O domínio de cena que Stanley Kubrick exerce em “De Olhos Bem Fechados” é um exercício visual que se relaciona perfeitamente com a narrativa, de certa forma; uma história sobre as aparências da instituição do casamento, e uma subversão completa dessas aparências, e do próprio casamento em si.

Esse exercício de subversão é alicerçado nos principais “Não-ditos” dos relacionamentos; o sexo e o desejo. O filme trabalha o sexo dentro desse caráter de tabu, quando não está relacionado a uma tragédia propriamente dita, esse está objetiva ou subjetivamente relacionado a alguma obscuridade, mistério – o culto e as máscaras são sintomáticas nesse sentido

A obra reproduz uma certa aversão ao sexo, enquanto simultaneamente não consegue negar o caráter fundamental que este tem nos relacionamentos humanos. Nas poucas cenas de intimidade entre o casal protagonista, interpretados por Tom Cruise e Nicole Kidman é perceptível um certo distanciamento, por um lado uma naturalização realista e uma insensibilidade perceptível da parte de algum dos dois no momento. Já as cenas de sexo no culto com as máscaras tem uma abordagem bem direta, são animalizadas, não só por causa das máscaras, mas pela câmera indiferente de Kubrick.

A cena da suposta traição da esposa é filmada com uma sensualidade latente, o corpo e as expressões de êxtase de Kidman martelam a mente de seu marido, enquanto este demonstra uma incapacidade de concretizar qualquer ato de infidelidade, ainda que tente ele se vê paralisado em tais momentos.

O filme não atribui ao desejo nem ao sexo um caráter específico positivo ou negativo, este é na verdade maleável, a zona cinza de todo relacionamento. Kubrick faz com que esses conceitos sejam mistérios, podendo-se atribuir a estes múltiplos significados, da ruína de um casamento ao ápice de sua ternura, e assim esses conceitos são submissas as vontades humanas bem intencionadas ou degeneradas, sendo assim essencialmente um mistério humano.