Esses dias me deparei com um tweet que me fez refletir sobre como hoje a privacidade de fato é uma mera palavra que representa um conceito que inexiste na modernidade. Na era digital é praticamente impossível se esconder ou apenas viver sem ser constantemente vigiado, e não digo só pelo Estado, mas pelas Big Techs – que hoje já devem ser vistas como proto-Estados –  e as lógicas criadas por seus algoritmos que impactam como os sujeitos sociais interagem entre si.

Enfim, o tweet dizia algo envolvendo trends de aplicativos e a filmagem indevida de pessoas, seja tratando diretamente com elas, seja apenas filmando para comentar algo. Como abordei anteriormente, a privacidade foi completamente diluída, não só em seu sentido mas em sua essência coletiva, ontem (19) nos deparamos com mais um episódio que apenas provou este tema, o espetáculo envolvendo a mulher na casa abandonada.

O objetivo não é discutir os crimes cometidos por Margarida Bonetti (os quais devem ser completamente rechaçados), mas ressaltar os impactos que a era dos espetáculos vem trazendo para o que entendemos por sociedade. A lógica da interação para a popularização, ou melhor, o engajamento como gasolina das redes sociais vem propiciando um vício, a busca constante pelo espetáculo (que não pode parar).

O filósofo coreano Byung-Chul Han foi certeiro em sua obra ‘psicopoder’ em apresentar que hoje o famoso panóptico de Bentham se encontra diluído na sociedade por um todo graças às novas tecnologias. Hoje vigiamos uns aos outros ao passo que nos sentimos vigiados sem saber ao certo se o vigia está ou não nos observando, basta ter um celular em mãos que a vigilância ocorre de diferentes formas, seja ‘acompanhando’ os perfis de pessoas de interesse; seja efetivamente gravando e expondo as pessoas em geral. Ou seja, além dos próprios algoritmos que coletam dados envolvendo as ações dos usuários, nós – como sujeitos – somos levados a uma relação subjetiva de controle entre si.

O curioso desperta interesse; o interesse gera engajamento; o engajamento alimenta o Deus algoritmo e assim, por mais um dia, o perfil continua vivo e a plateia saciada. O que aconteceu na casa abandonada foi exatamente esse ciclo que, por sinal, não é algo novo, apenas atualizado, inclusive no caso de ontem o moderno e o arcaico desta mesma lógica se encontraram. Ao passo que a live invasiva da Luisa Mell ocorria em solo, o helicóptero repressivo do Datena sobrevoava o local. Ambos extratos do sensacionalismo nu e cru. Ambos na busca de se perpetuar no holofote do consumo imediato pela curiosidade. Ambos ausentes de qualquer escrúpulo e interesse em apresentar a informação da forma mais digna, ética e busque gerar um debate construtivo.

Há nessa lógica do espetáculo uma certa relação com a forma de punição que ocorria nos séculos passados quando a prisão não era a regra, mas sim o suplício. A condenação era na carne, no corpo condenado. A pena, diferentemente da visão moderna que busca afligir o ‘espírito’ através do cárcere e reclusão, era transferida para o corpo, ou seja, punições como: ter partes desmembradas, marcações de ferro quente que definem o crime cometido, fogueiras e humilhações. O espetáculo esconde a lógica punitivista por trás do show, ele normaliza o absurdo e transforma em showbusiness. A exposição do réu serve como objeto de satisfação dos desejos reprimidos de uma sociedade aflita que lhe transfere as dores que sofre, fazendo do espetáculo uma forma de redirecionar o problema e impedir que o sujeito social entenda a estrutura como real culpada, deixando a verdadeira vítima escravizada, desamparada e tratada como mera coadjuvante, por exemplo. Há uma retroalimentação do punir e ser punido, uma modernização do suplício transvestido de curiosidade e engajamento.

No modelo digital neoliberal da promoção individual e do consumo (material e imaterial) incessante é necessário manter os seguidores ‘entretidos’, senão a atenção será redirecionada para outro produtor que satisfaça o desejo imediato do usuário. Logo, com o picadeiro montado todos querem, nem que seja por alguns segundos, satisfazer a curiosidade de seus seguidores e se manterem sendo consumidos. O resultado desse processo gera situações como a presenciada ontem, uma multidão que se forma em frente ao local de investigação, diluindo qualquer processo de inquirição, transformando a ‘mulher na casa abandonada’ em uma estrela e, ao mesmo tempo, saciando a curiosidade (que logo mais irá exigir um novo produto a ser consumido). Cada um faz isso de diferentes maneiras, porém todos acabam por sedimentar a lógica da exposição e violação de privacidade. Enquanto não reconhecermos as sequelas que vêm sendo geradas pelas tecnologias neoliberais nas relações entre sujeitos, a cada dia seremos mais empurrados para um sistema primorosamente baseado no indivíduo que nos impossibilita de romper com ela e formar uma sociedade efetivamente coletiva e humana.

Sabiá

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