem se conseguirão firmar acordos para vendas com compradores argentinos; se o produto conseguirá adentrar o território argentino; se irão receber o pagamento pelo produto ou se o pagamento será corrigido de acordo com o câmbio. 

Além disso, como um fator agravante para o bloco, há uma mudança na visão desse dentro da Argentina, principalmente vinda do seu chefe de Estado. Diferentemente de Kirchner, que possui uma visão de valorização da América Latina como união, Alberto Fernández se aproxima de uma visão europeísta, colocando os argentinos em uma posição diferente ao serem comparados com os vizinhos. Como consequência, seja com Bolsonaro ou seja Lula, não há perspectiva para uma grande aproximação com a Argentina até as próximas eleições.

BD | Em termos econômicos, o que, de fato, está acontecendo na Argentina nesse momento?

RU | A causa de todos os problemas na economia argentina é a dolarização. É uma economia totalmente dependente do dólar. O peso argentino, antes da crise de 2001, era pareado com a moeda norte-americana. Criou-se uma cultura de consumo e de produção onde tudo é lastreado em dólar, e o peso argentino passou a ser uma moeda fictícia. Paga-se em peso; cobra-se, no fim, em dólar.

Uma economia lastreada em dólar significa o trabalho com várias faixas cambiais, diferentemente do que acontece no Brasil, onde existem somente duas modalidades negociadas: o dólar turismo e o dólar comercial. A Argentina possui, atualmente, seis tipos de câmbio. Essa variedade de cotação faz que as pessoas não obedeçam a cotação oficial, buscando outras opções para a poupança, priorizada em dólar. 

O dólar utilizado nas ruas possui uma cotação quase duas vezes maior que o dólar oficial do país. Durante a minha viagem, na semana passada, um dólar equivalia a 133 pesos (5,61 reais). Cabe ressaltar que há 20 anos, quando a economia argentina decidiu se parear ao dólar, 1 dólar equivalia a 1 peso. O dólar informal, utilizado nas ruas e conhecido como “dólar blue”, custa 273 pesos (11,52 reais).

Com essa situação, cria-se um descompasso entre a realidade e o oficial; entre o comércio internacional e a economia interna. Não há uma economia que se sustente, e também não há como resolver da noite para o dia. O débito e o crédito não fecham. As despesas e as receitas não fecham. 

Além do mais, essa oscilação gera inflação, que para alguns produtos, já chega aos 100%. Por conta disso, as pessoas estão buscando outras moedas como forma de poupança – dólar e real, por exemplo.

BD | Levando esse cenário em consideração, quais as suas impressões para a Argentina até o final do ano, política e economicamente falando?

RU | Em termos políticos, pode-se esperar uma busca cada vez maior da ex-presidente Kirchner de exercer o poder. Naturalmente ela ganha mais projeção, já que sua agenda de política econômica busca atender às necessidades sociais ao lado do crescimento econômico. Fernández, por sua vez, adota o crescimento econômico para depois pensar em justiça social – por consequência, há um enfraquecimento do mesmo. 

Quando há uma crise na chapa presidencial, abre margem para o fortalecimento do discurso da extrema-direita. Não me surpreenderia, como foi dito anteriormente, que discursos de extrema-direita conseguissem levar um candidato para o segundo turno nas próximas eleições. 

No cenário econômico, as projeções nos mostram uma desvalorização ainda maior do peso, como ocorreu na data de ontem (19 de julho), quando o dólar blue chegou a 300 pesos (12,65 reais). 

Mas há um diferencial que deve ser destacado: a Argentina segue crescendo economicamente. A inflação bate na casa dos 70% no acumulado anual, mas o país segue com bons números em termos de crescimento econômico. Isso significa uma geração de emprego, que mantém as pessoas com renda – embora muito baixas. É uma população empobrecida, mas não pobre. 

O prognóstico, de forma geral, não é bom. Há de se dar uma atenção especial nos próximos meses às medidas adotadas pela nova gestão no Ministério da Economia da Argentina.

A revista o sabiá segue acompanhando o desenrolar da crise argentina e trará atualizações mediante mudanças.


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