Um conjunto de documentos internos da Uber foram vazados para o The Guardian e compartilhados com o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ), descreve suas estratégias de expansão global – mesmo que a empresa tenha que quebrar algumas regras. O vazamento, apelidado coletivamente de Uber Files, consiste em mais de 124 mil documentos abrangendo o período entre 2013 e 2017.

Os arquivos mostram desde como políticos ajudaram a fazer lobby, nome estrangeiro sútil para corrupção, para a empresa, até como a Uber explorou trabalhadores voluntariamente.

A Uber respondeu ao vazamento com um post em seu site, afirmando que “passou de uma era de confronto para uma era de colaboração” durante a transição de Dara Khosrowshahi como CEO da empresa após a renúncia do fundador Travis Kalanick em 2017.

Segundo o jornal, o vazamento também mostra como “a Uber tentou reforçar o apoio cortejando discretamente primeiros-ministros, presidentes, bilionários, oligarcas e chefões da mídia”. Além de memorandos, apresentações, anotações e outros documentos reveladores, “o vazamento inclui emails, iMessages e trocas de WhatsApp entre os executivos mais notáveis da gigante do Vale do Silício”.

A Uber também recrutou uma força-tarefa de ex-funcionários públicos, incluindo muitos ex-assessores de Barack Obama. A empresa chegou a apelar aos funcionários públicos para poderem abandonar as investigações, alterar as políticas sobre os direitos dos trabalhadores, mudar leis de motoristas de táxi e relaxamento das verificações de antecedentes dos motoristas.

Executivos da empresa tiveram reuniões privadas com pelo menos 6 líderes mundiais, um vice-presidente e três vice-primeiros-ministros, incluindo o então presidente dos EUA, Joe Biden e o então Primeiro-Ministro israelense Benjamin Netanyahu.

Ao todo, os novos vazamentos revelaram mais de 100 reuniões entre executivos da Uber e funcionários públicos de 2014 a 2016, incluindo 12 com representantes da Comissão Europeia que não foram divulgadas publicamente.

Uber é exposta por lobista

Lobista de carreira, Mark MacGann, que liderou os esforços da Uber para conquistar apoio de governos pela Europa, Oriente Médio e África, veio à público se identificando como a fonte que vazou os 124 mil arquivos para o The Guardian.

Troca de mensagens entre o lobista Mark MacGann e o Presidente da França Emmanuel Macron. Imagem: ICIJ/Reprodução.

MacGann decidiu se manifestar, diz ele, porque acredita que o Uber desrespeitou as leis em dezenas de países e manipulou informações sobre os benefícios para os motoristas do modelo de gig-economy (arranjo alternativo de emprego) da empresa. O lobista reconhece que fazia parte da equipe de ponta da Uber – e não está isento de culpa pela conduta que descreve. Em entrevista exclusiva ao The Guardian, Mark afirma que foi ‘parcialmente’ motivado pelo remorso.

“Eu sou parcialmente responsável”, disse ele. “Fui eu quem conversou com governos, quem impulsionou isso com a mídia, e quem disse às pessoas que deveriam mudar as regras pois os motoristas se beneficiariam e haveria muitas oportunidades econômicas.

O plano de ofensiva

Em 26 de janeiro de 2016, mais de 2.100 motoristas de táxi na França, com apoio de redes de taxistas da Bélgica, Espanha e Itália, realizaram um protesto em massa contra a Uber em Paris e nos arredores da capital, bloqueando o anel viário e reduzindo o centro da cidade a um engarrafamento. Quase trinta motoristas de táxi foram presos por crimes de agressão e incêndio criminoso.

Na cidade de Lille, um motorista da Uber foi violentado com socos e pontapés após desembarcar um cliente em um hotel. Incidentes violentos semelhantes ocorreram em Toulouse, Marselha e Aix-en-Provence.

Taxistas em manifestação bloqueiam o trânsito em Paris, 2016. Fotografia: Aurélien Meunier/Getty Images

Como já documentado, motoristas da Uber foram alvo de sucessivos ataques violentos e, às vezes, de assassinatos por taxistas. As mensagens vazadas revelam que o fundador Travis Kalanick gerenciou pessoalmente o uso de táticas agressivas durante a expansão internacional da empresa.

Segundo o The Guardian, Kalanick enxergava a possibilidade de violência contra motoristas do Uber na França como uma oportunidade de construir apoio popular, e ele ordenou, pessoalmente, o fim de uma operação em Amsterdã. Às vezes, o ‘interruptor’ de matar era usado durante as incursões, enquanto a polícia procurava evidências.

O CEO Travis Kalanick envia mensagens para colegas sobre desdobramentos dos protestos. Imagem: ICIJ/Reprodução.

No material vazado, Jill Hazelbaker, a porta-voz de Travis Kalanick, afirma que nunca havia sugerido que o Uber deveria tirar vantagem da violência em detrimento da segurança do motorista. Alguns executivos do Uber discutiram o vazamento de detalhes de um esfaqueamento e outros ataques brutais à mídia na esperança de chamar atenção negativa para o setor de táxis, mostram as mensagens.

No entanto, a porta-voz de Kalanick disse que esses protocolos chamados de “kill switch” são “uma prática comercial comum e não foram projetados para obstruir a justiça”. Reafirmou também que os protocolos foram examinados e aprovados pelo departamento jurídico da Uber, e o ex-CEO da Uber nunca foi acusado de obstrução de justiça ou delito relacionado.

‘Menos direitos’ é mais trabalho

Em um cenário onde a Uber precisava de força política para se instalar em uma cidade, contratou ex-funcionários do governo para fazer lobby com ex-colegas. Quando sua agenda de lobby necessitava de um estímulo no campo de pesquisa, pagou a ​​para acadêmicos produzirem pesquisas favoráveis. Quando acusada de quebrar as regras, a empresa solicitou aos clientes que atuassem como lobistas de base e colaboração em petições como a “salve a Uber”.

Assim como fez nos EUA, a empresa atraiu motoristas de cidades europeias para sua plataforma oferecendo bônus e outros incentivos. Em seguida, reduziu os subsídios, privando os trabalhadores da renda da qual dependeram.

Após isso, a Uber recorreu a “investidores estratégicos”, indivíduos com bolsos cheios e conexões políticas, para influenciar as leis trabalhistas no exterior. Os executivos os incentivaram a investir no aplicativo e garantiram que eles estariam ‘vestindo a camisa’ o suficiente para ajudar a empresa a superar os obstáculos regulatórios em seus respectivos países.